A cegueira de enxergar o óbvio
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Há uns dias resolvi aceitar o convite de uma amiga e fui assistir ao novo filme do Fábio Porchat, Entre Abelhas. De início, pensei que fosse apenas mais um filme de comédia montada, daqueles que a gente ri antes mesmo da piada ser concluída, não por ser engraçada, mas prevista. O que vi não foi comédia, tão pouco teve graça. Vi a vida como ela é, a encenação da realidade não ficcionada de se relacionar não somente com o mundo, mas com o principal personagem, nós mesmos. Em um mundo de cegueira em que enxergar é uma escolha.
No filme, Bruno, interpretado por Fábio Porchat, é um editor de imagens recém divorciado. Na trama, ele tenta reconquistar o amor e a atenção de sua ex-esposa, enquanto em meio a problemas ele deixa pouco a pouco de ver as pessoas.
Da ficção à realidade, deixamos todos os dias de enxergar quem está ao nosso redor, pouco a pouco todos nos tornamos Brunos da vida moderna, aprisionados dentro do limite imaginário da nossa autoconsciência, acreditando, claramente, que estamos no controle e nada nos foge aos ouvidos, aos olhos, quando na verdade tornamos real somente o que nos interessa, o que de alguma forma nos traz proveito. Estamos, paulatinamente, deixando de ter a percepção no mundo, e pior, nas pessoas que o compõe. Egoístas - ou não - fazemos do nosso olhar a ferramenta que nos coloca em primeiro plano, esquecendo de ver ao redor o mundo que nos cerca além das nossas vontades tão supervalorizadas.
O pior processo da cegueira, assim como mostra o filme, é quando não conseguimos encontrar uma razão para ela, um único motivo que nos faça ligar os pontos e entender o que está ocorrendo. A cegueira, a física, nos tira a possibilidade de ver com os olhos, mas nos permite enxergar com outros sentidos além do corporal. Nos permite fazer do coração nosso principal instrumento de visão. Em "O Pequeno Príncipe", livro do escritor francês Antoine de Saint-Exupéry, um trecho nos faz refletir ainda mais sobre o papel do coração e dos olhos em nossa vida, quando em sua fala o pequeno príncipe diz que "o essencial é invisível aos olhos".
Estamos nos tornando cegos sem perceber, numa cegueira em que a própria visão é a principal causadora da epidemia. Estamos nos tornando cegos por preguiça de olhar dentro de cada um que nos cerca e perceber a sua essência.
O que vemos diz muito sobre quem somos, e o que queremos ver diz muito sobre o que queremos ser. É essencial que nos façamos as perguntas: o que eu vejo e o que eu quero ver? Ao parar para pensar percebemos que vemos muitas coisas, geralmente, o que queremos, mas isso é fácil, o difícil é dar luz ao que não queremos ver. Enxergar o que nem sempre nos é "importante" é o maior desafio de ver a vida e as pessoas por completo.
No filme, Bruno, ao se deparar com sua cegueira, depara-se com sua solidão. A solidão de não ver mais nada, pois nada já lhe é importante. Assim como no filme, a vida tira de nós o que deixamos de prestar atenção, de nos dedicar um tempo para olhar.
Ver quem está ao nosso redor, diretamente ou não, e perceber seu valor, sua importância e a grandeza de sua presença em nossa vida, nos torna mais que humanos, nos dá a oportunidade de ir além dos sete sentidos e enxergar além dos muros, dos esteriótipos. Enxergar de fato o que é essencial. Perdemos muitas coisas, oportunidades e pessoas. Simplesmente deixamos ir sem ao menos olhar para elas, sem enxergá-las. Parar para olhar o que muitas vezes não vemos pode ser um exercício revelador, não somente para o outro, mas para nós mesmos.