A leveza de seus passos quase não deixa pegada na areia, e os cabelos mesmo soltos ao vento mal parecem embaraçar. Uma pintura. Não, pois seria indicar que sua graciosidade é estática, e não o é, jamais seria assim para uma dançarina. A melhor da ilha, a melhor de todas, você pode ouvir falar. Vi algumas dançarinas na internet, lá na biblioteca, Cisne, e você é a mais delicada e elegante de todas. Ela agradece com um sorriso, diz que são seus olhos, e cada movimento seu é… belo. Jamais ter precisado sujar as mãos deve ter ajudado. Bom, isso é pouco falado. Ao menos na sua frente. Filha do maior agricultor da ilha, Cisne é a princesa de Piaye, intocada. Tão intocada que era óbvio que o casamento com Baleia não iria para frente. Observando com o canto do olho enquanto caminha pelas ruas de Magdalene, ela pode ouvir quando o vento traz comentários sobre isso. Não era mentira, era?
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Cisne e Baleia foram high school sweethearts. Ela, filha de agricultor, ele, filho de pescador. Todo mundo sabia que seria difícil. Mesma escola, uma ilha tão limitada que poderia ser sinal de compatibilidade, mas rotinas tão diferentes. De toda forma, perseveraram no relacionamento feliz apesar de qualquer pesar, entendendo que tinham algo construído e a seguir construindo. O noivado não foi mal recebido pela família de Cisne, mas tampouco fora comemorado, e não pode-se dizer que a família de Baleia tenha colocado muita fé, mesmo depois de tantos anos. O fim foi honestamente um alívio, um “bom, era de se esperar, agora sigamos”. Os dois sofreram terrivelmente a falta um do outro, e as recaídas não foram raras, mas o relacionamento nunca mais retornou.
Cisne poderia jurar que vira Delfim na noite em que sua mãe se foi. Só não o faz porque isso é assunto proibido. Fala-se sobre os arrastados para dentro do mar, mas não se fala sobre quem os arrasta. É uma política da boa vizinhança com os tarka que Cisne abomina, mas segue, sem ter a coragem de falar algo desagradável em alto e bom tom. E a sua reputação? De qualquer forma, quando ele apareceu três anos depois, tinha exatamente o rosto que ela lembrava da criatura de mãos ágeis que segurou sua mãe pelo pé, a última vez que a vira. Delfim entende que Cisne o detesta, é notável para si, seu olhar perscrutador incapaz de deixar passar que ela evita todos os tarka, por mais que finja que não, mas ele desconhece as razões de receber um tratamento especial.
Insulana — nunca deixou Saint Abbon de Fleury
Idade: 24 a 27 anos (utp)
Ocupação: dançarina
Moradia: Piaye