TABLET/IPAD WALLPAPERS
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TABLET/IPAD WALLPAPERS
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Pomegranate
Como toda criatura viva, Christian tinha preferências.
Sob seus lábios, a doçura de uma Romã madura era pincelada enquanto a sumo adocicado e único cujo tom de amaranto era sorvido com afinco que beirava a imoralidade.
O que falar sobre ele, um pacato homem que sabia que não viveria muito devido a suas trivialidades; sua juventude tardia, amassada pelos âmbitos militares e pelo tom carmesim do sangue que agora não mais anuviava os seus olhos, mostrava que, de certa forma, ele tinha pouco tempo.
Ele observou cuidadosamente a fruta exposta diante de si, tinha sido tão suavemente cortada que ele por pouco teve pena de degusta-la mais uma vez. Como uma criança que teme que seu doce acabe assim que se comece a provar, tensionou a si mesmo em moderar-se sobre aquelas doses.
A fruta avermelhada, alizarina, madura de tudo.
Christian queria provar dela.
Das quatro partes restantes, recolheu a primeira: as sementes unidas no sumo espesso quase demoraram a se ramificar e soltar do cerne da fruta, mas quando ele forçou mais alguns instantes naturalmente teve o que queria; a doçura a qual buscava se fez presente, tanto que, conseguiu se demorar aquele pedaço ao qual brandia um prazer inesperadamente doce e novo ao paladar tão refinado antes. Suas pálpebras tremularam em excitação quase ofegante, enquanto a língua recolhia cada pequena gota que dali restava na carne já dormente dos lábios.
Queria apreciar tudo, desde o primeiro instante.
E seu querer o fez provar à fundo coisa tão exótica, sem deixar que nenhum pedaço fosse desperdiçado. Mordiscou a parte interna da fruta, enquanto a maciez se quebrava em crocância e sabor sob uma textura aveludada nublava seus sentidos por segundos preciosos antes do derradeiro final.
Do segundo pedaço, Christian recebe a ciência de um segredo e a confirmação de seus pecados. A seiva preciosa escorrendo por seu queixo enquanto ele deslizava os dedos com firmeza pela casca brilhante que dava forma peculiar as sementes que brilhavam diante de seus orbes cinzentos e antes que conseguisse fazer mais, sentiu a transpiração de tal pedaço se estender a seus dedos. Como se vivo estivesse, manchava seus dedos com a pura essência do alimento.
Depois de tudo, não parecia haver mais néctar doce ali.
Se viu manchado daquela sensação tardia, apertando a fruta acima da própria boca e destruindo tudo com os próprios dedos, tal qual não o fossem: casca, semente, sumo, tudo caindo como chuva de sangue enquanto sentia um arrepio incomum cortar sua pele.
Lágrimas pincelaram seus cílios quando a terça parte esteve diante de seus olhos e presente no seu paladar. Como uma criança, sentiu o amargor da despedida que se antevinha e consciência de que a partir dali, nem mesmo se quisesse conseguiria impedir o derradeiro fim.
Com os olhos entreabertos, Christian percebeu que ganharia o mundo ao qual tanto almejado sob aquela promessa. Ele soube o quanto havia desejado e quanto teria de recolher, cada semente e cada gota de um líquido que agora tinha gosto de sangue.
Ele era humano, afinal de contas.
Preso em suas ambições e seus prazeres mortais.
Cego como uma criança que aprecia uma iguaria, esqueceu-se da sombra que permanecia seguindo-o como seu próprio destino traçado e como, também, um cão cuja função era unicamente o destruir.
O quarto pedaço não podia ser degustado ou mesmo tocado.
Tão especial, cultivado diretamente do ventre ele cresceria.
Um príncipe amaldiçoado, um cordeiro imolado.
Único e especial.
Num futuro próximo, Olivier adoraria a fruta de outrora como se soubesse seu significado. Fruto daquele pecado e daquele amor derradeiro, seria comum que o vissem com três pedaços de romã a serem apreciados.
Sempre três, pois o quarto... Não era mais do que ele mesmo.
A promessa de Christian cumprida.
When marble speaks, miracles happen
Falling
“Não conte para ninguém. ” – Ouviu a si mesmo dizer, deslizando a mão até a nuca do mesmo e o trazendo finalmente para si.
O primeiro beijo tinha gosto de álcool, um licor vagabundo que eles tinham provado juntos até não mais haver nada e com a essência pesada de morango agora pairando não só na boca do outro homem como na própria. O que tinha se iniciado como uma brincadeira suave agora se metaforseava em um desejo intenso, tal qual o flerte que tinham tido sentados naquela mesa sozinhos.
Alfher não tinha se importado de como os demais membros daquela comitiva o veriam, então, aproveitou um pouco da calmaria que somente o outro lhe proporcionaria. A conversa que parecia não ter fim levou a toques suaves, sussurros e por fim no mais velho praticamente o arrastando para um dos quartos. Viu o olhar de Meg em si e sorriu, fazendo sinal para que ela não contasse o que tinha visto, ainda.
Ainda.
“Não conte para ninguém. ” – Repetiu ao passo que mal conseguia se manter com os olhos entreabertos, não quando era novamente beijado.
O segundo beijo teve gosto de volúpia, açucarado como uma sobremesa tardia e esperada: parecia ter sido feito especialmente para si, crescendo como calor desde os lábios até o baixo ventre enquanto conseguia ser delicado e prematuro, de completo descobrimento. Era diferente dos beijos de cereja, daquela magia das primeiras vezes e era melhor, mais experiente e querido.
Algo que ele jamais poderia pedir e tinha recebido.
Sorriu quando o mais novo interrompeu o ósculo, um medo diverso no olhar que logo foi desaparecendo quando os fios loiros de Alfher se tornaram da sua cor natural como seus olhos de opalina púrpuros fixos na imagem do mais alto que, fielmente, tinha se colocado de joelhos diante de si.
O terceiro beijo era suave como o amor juvenil, num acalento sem fim.
Os dois pareciam estar se conhecendo finalmente, agora que nenhuma barreira podia os impedir de se expressar verdadeiramente, rindo da própria falta de experiência e sorrindo quando as coisas entre os dois pareciam se encaixar bem até demais.
Não conte para ninguém.
Segurou firme quando foi erguido e guiado, sabendo que não ligaria de ser exposto e maculado desde que fosse pelo outro. Como um segredo, dedilhou os lábios dele com o indicador e o dedo médio enquanto pouco a pouco se entregava ao conhecimento puro que a embriaguez lhe daria.
Na confusão de suas roupas pesadas fechou os olhos para seu passado e para seu futuro, sorvendo a última gota de sua sanidade ao perceber o que aconteceria dali em diante.
Não conte para ninguém.
