Em uma sexta feira
Aphrodite parou de alisar seu cabelo em uma sexta feira.
Sempre foi algo que ela não pensava muito ao fazer, o ato de alisar o cabelo. Seu cabelo natural era enrolado e um tanto crespo, volumoso ao cair por seus ombros, e ela não se lembrava de como é tê-lo assim desde que ela tinha treze. Porque, é claro, ela devia alisar o cabelo, certo? Assim como, é claro, devia vestir saias cada vez mais curtas, e devia usar todas as maquiagens que sua mãe lhe dava. É o que as garotas fazem, certo?
Em algum ponto, alisar os cabelos tinha se tornado uma prisão.
Aphrodite odiava alisar o cabelo. Odiava, odiava. Tomava tempo, ter que ir no cabeleireiro frequentemente, passando horas naquela cadeira de couro enquanto mais e mais produtos químicos eram colocados em seu cabelo. Com o tempo, ela tinha se acostumado com o ardor que os produtos causavam, mas isso não significava que ela não o sentia. E, mesmo fazendo isso, tinha de passar horas aplicando a chapinha depois de cada banho, se preocupando com coisas tão ordinárias como a chuva.
Mas, é isso que ela devia fazer, não é? Ela devia ser bonita, e isso incluía ter um cabelo liso. Também significava que ela não devia ser inteligente. Não devia falar o que pensava. Devia raspar cada pelo que se atrevesse a crescer, devia gostar de garotos, nunca devia esquecer de aplicar o batom, devia…
Não era como se ela odiasse a feminilidade, não de verdade. Ela gostava de ser bonita, e gostava de se sentir bonita. Escolher roupas, vestidos e maquiagens ainda era uma das coisas que ela mais gostava de fazer. Só que… todas as imposições, imposições que a perseguiram por toda a sua vida, a sufocavam. A faziam querer desesperadamente um pouco de ar, deixar as partes de si que sempre foram escondidas expostas, orgulhosamente.
No momento em que ela percebeu que ela não precisava seguir os padrões se ela não quisesse, que a vida era sua e o mundo livre para ser experimentado, ela se deixou voar.
Aphrodite parou de alisar seu cabelo em uma sexta feira, e respondeu uma pergunta do professor (corretamente, diga-se de passagem) em uma segunda. Ela se permitiu tirar sua primeira nota perfeita na quarta, e foi sem maquiagem para a escola (porque ela simplesmente não estava com vontade naquele dia) na quinta. Aphrodite beijou a garota que ela tinha fingido não achar bonita na sexta.
Era pouco, mas era um começo, e ela se sentia livre e poderosa, de um modo que seu cabelo liso e padrões bem definidos nunca lhe deixaram ser.


















