Racismo re(in)verso, misandria, femismo, cisfobia, heterofobia.
Antes de entrar em detalhe sobre os termos acima, temos que deixar algo claro: isso existe. Não estou brincando, essas coisas realmente existem. Por que eu falo isso? Oras, é simples. O pavor, desgosto, ódio, o que for, por uma classe dominante é algo extremamente normal, afinal, o oprimido tem o direito de se revoltar, tem seus mecanismos de defesa e eles se apresentam, algumas vezes, dessa maneira. Como uma repulsa. Um trauma. Isso, no entanto, opera na nível individual, ou seja, não é coletivo. Não é um sistema. Não é um mecanismo. Não faz parte de uma estrutura criada para legitimar relações de poder e opressão. Não, isso é simplesmente uma resposta à estrutura, e aí está a questão.
Racismo, misoginia, machismo, transfobia. O que todas essas coisas tem em comum? Todas configuram o preconceito a uma classe já oprimida. Por classe oprimida eu me refiro a qualquer coisa que não seja um homem hétero branco cis cristão.
Irei me referir à classe dominante como "O homem". O homem está na posição extrema superior em relação as outras demais classes. Eles controlam a política e a economia, já que constituem uma maioria gritante nos dois âmbitos, ou seja, eles definem o que é certo e o que é errado para a sociedade comum. E assim foi feito durante anos e anos em nossa sociedade. A masculinidade, uma vez que é um aspecto marcante dO homem, foi enaltecida, tida como superior. A adoração pela pele branca, outro aspecto, também veio dO homem, já que, como vocês sabem, a Terra foi "descoberta e colonizada" pelos europeus que, advinhem? Tem, em sua gritante maioria, pele branca.* Eles eram hétero e eram cis e, mesmo que alguns não se encaixassem nesse padrão, não haviam estudos, confortabilidade e espaços para aqueles que não se enquadravam nesses padrões, o que os forçava, por medo do desconhecido e medo da não-aceitação, a se esconderem. Por isso não conhecemos muitos gays ou pessoas trans da história antiga.
Mas, retomando o assunto, definimos aqui que existe um padrão de superioridade. O masculino. E, para manter esse padrão e legitimar sua condição de superior, eles criaram, durante muitos anos, talvez de forma inconsciente ou consciente, o preconceito. Marx dizia que a sociedade é dividida em duas partes, uma que contém as relações de poder (leia-se: opressão) e a outra que contém as ideologias de uma época. Ele diz que uma legitima a outra e uma sustenta a outra. Ou seja, para que haja um sistema escravocrata, precisa-se ter uma ideologia escravocrata na sociedade também, que é também apoiada por outros mecanismos dessa estrutura, como a religião, a cultura, a música, entre outras coisas. Então podemos notar que, para que a sociedade atual mantenha-se patriarcal, branca, cis e hétero, é necessário um ideologia que se equivalha a isso e já temos (tanto é que nossa sociedade é do jeito que é). Ou seja, para que O homem mantenha-se no poder, é necessário a ideologia do racismo, da misoginia, da transfobia, entre outros. E isso é o que é real. Isso é o que é material.
Quando uma pessoa negra, no entanto, xinga uma pessoa branca por sua cor, por seus traços, ou o que for, isso não configura uma opressão. Simples, afinal, não contribui para o sistema patriarcal branco que está instaurado em nossa sociedade. Na verdade, é o contrário, ele vai contra essa opressão. O negro, ao se rebelar contra o branco, quebra o status quo (eu amo usar essa expressão), ou seja, ataca o sistema atual, as coisas que são tidas como normal, a situação presente. O negro, a negra, a trans, a travesti, a mulher, o homem trans, ao manifestar o que muitos chamam de racismo reverso, cisfobia, misandria ou o que for, na verdade, estão se colocando numa situação contrária à de uma pessoa que pratica a opressão "real" (racismo, transfobia, machismo), pois ela se coloca contra a corrente. Não há lado positivo estrutural para uma pessoa que ataca alguém que está no poder, pois não haverá uma mudança ou troca de posições. O homem ainda continuará no poder e a classe oprimida, não. A sociedade atual não permite que os mecanismos de defesa dos oprimidos estruturem uma opressão real pois a dominação dO homem ainda existe e está longe de mudar e, ao se colocar contra a ideologia predominante, a classe oprimida se manifesta contrariamente e isso pode intensificar a opressão cometida contra essa pessoa ou contra a classe, afinal, O homem precisa manter-se no poder. Apenas através de uma grande revolução é que essa hegemonia patriarcal poderá acabar pois é apenas assim que as relações de poder mudam.
Ou seja, por mais que você, pessoa branca, se sinta ofendida por ser chamada de “danone” (amo), você ainda ocupa um cargo superior à da pessoa negra e, por isso, você está oprimindo ela constantemente, mesmo que indiretamente, mesmo sem querer. Você está na posição superior e não pode ser oprimida por algo que lhe é inferior.
*Não posso dizer se todos, na época das explorações, eram brancos ou se já haviam negros na época, porque, bom, eu simplesmente não sei, mas posso falar com certeza que a maioria era branco.