Alfher se despiu diante dele tal qual fosse uma honraria digna de um rei e então escorregou ambas as mãos pelos ombros do outro homem, desnudando-o também. O quarto beijo, quente, se veio com o rasgar do tecido e o suor mascarado em almíscar, dos corpos se encaixando tão bem que poderiam muito bem ter sido feitos um para o outro.
Ele se deixou ser manuseado pelo guerreiro que até então só tinha conhecido a guerra e a destruição: sorvendo suas lágrimas e seus terrores, permitiu que fosse empunhado como uma arma mortal e derradeira incapaz de ser trocada ou mesmo usurpada por outrem. Pois Alfher o era e sempre seria, como poetas tinha escrito era antes, carne a qual somente um homem tocaria e desejo ao qual um anjo sucumbiria.
Tão doce e tão sereno, incapaz de machucar alguém.
Ele se corromperia da dor, da angustia e do caos para ser amado e não ligaria, de imediato. A mente anuviada e cheia do etílico doce sabor de morango galgava em ritmo constante, conforme seu próprio corpo se tensionava como a arma que tinha sido nomeado.
Arma.
Alfher o protegeu de si mesmo, acolhendo o homem em seus braços quando suas próprias lágrimas escorriam pela face alva e sadia. Os cabelos longos em honraria e brancos como as nuvens do céu estavam em confusão espalhados entre ambos, num véu prematuro daquele encontro; eles se moviam, únicos e macios, incapazes de se desviar a atenção. Conseguiu, então, respirar mais profundamente e afastar os fios tão finos do rosto do outro – sendo que jamais esqueceria aquela expressão ou como seus cílios estavam molhados das gotículas imaculadas de suas lágrimas salgadas.
Não conte para ninguém.
O quinto beijo teve o gosto amargo da traição, pois tudo se findava. Alfher era o desejo de morte daquele homem, percebeu quase com tardio remorso.
Outra vez o trouxe para si, sabendo que os tremores eram tanto de excitação quanto de dor e foi incapaz de proteger seu próprio coração da ferida que aquele reconhecimento lhe trouxe. Os corpos moldados num formato único agora quebrados em mil entalhes de cristal, jamais novamente unidos como outrora.
Os lábios avermelhados que não sabia possuir foram novamente beijados no último e singelo contato.
Esparramado nos lençóis baratos com o cheiro do outro impregnado não só em sua pele, Alfher finalmente disse o que tinha pretendido desde a primeira taça de licor. As palavras soaram naturais ante a sua intensidade febril, desenfreadas na volúpia deles ainda estarem ali.
Ainda.
“Eu te amo, Kaoni.”
-
E as lágrimas banharam totalmente a face de Kaoni.
A sensação de furor ainda corria como o próprio caos instalado em seu quarto de descanso, sua respiração descompassada indicando que tinha até mesmo seu ser tinha se recusado a romper o deleite do sonho.
Ao seu lado, na cama, a figura de um dos membros da comitiva adormecido não fazia diferença – não quando de seus lábios tentariam soar outras sílabas para lhe acordar.
O sexto beijo, no mais tardar da aurora, tinha um gosto de licor.
Licor barato e de morango.
Um tipo de bebida nunca antes provada e apreciada.
Algo que somente quem não mais estava vivo poderia apreciar.
25
Há muito, existiam deuses e humanos na terra. Criaturas com diversos poderes e formas as quais ninguém poderia enumerar nos dias atuais.
Então esse mundo mágico habitava os dias das pessoas mais importantes e das mais comuns, não sendo motivo de muito temor e ira. A compreensão de que eram semelhantes em dividir o ambiente não permitia que o equilíbrio fosse quebrado de maneira fácil.
A pequena Cecilia nasceu num jardim, sob o olhar vigilante de várias ninfas curiosas; sua mãe tinha entrado em trabalho de parto sozinha e, pela falta de auxílio, perecido diante das pequenas flores amareladas. A criança sadia e nova chorou até que sua atenção fosse atendida e todas as ninfas da floresta entendessem que talvez fosse uma obra do destino que a pequena menina estivesse ali com elas, naquele jardim proibido.
Cecilia sabia que em nada era igual as suas mães ninfas ao crescer: sua pele que se tornava cor de pêssego ao sol nada se assemelhava com as nuances oliveadas das habitantes do lugar; nem mesmo seu cabelo era próximo, pois os caracóis loiros se derramavam perfeitamente sob as suas costas enquanto das ninfas, os fios esverdeados cheios de flores eram bem mais marcantes.
Ainda assim, ela se sentia amada.
Como a única criança no meio de quinze ninfas da floresta, acabou sendo o centro das atenções das mesmas. O cuidado exemplar, as brincadeiras doces, o ensino de como tratar a floresta e o jardim com seus pequenos animais estavam presentes em seu dia-a-dia. Talvez se tratasse da criança mais amada e desejada pois nenhuma das ninfas tinha sido mãe até aquele momento.
Pois o jardim permanecia fechado e a proibição da entrada de homens era regada a uma maldição que apenas a deusa que as protegia poderia reverter. E ela não o faria.
Pois os homens eram criaturas vis e cruéis, capazes de ferir quem quer que fosse para saciar seu desejo.
Naquele jardim, Cecilia cresceu em beleza e sabedoria. Ela era tão estonteante que mesmo as ninfas que cuidavam de si todos os dias se admiravam com sua beleza surreal; isso também as deixava preocupadas sobre o futuro da jovem, pois alguém poderia querer exercer poder sobre a mesma e elas, pobres ninfas, nada poderiam fazer sobre.
E indiferente a preocupação das ninfas, a jovem humana tinha o costume de se banhar a noite num lago próximo ao local aonde tinha de dormir.
Foi numa noite sem lua que Cecilia o conheceu.
Foi o primeiro homem que tinha tido o poder de entrar naquele ambiente e sua forma, tão distinta, chamou a atenção da moça. Ele era mais alto que ela e que talvez as demais ninfas, seus olhos e seus cabelos se assemelhavam a ônix cujo brilho se findava rápido; não usava roupas a partir de plantas ou qualquer manto esverdeado, tão somente um manto negro com detalhes em prata sem desenhos ou entalhes. Sem coroas, joias, qualquer adereço.
Apenas um homem, diante dela e sua nudez.
“oh minha deusa...” – Teve de dizer e este se sentou de maneira mais confortável na margem do lado ainda sem dizer uma palavra. – “Nunca te ensinaram que é mal educado observar alguém durante o banho?”
“E porque seria?” – Indagou a ela por sua vez enquanto gentilmente expunha totalmente seu rosto dessa vez. A cicatriz que cortava todo o lado direito e que deveria tê-lo cegado não passou despercebida por ela. – “Não fiz nada mais do que estar aqui e está de costas para mim. Não há nada para se ver.”
“Ainda assim é mal educado.”
