A menina quebrada: um [outro] olhar sobre a vida
Se há uma palavra em que o livro “A menina Quebrada”, editora Arquipélago, da jornalista Eliane Brum, possa ser resumido, seria “quebrantador”. Como define a autora em seus textos publicados ao longo do tempo em que escreveu para a coluna, de mesmo nome, no site da revista Época, saem desapontados aqueles que esperam finalizar com sorrisos, suas crônicas. As histórias e os problemas apresentados ao decorrer dos 64 textos nos levam a refletir a respeito da vida e a forma com que lidamos com ela. Eliane Brum arrisca dizer que a vida pode ser tudo, menos rasa.
Não saem surpresos aqueles que já conhecem o talento da repórter exemplificado em outras obras como “A vida que ninguém vê”, editora Arquipélago, 2007, dentre outros trabalhos já publicados. Eliane Brum defende que é necessário ver além do óbvio. Sair da mesmice entediante dos clichês que somos polidos e buscar as diferentes realidades nas verdades que nos são confrontadas. Em uma linguagem direta e cativante, somos levados a discutir a respeito de assuntos e histórias que, em hora, mostram-se entrelaçadas com nossos maiores questionamentos, como medicina paliativa, vida e morte.
No artigo “O perigo da história única”, são contadas duas histórias que nos dão a imensidão do que é o perigo de viver uma única história, mesmo que ingenuamente, acreditando que a vida tem apenas um lado a ser observado, uma única visão a respeito dos fatos, diminuindo a possibilidade sobre a pluralidade que é viver e ser. A primeira história contada é a de Claireece Precious Jones, do filme ‘Precious’, traduzido como ‘Preciosa’ nos cinemas do Brasil. Preciosa é uma jovem negra e obesa que enfrenta em casa diversos conflitos como violência sexual, verbal e moral por parte de seu pai. Na escola é apenas percebida por seu tamanho. Analfabeta, é desacreditada pela vida de que há um sentido em viver. A outra história é de Chiamamanda Adichie, escritora nigeriana que contou, em palestra, as dificuldades encontradas quando se mudou para os Estados Unidos e deparou-se com os estereotipos atribuídos a ela a partir da imagem que tinham do continente africano.
Nem mesmo Preciosa tinha ideia do que era ou do que poderia ser. Absorvia somente o que lhe era dito: negra, pobre, gorda e burra. Até que foi estimulada por uma professora que viu nela uma história escondida atrás do que já fora construído. Como diz Eliane Brum, quando a jovem descobre que pode escrever sua história, também aprende que pode reescrevê-la, dando a ela um outro rumo. Chiamamanda, já escritora, chegou a ser cobrada por seus contos não serem “tão africanos”, como se somente pudesse ter um perfil de ser africano. O perigo da história única que Eliane Brum tenta nos passar, é evidenciado nestas duas histórias. Tanto Preciosa quanto Chiamamanda são vítimas de uma sociedade pobre em expansão das possibilidades do que é ser alguém.
Mais que um livro de crônicas, “A menina quebrada” nos permite transgredir a realidade que nos é apresentada, através de uma discussão reveladora a respeito da vida e a forma que dialogamos com ela. O livro nos dá a permissão de enxergar além do clichê e das histórias únicas, dando-nos a chance de rever nossos preceitos até então adquiridos.