Pomegranate
Como toda criatura viva, Christian tinha preferências.
Sob seus lábios, a doçura de uma Romã madura era pincelada enquanto a sumo adocicado e único cujo tom de amaranto era sorvido com afinco que beirava a imoralidade.
O que falar sobre ele, um pacato homem que sabia que não viveria muito devido a suas trivialidades; sua juventude tardia, amassada pelos âmbitos militares e pelo tom carmesim do sangue que agora não mais anuviava os seus olhos, mostrava que, de certa forma, ele tinha pouco tempo.
Ele observou cuidadosamente a fruta exposta diante de si, tinha sido tão suavemente cortada que ele por pouco teve pena de degusta-la mais uma vez. Como uma criança que teme que seu doce acabe assim que se comece a provar, tensionou a si mesmo em moderar-se sobre aquelas doses.
A fruta avermelhada, alizarina, madura de tudo.
Christian queria provar dela.
Das quatro partes restantes, recolheu a primeira: as sementes unidas no sumo espesso quase demoraram a se ramificar e soltar do cerne da fruta, mas quando ele forçou mais alguns instantes naturalmente teve o que queria; a doçura a qual buscava se fez presente, tanto que, conseguiu se demorar aquele pedaço ao qual brandia um prazer inesperadamente doce e novo ao paladar tão refinado antes. Suas pálpebras tremularam em excitação quase ofegante, enquanto a língua recolhia cada pequena gota que dali restava na carne já dormente dos lábios.
Queria apreciar tudo, desde o primeiro instante.
E seu querer o fez provar à fundo coisa tão exótica, sem deixar que nenhum pedaço fosse desperdiçado. Mordiscou a parte interna da fruta, enquanto a maciez se quebrava em crocância e sabor sob uma textura aveludada nublava seus sentidos por segundos preciosos antes do derradeiro final.
Do segundo pedaço, Christian recebe a ciência de um segredo e a confirmação de seus pecados. A seiva preciosa escorrendo por seu queixo enquanto ele deslizava os dedos com firmeza pela casca brilhante que dava forma peculiar as sementes que brilhavam diante de seus orbes cinzentos e antes que conseguisse fazer mais, sentiu a transpiração de tal pedaço se estender a seus dedos. Como se vivo estivesse, manchava seus dedos com a pura essência do alimento.
Depois de tudo, não parecia haver mais néctar doce ali.
Se viu manchado daquela sensação tardia, apertando a fruta acima da própria boca e destruindo tudo com os próprios dedos, tal qual não o fossem: casca, semente, sumo, tudo caindo como chuva de sangue enquanto sentia um arrepio incomum cortar sua pele.
Lágrimas pincelaram seus cílios quando a terça parte esteve diante de seus olhos e presente no seu paladar. Como uma criança, sentiu o amargor da despedida que se antevinha e consciência de que a partir dali, nem mesmo se quisesse conseguiria impedir o derradeiro fim.
Com os olhos entreabertos, Christian percebeu que ganharia o mundo ao qual tanto almejado sob aquela promessa. Ele soube o quanto havia desejado e quanto teria de recolher, cada semente e cada gota de um líquido que agora tinha gosto de sangue.
Ele era humano, afinal de contas.
Preso em suas ambições e seus prazeres mortais.
Cego como uma criança que aprecia uma iguaria, esqueceu-se da sombra que permanecia seguindo-o como seu próprio destino traçado e como, também, um cão cuja função era unicamente o destruir.
O quarto pedaço não podia ser degustado ou mesmo tocado.
Tão especial, cultivado diretamente do ventre ele cresceria.
Um príncipe amaldiçoado, um cordeiro imolado.
Único e especial.
Num futuro próximo, Olivier adoraria a fruta de outrora como se soubesse seu significado. Fruto daquele pecado e daquele amor derradeiro, seria comum que o vissem com três pedaços de romã a serem apreciados.
Sempre três, pois o quarto... Não era mais do que ele mesmo.
A promessa de Christian cumprida.
