O homem não conseguiu conter o riso tal qual dialogasse com uma criança e tivesse ouvido uma resposta impertinente.
“Vista-se, precisamos ir.”
“O que?” – Cecilia piscou confusa, cobrindo a parte superior do corpo ao se virar para este mais uma vez. – “Do que está falando?”
“Eu vim buscá-la.” – Havia mais delicadeza na voz dele, como se tivesse ensaiado as palavras tantas vezes que agora poderia dizê-las mesmo sem querer. – “Você se perdeu há muito.”
“Não pode fazer nada contra a minha vontade.” – Ela pontuou firme dessa vez, sabendo que se tratava de um homem pelas histórias tão familiares sobre eles impondo o que quer que fosse quando queriam. – “não é por que é um homem que pode aparecer no jardim e me levar. As coisas não funcionam assim.”
“É mesmo?” – O sorriso estava lá mais uma vez, devido a impertinência talvez. – “Acho que você sabe menos do que deveria sobre esse jardim, princesa.”
“Princesa?”
“No começo dos tempos... Existia apenas o Caos e nada mais. Ele era amplo, um deus de força imensurável até mesmo para os deuses mais poderosos e, estranhamente, ele se perdeu. A solidão o fez se destruir e colidir consigo mesmo, gerando outras duas criaturas são poderosas quanto ele mesmo: Nyx e Erebo, a escuridão e o vazio.”
“O que...?”
“Apesar de irmãos, Erebo e Nyx se casaram e tiveram numerosos filhos deuses.” – O homem a lembrou, como se ensinasse verdadeiramente uma criança. – “E eu sou o encarregado de te buscar, princesa.”
“Eu... Eu não entendo. O que isso tem relação comigo?”
“Erebo é senhor do vazio, mas foi trancado no Tártaro. Ou, é isso que todos acreditam.” – Ele parecia tão suave falando tudo aquilo, como senão temesse nada. – “Apesar da lenda dizer que Erebo e Nyx ficaram juntos... Ela o enfeitiçou.”
Cecilia terminou de se vestir, ainda úmida da água do lago e observou atentamente a expressão daquela criatura que estava do outro lado da água, mas não tão distante. Ele parecia ferido e irritado ao contar aquilo como se... Fosse pessoal.
“E... Ele nunca fez nada?” – Tentou descobrir mais, enquanto tirava a água dos cabelos e dava passos leves na direção do mesmo.
“Ele ansiou por destruir tudo pela traição, Erebo nunca foi um deus razoável.” – Ele fez um aceno com a mão, mostrando que aquele comentário significava mais do que deveria. – “Ele desejou transformar o mundo como todos conheciam no seu domínio, mas... Teve um pequeno problema antes. Algo que destruiu-o para sempre.”
“Mesmo?”– Cecilia se sentou a dois metros de distância, curiosa pela história que ouvia. – “Mas ele não era muito mais poderoso do que qualquer um dos deuses novos? Sendo gerado do caos?”
“Ele era.” – A escuridão profunda tomou conta do ambiente e, por alguns segundos, não era possível distinguir nada. Nenhuma luz ou pessoa, som, quase como um vazio. – “Porém até os deuses mais antigos podem se apaixonar e foi o que houve com ele. Erebo se apaixonou por uma jovem deusa e por causa disso, os dois pereceram em destruição: ele no Tártaro e ela... Selada num corpo humano.”
“Parece cruel.” – foi tudo o que conseguiu dizer ante a angustia que lhe crescia no peito.
O homem continuou sentado, mirando a mesma com ternura como se conseguisse ver além do que ela jamais veria. Cecilia acabou por perceber que ele tinha a pele tão esbranquiçada quanto a sua e, igualmente, usava uma pulseira de prata. A sua, pelo que as musas diziam, tinha estado no corpo de sua mãe mortal e era o único objeto dela que poderia guardar enquanto a dele... Por que tinham um mesmo objeto?
“Você precisa vir comigo Cecilia.” – Ele chamou e o choque a fez se afastar um tanto, arregalando os olhos.
“Eu...”
Ela percebeu que atrás do homem havia um tipo de escuridão que ela jamais tinha notado antes, como se o mundo tivesse se extinguido; parecia tão poderosa que o simples olhar lhe levava lágrimas aos olhos.
“Por favor, não me deixe sozinho.” – A voz dele de alguma forma parecia dolorida.
“Não posso.” – Se afastou mais um passo ao passo que todo o seu corpo tremia em terror. – “Isso... Isso é demais para mim.”
A forma humana de Erebo suspirou, como que cansada, e ele se sentou mais uma vez trazendo o ambiente à normalidade com um aceno. Também havia dor na expressão dele, por mais que o mesmo tentasse disfarçar aquilo, sem sucesso.
“Você corre perigo aqui.” – Ele confidenciou, estando diante dela num piscar de olhos.
A destra dele segurou seu queixo e o ergueu, até que os olhos de ambos estivessem fixos um no outro; não havia nenhum tipo de sensação costumeira no toque e nenhuma lembrança veio disso. Nenhum calor, nenhum cheiro, como se ele estivesse e não estivesse ali.
Vazio.
“Como...?”
“Se eu sei aonde você está, é fácil aos demais deuses te...” – Ele a soltou enquanto se ajoelhava diante desta. – “Esse jardim é a sua prisão. Confie em mim, vou te manter segura."
“Isso é um tipo de promessa?” – Cecilia via a tensão pela primeira vez nele, a figura tão imponente que a mirava como se soubesse qual fragilmente ela quebraria.
“Não é uma promessa.” – Erebo selou a testa dela com um beijo, a cobrindo com o próprio manto negro. – “Eu vou destruir o mundo se tentarem te tocar mais uma vez, minha luz.”
E antes que ela pudesse o responder, querendo saber mais, ele desaparece quando a lua se mostrou presente no céu.
Cecilia acabou adormecendo ali mesmo naquela noite, abraçada ao manto grosso e quente que parecia a proteger de alguma forma.
Os dias se tornaram longos e as noites curtas, como se o tempo estivesse correndo ao contrário. Aos poucos ela conseguiu enxergar coisas que não via antes: a forma como era observada, as orações, os animais fugindo da sua presença; como sempre atraía a atenção quando caminhava, fosse do sol ou das próprias ninfas.
E apesar da ausência do deus, conseguia saber que ele também estava ali.
Nas sombras que ela ainda não tinha coragem de visitar.
Até que finalmente teve coragem de fazer o que devia, diante das dúvidas de seu coração e se muniu do manto, como seu único pertence, e se afastou pouco a pouco do jardim. Ao passo que se afastava, a escuridão se tornava cada vez mais próxima e densa.
Como se a sua luz se apagasse.
Cecilia insistiu ainda, agonizando de uma dor que crescia em seu peito por um motivo exótico e sem sentido; quanto mais ela se afastava de sua antiga casa mais forte a queimação parecia preencher a sua pele, enegrecendo-a como se estivesse morrendo.
“Me ajude, por favor.” – Implorou enquanto mais uma vez caminhava, tentando achar uma saída, qualquer coisa que pudesse o ajudar.
Cecilia sentia algo e um terror crescia cada vez mais, como se ela não tivesse nenhuma maneira ou lugar de estar seguro. Ela continuava correndo, continuava tentando se manter viva.
Foi então que tudo começou: a luz que piscava no fundo da sua mente, que parecia a cegar em certo ponto e a fez tropeçar.
“Você é linda, já disse isso?” – A voz de Erebo soou divertida e ela sentiu o carinho suave em seus cabelos depois disso, sabendo que ele os tinha ajeitado.
“Fala isso para me agradar.” – Rebateu com igual riso, se deitando calmamente no colo deste. – “Você não consegue admitir que não me acha tão linda assim.”
“Beleza importa quando te amo assim?” – Ele se inclinou quase que totalmente e os lábios de ambos se tocaram vagarosamente. – “Você é mais importante que o universo todo, minha luz.”
“Só porque sou uma deusa ligada a luz... Não precisa me chamar de luz.” – Seu rosto estava um tanto corado e este sorriu disso, o verdadeiro sentido de estar sempre repetindo o apelido.
“Você é a minha luz no vazio, minha doce...”
O nome, seu verdadeiro nome, fugiu dos lábios dele como se tivesse sido apagado. E ela se viu caindo mais uma vez, diferentemente de antes, se tratava de uma espécie de jardim ainda mais perfeitamente cuidado.
“Querida?” – Ela escutou a voz de Erebo e o viu a mirar, em confusão. Por algum motivo, estava ajoelhada no chão com lágrimas no rosto, totalmente chocada com isso. – “Minha luz, fale comigo... O que houve?”
“Erebo...” – Por algum motivo, não conseguia falar.
Era como se o ar lhe faltasse e ela estivesse sendo engolida por escuridão, todo o seu mundo corpo cheio de veneno humano. Como se ela não fosse uma deusa e sim uma criatura fraca e frágil como humana.
“Eos. O que está acontecendo?” – O Deus do vazio a chamou pelo nome, em um terror parecido com o dela. – “Eos!”
“Eu...”
“Por favor, Eos... Eu vou dar um jeito.” – Ele a abraçou forte, tremendo muito.
Só conseguindo retribuir de maneira fraca o contato, adormeceu mais uma vez e acordou de mesma maneira: deitada e com o outro por perto. Eles estavam numa espécie de quarto bem decorado, cuja única luz se devia a magia e chamas; ela esticou a mão para o tocar e sem querer o alarmou e acordou, percebendo que diferente de si ele não parecia ter tido um descanso.
“Querido..?” – Sua voz estava cada vez mais fraca, quase extinta.
“Não se esforce demais.” – Ele lhe pediu com suavidade, beijando a sua testa. – “A maldição está ativa ainda, mas consigo controlar tudo daqui. Meus planos para com Nyx vão ter de ser adiados, mas...”
“Erebo, do que está falando?”
“Ela te amaldiçoou.” – O Deus se ajoelhou perto da cama, mantendo a sua mão próxima e a beijando de maneira devota. – “Se eu... Se eu não conseguir, Eos, você vai virar humana. Eles vão te transformar em mortal."
“É só isso?” – Ainda cansada e cheia de dor, teve de sorrir a ele. – “Achei que fosse algo muito mais sério.”
“Eos! Se você morrer... Morrer como humana e como deusa, nunca mais conseguiremos ficar juntos!”
“Você ainda não entende a extensão do meu amor, Erebo.” – Sua forma divina contou, sentindo lágrimas douradas escorrendo pela pele perfeita até os fios loiros repostos num dos vários travesseiros macios. – “Não existe maneira de nos separarem, não quando pertenço ao você como nunca fui de nada antes. Deusa ou humana, nesse mundo ou noutro, sei que estaremos ligados.”
“Eos, não me diga isso! Eu não posso, não posso te perder também.” – Ele insistiu, quase como se a ignorasse diante da dor que sentia em perceber a despedida. – “Por favor, minha luz, por favor não me deixe.”
“Todos os dias e ainda que na noite mais densa, a aurora de um novo dia vai se tornar a sua esperança. Dia após dia, noite após noite... Estarei te esperando. Porque você preencheu o que antes era sem vida, sem nada e trouxe tudo consigo: todo o amor, toda a felicidade e toda a calmaria. Se meu crime foi te amar, eu...” – A voz suave foi se tornando mais baixa, cada vez mais distante. – “Eu sou eternamente culpada por te amar, Erebo. Hoje e para sempre.”
“Eos!”– Ele chamou mais uma vez, enquanto o cômodo todo estremecia diante da partida da mesma.
“Erebo!”– Cecília chamou, já dotada de conhecimento o suficiente para saber que os deuses a queriam machucar. – “Socorro, Erebo!”
Lágrimas cristalinas escorriam por suas bochechas enquanto ela corria sem fôlego e sem rumo, imersa cada vez naquela escuridão profunda. O pânico a cortava como uma faca afiada e ela tropeçou mais uma vez antes de sentir algo a segurar pelo pé.
No segundo que o toque veio, a queimação brutal a fez gritar como nunca antes enquanto tentava sem sucesso se soltar.
“Por favor!” – Implorou e quando achou que tudo estaria perdido, ela foi engolida pelo vazio.
Pela aquela sensação de unicidade do infinito puro e composto, imerso de tudo que poderia ser feito e que nunca tinha sido tocado.
De alguma forma, se sentia segura ali.
Pois o vazio não era necessariamente a ausência de tudo, mas sim a presença dele.
“Me perdoe, eu demorei muito.” – O ambiente foi mudando conforme ele se mostrava, apenas para mostrar o quarto que ela reconhecia de suas memórias.
Eos tinha um quadro ali, em sua homenagem, mas Cecilia não se parecia nada com ela. Como poderiam ser a mesma criatura? Como poderiam... Merecer aquele amor?
“Minha luz.” – A jovem segurou a mão que ele lhe estendeu e ficou frente a frente com ele, sem temor ou medo dessa vez. – “Confia em mim?”
“Confio.” – Ela sentiu o beijo casto em sua testa mais uma vez e fechou os olhos, segurando firme nas vestes dele.
“Você prometeu que todos os dias estaria comigo, sempre quando um novo dia começasse.” –- Erebo tinha a voz suave e parecia convicto do que faria. – “E durante três milênios, estive esperando o seu retorno, minha luz. Seu retorno como Eos, como Cecilia, qualquer retorno que a sua alma quisesse me dar para que assim... Eu pudesse cumprir a minha parte da promessa.”
“Sua parte?”
“Não existe escuridão que seja capaz de apagar a sua luz ou o amor que sinto por você. Nem o tempo, nem a morte. Nada. E eu prometo que nunca mais seremos separados.” – Ele encostou a testa na dela enquanto respirava fundo, se preparando para fazer algo que ninguém antes tinha tido coragem. – “Como deus ou homem, estaremos juntos. Pois a minha alma é feita para ser sua em qualquer tempo.”
“Erebo o que...?”
“Te prometo que em outra vida, Eos, seremos mais felizes. Ou morreremos juntos tentando fugir desse destino cruel.”
Ele fechou os olhos e imediatamente todo o universo sentiu uma implosão. Um poder tão ensurdecedor havia se extinguido, de forma tão repentina, que haviam sobrado apenas fragmentos do evento no mundo: na demora da aurora em se despedir daquele dia em diante, de como a escuridão era tão profunda algumas vezes que parecia engolir o mundo todo. Em como um destino havia sido selado para toda a eternidade.
E Elizabeth não sabia daquela promessa.
Ainda que vivesse uma vida completamente feliz, a sensação de algo lhe faltar estava presente. Nada, nenhuma habilidade ou pessoa parecia substituir isso.
E sua pequena busca sedenta continuava com o passar dos anos.
Até que ele apareceu.
A maneira desengonçada, o sorriso e o jeito cativante de que eles... Já tinham sorriso um para o outro antes. A maneira que ela não conseguia mensurar sua sede por o conhecer mais, por o proteger e por querer o tocar.
Como se fosse uma extensão um do outro, vindos de tão longe para se encontrarem num acaso do destino.
Almas gêmeas.
Ela e Marcelo estavam destinados a uma sem fim tragédia que demoraria a se tornar um resultado em que... Ambos estariam juntos como Erebo e Eos tinham desejado.
Almas condenadas a se amarrem e morrerem por isso.
Num eterno dia de vinte e cinco horas.
Day 28
Changed the position of the study table, It feels new&fresh.I did Physics and Biology today. Also, there's this very little kitten, almost a week old, and it drinks milk like an angel .
Day 81-82-83
Catching up at this new schedule, the slow start feels at a pace now. I think today was decent and hopefully I'll be able to complete my week's goal + give some mock tests. I'm a little anxious but fine yk.
and i want some flowersssss for myself.
Hallelujah
Quando Olivier despertou o mundo não era mais como ele se lembrava.
O ambiente calmo e tranquilo, de céu límpido e constante parecia ter sido consumido por chamas escarlates, como se nada pudesse ser consertado ou amado.
Ele se encolheu, como se reconhecesse seu próprio corpo frágil e infantil para tão somente esperar a destruição criada pelo medo o dominar. Seu corpo friorento simplesmente não aceitava comandos simples para se proteger e suas mãos se arrastavam na terra vermelha do chão queimado que logo se desintegraria.
Fechou os olhos, tentando rezar para quem quer que fosse.
E tão suavemente quanto tinha começado, aquilo se esvaiu numa imensidão de profundidade imersiva que não continha absolutamente nada.
A pretensão da existência dominando o paradoxo do vazio completo.
Não havia céu e tão somente aquela sensação estranha de não pertencer a lugar algum, de sequer ser algo.
Estava tão imerso em si mesmo que demorou a notar a figura ao seu lado: o jovem de feições sérias, cujos cabelos lisos e negros escorriam como seda negra pela pele alva que estava toda descoberta na parte superior do corpo; ele não parecia muito alto, nem muito mais velho e ainda assim, sua aura poderia afugentar qualquer criatura inocente que desconfiasse do cheiro de sangue que brotava de suas mãos.
Olivier demorou a reconhecer Yuu e suas memórias com ele estavam embaralhadas em sangue dor, de vê-lo simplesmente...
"Yuu?" — Chamou e recebeu apenas um aceno com a cabeça aonde o mesmo parecia assistir algo no horizonte infinitesimal.
"Eu lembro de ter pedido, mas..." — A voz dele parecia tremular com inconstância e certa dor. — "Ainda não acredito que você fez aquilo."
Olivier sabia sobre o que ele falava.
Havia sido a primeira vez que experimentava a humanidade do parceiro e o pranto dele junto ao morto trazia ainda a acidez deles serem... Tão pequenos diante de um sentimento maior ao qual tinham sido restritos de ter.
"É só egoísta, eu queria... Queria ter beijado ele uma última vez." — De olhos fechados, ele deixava de mirar o outro ao seu lado. — "Queria ter... Ido com ele. Ou só ter sido eu a fazer aquilo, sentir o sangue dele esfriar."
"Não acho que você conseguiria." — Sem culpa, completou a ele. — "Você era dependente dele como era de sua sede de sangue, me mataria se eu o tocasse sem a sua permissão."
"É porque... Parecia certo." — A sinceridade nas palavras quase alarmou Olivier que piscou confuso a ele. — "Era certo enfrentar o mundo para estar com ele, ainda que eu o machucasse e o fizesse me temer. Era sempre... Estar vivo ao lado dele."
"Quem diria que você teria sentimentos."
"Ele era meu e eu era dele." — Yuu se deitou finalmente na grama e dessa vez Olivier viu sua forma adulta coberta de sangue e cinzas, o terror cortando a face dele para voltar a normalidade. — "Como você e aquela pessoa."
"Aquela pessoa?"
"Elizabeth." — As palavras saíram fáceis. — "Ter tanta inveja ao ponto de querer ser aquilo, proteger e amar. Porque nunca poderemos ser iguais, então..."
A frase caiu no esquecimento, como uma pluma glacial ao redor de ambos.
"Só preciso de um último favor."
"Mais um? Depois de tudo? — Teve de bufar e não se surpreendeu com o sorriso que iluminou a face dele.
"Um último duelo?"
Olivier o mirou sem entender, quase em choque como poucas vezes tinha tido o privilégio de estar. O que aquele doente queria? Jamais poderia responder com sinceridade, mas não negaria a curiosidade.
Imaginava se, caso fossem como as demais pessoas, seriam amigos de verdade.
Fechou os olhos por um instante, quase que imediatamente sentindo a chuva ácida pincelar em sua pele desnuda das comuns faixas e roupas pesadas; seus cílios pareciam imensamente pesados daquelas gotículas e demorou milésimos de segundo para os abrir definitivamente e ver a figura sangrenta de Yuu Kanda diante de si.
"Madeusto, Voxi Ferus." — Cumprimentou naquela língua estranha e o Cainhurst segurou firme a Katana embainhada, esperando qualquer sinal ofensivo.
Pela primeira vez, Olivier atacou primeiro e recebeu apenas o riso do outro como resposta quando ele segurou sua espada com uma das mãos nuas; a criatura a sua frente não parecia humana, mas mesmo assim ele tentava a todo custo não perder a imagem de Yuu de sua mente e não se perder em qualquer farsa.
Não soube como caiu de joelhos, mas lá estava enquanto tentava respirar fundo com o fio esmeraldino da espada alheia contra sua pele.
"Olivier?"
A imagem se desfigurou rapidamente para a de Elizabeth e somente quando a dor do primeiro chute o jogou de costas no chão que voltou a ver Kanda com olhos naturais.
O trigal que antes se estendia sem fim no horizonte agora havia se transformado num jardim de folhes minúsculas que pareciam derreter ao contato: chovia e chovia, como se o mundo estivesse de ponta cabeça e eles dois se divertindo sem regras; por causa disso, então, se deixou rir para a situação.
O que quer que aquele lugar fosse, era seu.
Quem quer que Yuu fosse, estava sob seu domínio.
Por isso, quando ele o atacou conseguiu facilmente o parar e também usar a força dele num contragolpe, que quase retirou a arma de seus dedos. Os dois continuaram o embate interminável pelo tempo infinito ao qual achavam necessário continuar, já que não tinham nada a perder.
O céu derramando ácido não era importante.
As flores de papel não eram importantes.
As lágrimas que se misturavam com as gotículas de chuva a escorrer pela pele se misturavam no riso insano, triste e perdido que hora ou outra teimavam em pronunciar no lugar de palavras. No fim, a única linguagem que conheciam era a da violência e somente por ela conseguiam expressar as criaturas moldadas pelo mundo que tinham sido desde o início da vida de cada um.
Havia tanto sangue... E ainda assim eles continuavam de pé.
Até que Olivier acabou caindo de joelhos diante do outro, que permanecia o mirando com igual atenção: Yuu parecia uma criatura mística, sob contrastes tão desiguais que o mantinham sereno e imortal como se realmente fosse um anjo da morte.
"Acabou?"
"Só existe uma maneira disso acabar Olivier." — Segurou a espada firme com ambas as mãos ao mesmo tempo que a mantinha contra a pele dele, como se esperasse que ele fizesse algo. — "Uma maneira desse ciclo sem fim se tornar uma única via."
"O que você.."
A dor do ferimento o atingiu como uma queimação certeira enquanto Yuu não parecia se importar de afundar ainda mais a lâmina contra a sua pele. Conforme ele se movia, como se tentasse descobrir o que podia ter dentro de outra pessoa, o Kanda tinha os olhos fixos nos seus enquanto permanecia ali.
Uma estátua de cruel êxtase, ponderando sobre a morte.
Quando Olivier pensou que seria seu fim, pelas mãos dele, a dor simplesmente ruiu em pura harmonia enquanto a figura se tornava um amontoado amorfo que explodiu numa cacofonia de pequenas borboletas sangrentas as quais tentavam sem sucesso sobreviver à chuva que as esmagava quase totalmente.
O viu cair de joelhos e ainda assim permanecer sorrindo, satisfeito.
"É o único jeito." — Yuu tocou o ferimento vendo o próprio sangue como ouro líquido e não mais como algo fatal ou impuro.
Yuu Kanda tombou nos braços de Olivier como se precisasse fazê-lo, quase em paz.
Pois ele tinha certeza que, de alguma forma, aquele não era o fim deles.
Não seria a última vez que o caminho deles iria se encontrar.
Scientist
Sentir seu corpo é como apreciar fragrâncias únicas, somente suas.
Para que logo eu fique coberto da sua essência.
Jacob sentiu a fragrância sem querer.
Algo adocicado, diferente de tudo que já tinha tido o prazer de sentir em sua pacata e vaga vida. Como se... Fosse incapaz de presenciar tal preciosidade diante da sua pequenez ou pobreza. Então, quando a encontrou pela primeira vez, foi como se atordoado fosse: o adocicado e o ácido, o frescor floral e o toque que se assemelhava a madeira e que ainda assim era diferente da madeira que ele conhecia.
Era místico.
Tão novo e belo que ele, um mero Evans sem renome, não saberia descrever em puídas palavras.
Naquela noite em que o mundo parecia desabar em sangue, cinzas e caos sequer conseguiu pensar muito naquilo, tão interessado no perfume que pouco entendia sobre quem o usava.
Ficou claro de que era dela quando se encontraram novamente, pois o almíscar do monge oriental não se mesclava com a delicadeza que se sentia capaz de sentir ao lado da mesma.
Aquilo deixava óbvio que eles eram de mundos muito diferentes e muito distantes, como se uma barreira invisível impedisse Jacob de sequer saber como ela pensava ou se poderia se aproximar de verdade.
Não conseguia parar de sorrir ao lado da mesma ou evitar estar quase completamente inebriado por seu cheiro.
Tão delicado e sedutor quanto um veneno prestes a matá-lo.
E ainda que ele parecesse ciente do que estava envolvido, dos perigos e dos riscos oriundos a cada ação que eles tomavam o mesmo permaneceu e se deixou inundar por aquilo.
Talvez por isso ele tivesse almejado aquele instante de loucura.
Talvez por isso ele estivesse puxando Beatrice consigo, enquanto se negava a dizer a ela a razão de tal tumulto.
Jacob parecia saber sobre o futuro, ainda que de forma indireta.
"O que você pens-..." — Antes que ela pudesse terminar a frase, o mesmo delicadamente segurou o rosto da mesma com ambas as mãos e tocou os lábios dela com os próprios. Era um contato arriscado, íntimo até e ele sabia o qual louco estava sendo.
Mas diante de tanto caos, tão somente queria se sentir vivo.
Sentir que aquelas coisas que eles estavam enfrentando não eram o comum e que aquele sentimento, tão suave e natural, era a verdadeira natureza humana. Era o que ele desejava acreditar, no que ele rezava a seu Deus e santos para que fosse realidade, enquanto o resto seria apenas mais um pesadelo infantil.
Beatrice correspondeu o beijo, não imediatamente.
As mãos dela o seguravam como se tivessem medo que ele simplesmente evaporasse e o mesmo se aproximou mais, praticamente a colocando contra a parede naquele beco isolado. E ainda que ele quase conseguisse sentir o coração dela batendo fortemente contra si, sua delicadeza o lembrou de que não seria certo estar ali.
Nem com ela, nem com os seus próprios sentimentos.
E ele se afastou de olhos fechados, inspirando aquele perfume afrodisíaco ao qual pouco ao pouco o fazia sentir como se a beijasse por inteiro.
"Isso quer dizer que... É real?" — Sua voz soou rasa e incerta como esperava.
"Sim, quer dizer que é real." — Beatrice garantiu, tocando os cabelos dele com cuidado e sentindo que os fios eram delicados e finos, apesar de mal cuidados. Ela quase conseguiu conter a surpresa quando o abraço incerto veio, mas não negaria a atração que decorria à presença do mesmo.
E ela correspondeu o carinho, praticamente os envolvendo ainda mais.
Talvez ambos soubessem o destino ao qual estavam fadados a percorrer de mãos dadas, como duas metades de uma mesma tragédia.
Talvez por isso os dois caminharam juntos em direção à casa da policial, sem conseguir conversar muito bem sobre o ocorrido ou sobre os eventuais amigos. O mesmo local que ela havia jurado nunca levar nenhum deles, principalmente Jacob, pois ela sabia o qual afeiçoada podia ficar ao mesmo.
A casa de Beatrice tinha cheiro de chá e flores, ainda que no momento não tivesse nenhum dos dois presentes. Foi guiado até o segundo andar, percebendo a solidão amistosa do silêncio como a calmaria da privacidade a qual ele nem sempre desfrutaria na sua própria.
Num quarto, Jacob entendeu.
Ainda que ele fosse capaz de quantificar cada pétala de rosa, cada pétala de jasmim... Seria incapaz de descrever a sensação de qualificar os estímulos e a maneira a qual era inebriado por aquilo.
Então foi incapaz de resistir.
Ele sorveu aquela fragrância com voraz avidez, ainda que suas lágrimas cristalinas tentassem nublar seus sentidos. De alguma forma, se sentia grato e maculado ao mesmo tempo, como que descobrindo o maior tesouro do mundo para em instantes o destruir; e ainda que a sensação ambivalente se tornasse presente em seu âmago, Jacob resistiu a ela.
Parecia saber que era a última vez, ainda que fosse a primeira delas também.
O Evans permitiu a sua própria nulidade para experimentar completamente a sensação.
Naqueles lençóis macios e num quarto escuro, Jacob se deixou submergir na volúpia do momento, atordoado pelo cheiro florescente que aquele prazer lhe entregava. Pois mesmo que estivessem naquele quarto escuro, mesmo que estivessem tão completamente concentrados um no outro, ele conseguia enxergar milhares de nuances de cor que jamais veria de outro jeito.
Ele queria ter cada gota daquele perfume, ele queria manter aquela lembrança tão viva que ao revivê-la, pudesse sentir a si mesmo beijando cada pedaço daquela pele.
Tingido sob aquelas cores, moldado sob aquelas notas de manjericão, lima e gardênias.
Naquela noite profunda, o mundo parou por um instante.
Antes que as vinte e quatro horas pudessem ser completas, Jacob Evans fez um pedido.
Aos deuses antigos, incapazes de simpatia humana. Aos deuses novos, tão impessoais e rígidos. Aos deuses mortais, capazes de o anular em terra; não importava.
Jacob pediu que nenhum mal os afligisse naquela pacata e silenciosa noite.
Ele clamou que a pudesse amar mais alguns instantes, tão preciosos instantes que ele tentaria se embeber daquele cheiro.
A essência do seu único amor riscada em sua memória, suave e doce.
Até o momento que a matou.
In & Out
Ele se despiu daquelas roupas pesadas e das ataduras de metal, tocando com os dedos frágeis e um tanto rígidos a água da banheira para saber a temperatura. Estranhamente, ele odiava a sensação do calor em si e a simples associação sobre isso o fazia ter arrepios dos mais intensos; como um eterno lembrete tatuado em sua pele sobre como ele tinha falhado com aqueles que amava.
Uma, duas, três vezes.
Ele entrou na água quase gélida e afundou ali, totalmente submerso enquanto pensava se ele conseguiria se sentir humano outra vez.
"A água lhe agrada?" — A voz firme e rouca indagou e rapidamente voltou a superfície, tentando se esconder do olhar do outro que havia lhe cedido um tanto de conforto. Ainda assim, a estranheza de tudo fazia sua pele se arrepiar enquanto pretendia a todo custo não mostrar aquela desgraça que rasgava sua derme como mácula. — "Você disse que não gostaria muito quente."
"Está... Agradável." — Ele se encolheu mais uma vez, tentando deixar apenas parte do rosto à mostra. — "Obrigado."
"Você não tem esse costume certo?" — O mesmo sorriu enquanto se aprumava melhor no lugar.
O quarto, diferente de uma casa comum, era cômodo aberto em que o banho poderia ser tomado próximo a cama e ao local de troca de roupa, talvez por isso ele se sentisse tão exposto diante do outro homem como estava naquele momento. Horváth respirou fundo, lavando o rosto queimado enquanto sentia as mãos tremendo muito, pois era como se estivesse sendo lido completamente por aquele homem.
E, por Deus, aquilo era demais para si.
"Olivier precisou fazer algo." — Lewis tinha a voz serena, como se sempre tivesse aquele tom em seus dias casuais. Era pacífico, manso e doce tal qual falasse com alguém muito importante. — "Ele vai levar algum tempo para voltar, não precisa ter pressa."
"Certo." — O mais novo respirou fundo, outra vez fugindo o olhar deste.
Por algum motivo, aquela imensa suíte parecia pequena para os dois. O ar parecia pesado como se estivessem cercados de estranhos, estranhos que apontavam e riam dele; como a sensação eterna do fogo, o homem mais novo também sentia o eterno julgamento velado, a mesma sensação de nojo por ser como era.
Se ergueu surpreso quando sentiu mais água ser jogada da sua cabeça para baixo e mirou o mais velho com euforia, querendo notar qualquer ameaça no outro enquanto a sua postura estava cada vez mais neutra. Era como se o mesmo já tivesse feito algo parecido, dada a normalidade do movimento e da sua expressão.
"Você sente vergonha?" — O mais velho se manteve muito neutro, usando aquela diplomacia comum a todos sempre munida do cheiro característico de tabaco queimado somado à umidade que o ambiente estava impermeado. Como uma mancha e uma marca, algo que não tinha sido totalmente machucado.
"Da pele?" — Mirou as próprias mãos por um instante, vendo os músculos que tinham renascido pouco a pouco depois do fogo se retesando ao leve movimento. — "Só de não ter morrido e feito o que deveria."
"Não diga algo assim." — O professor se ajeitou outra vez no estofado vermelho, enquanto o contato se mantinha cada vez mais distante. — "Existem coisas que não controlamos, como coisas que sequer podemos entender num segundo. As coisas humanas se tornam cada vez menos constantes enquanto envelhecemos, como se a sua vida não fosse nada além de páginas envelhecidas que pouco a pouco devem ser restauradas e trocadas."
Horváth o mirou de maneira surpresa, como se este o tivesse lido muito rápido e afundou mais uma vez na água que esfria até quase estar congelante; a pele esticando cada vez mais por estar sendo tão machucada por estar úmida.
"E a sua família?" — Teve de indagar de maneira quase curiosa, ainda de costas a ele. — "É comum que um estranho se banhe no meio do seu quarto?"
"Minha mulher e eu brigamos, talvez porque não estou sendo como eu mesmo esses dias. Acredito que ela também não estaria em seu juízo perfeito se estivesse no meu lugar." — O russo se virou o suficiente para ver o estranho dono da casa acender um cachimbo, inundando o ambiente numa nova nuvem de fumaça e fazendo com que esse tipo de névoa mantivesse tudo numa penumbra cada vez mais densa.
Tabaco preenchia o ambiente como um entorpecente mais forte do que realmente era e ele somente inspirou aquilo profundamente, afundando completamente na água.
Tão familiar.
"Não precisa sentir vergonha de você mesmo, rapaz." — Por alguma razão desconhecida, Lewis parecia estar tão perto de si, perto o suficiente para que estremecesse num arrepio diferente de qualquer um de frio ou medo. — "Nenhuma marca superficial apaga quem é você por dentro."
Horváth aceitou a toalha macia, mas ainda assim se ergueu devagar e se cobrindo o máximo que conseguisse.
Seu olhar se desviou para o do professor por um instante: Os cabelos bem arrumados, as roupas que pareciam novas e macias, além do perfume almiscarado que impregnava com mais intensidade o ser do russo conforme se misturava com o tabaco que ele fumava sem parar. Apesar das rugas e de ser evidentemente mais velho, tinha um sorriso gentil e a voz compreensiva de que o lia completamente.
Todo e por inteiro.
"Que tipo de professor aceita que um estranho venha a sua casa e tome banho nas suas coisas?" — Indagou de maneira quase ríspida, amarrando a toalha na cintura antes da segunda a lhe ser estendida estar secando os cabelos fios que haviam sobrevivido de alguma maneira ao caos do fogo. — "É por isso que a sua mulher e filhos não estão em casa?"
"Você me teme por motivos indevidos, Horváth." — O riso certeiro fez com que o rosto do antigo ladrão ficasse quente, um tipo de rubor único. — "Motivos pelos quais não deveria me temer."
"Não deveria?" — A pergunta soou tensa, arrastada como se ele tentasse se atentar à própria mentira. Os dois sabiam do jogo que tinham se encaixado, sabiam exatamente como as peças estavam sendo apresentadas. — "Então, o que devo sentir por você?"
Lewis sorriu, como se esperasse aquela pergunta:
"Existem pequenos prazeres, jovem Horváth, que nós homens fomos fadados a depreciar." — Como um bom professor ele o conduziu a uma rápida aula, guiando o outro para a repartição do cômodo que se assemelhava a um trocador e uma penteadeira. A imagem de si mesmo fez o russo querer desviar o olhar, todavia a figura certeira do outro atrás de si o impediu totalmente.
Lewis e seu porte, Lewis e sua firmeza.
"Fomos obrigados a esquecer instintos, macular nossos corpos com crenças levianas." — Enquanto o outro se sentava, o grisalho calmamente escorregou as mãos por seus ombros e não parecia se importar com as cicatrizes feitas por outro tipo de maldade humana. — "Tão inconscientes de nós mesmos, Horváth, esquecemos que já fomos criaturas vis. Criaturas que só precisavam saciar seus instintos."
A aproximação e o tom rouco fez com que prendesse a respiração, sentindo o toque crescer exatamente na região central do peito e descendo cada vez mais, entalhando a pele com as digitais gastas pelo tempo.
Horváth era como papel que não cedia ao ser tocado para a troca de páginas, era como a falta de elasticidade que crescia em cada poro da sua derme queimada que incessantemente se arrepiava. Era como uma criança que descobriria em si mesmo o cheiro de capim-limão do banho recém tomado, sentindo aquilo o inebriar como uma novidade tão inesperada que trazia lágrimas aos seus olhos.
Ele fechou os olhos diante do contato, o hálito de licor de cereja tomando quase totalmente seus sentidos.
Se entregar à essência do contato não tinha sido difícil, como era incapaz de negar o magnetismo que o outro possuía sobre si, o conduzindo para o que quer que fosse. Era como se estivesse sido afogado naquele prazer crescendo que explodia de seus lábios como uma canção incoerente.
As lágrimas que escorriam sem ser interrompidas se tornavam constantes enquanto a sua carne era maculada e tocada, manchada por um êxtase inexistente até então. Da mesma forma, se deixou descobri-lo e colocando em voz alta a sua ânsia pelo desconhecido a si apresentado, sem entender como aquele comportamento podia ser tão odiado.Lewis era personificação de um tutor que guiava seu aluno mais novo, permitindo que seus pequenos erros se convertessem em acertos claros.
Horváth sentiu que era como um homem comum, alguém que não tinha sido desfigurado e causado uma tragédia, sendo capaz de ser amado.
Desejado.
Ele se afundou numa maresia desconhecida e soube que não poderia sair dela tão facilmente: o oceano que Lewis era, cujas ondas cada vez mais ferozes o afogaram sempre que buscava ar ou fôlego; o embalo sistemático e ritmado que era abraçado, sempre jogado cada vez mais fundo no subconsciente do momento. A pele fria, coberta de água salgada se retessava em arrepios que nublavam a sua capacidade de ser coeso com falas ou pedidos; ele se desmanchou como páginas de papel escritas na vastidão azul-marinho do mar salgado e percebeu que gostava daquilo.
Gostava de sentir a fraqueza que tomava conta de seu corpo por inteiro e da sensação de imersão, depois de muito lhe faltar ar. De como o cheiro era único como álcool envelhecido, mar e suor sendo tudo misturado nos lençóis amarrotados de linho gasto.
Gostava do gosto de sal e de licor que permaneciam na sua língua e da sensação de estar preenchido por algo que sequer sabia o nome. Muito mais que físico, muito mais que apenas emocional. Como... Estar completo.
Ele piscou, sentindo o outro se inclinar para si mais uma vez e aceitou o novo beijo com a mesma satisfação da primeira vez.
Entretanto, algo lhe chamou a atenção e o tirou do transe.
Lewis batia um talher numa xícara de porcelana, como que o chamando de volta a realidade. Parecia um pouco cansado e tinham diversos livros abertos sob a mesa, numa pesquisa natural na hora do chá; o cheiro intenso de papel e mofo não incomodavam Horváth de nenhuma maneira.
E ele percebeu que tinha divagado, só pela forma a qual o outro o mirava sério.
Conseguiu somente pegar mais um pedaço do bolo comprado, imaginando se os lábios de Lewis também teriam o gosto de licor de morango e se ele teria cheiro de maresia e antiguidades.
Mas no fim, tudo não passava da sua mente lhe pregando peças e era preciso se atentar a cruel realidade que os machucaria em breve.