Tautologia do eu
Ele olhou pela janela do carro e viu as grades cor de jaca do portão de sua casa. O carro desacelera e a menina a qual tinha conhecido naquela mesma noite o expulsa do veículo com demasiada pressa, sentando em seguida no banco de passageiros e fitando os olhos na protuberância marcada no meio da calça jeans de seu velho amigo, olhos de quem busca encerrar a noite com algo mais do que algumas doses de tequila.
O carro some, sobrando na rua vazia o homem e o mundo. Arrisca duas tentativas de encontrar a fechadura, mas o álcool desvia sua mão para o erro, suspira por alguns segundos e encara o sol que nasce.
Por fim, bate a mão nos bolsos e encontra um cigarro solto, logo o descarta na rua. Abre o portão e consequentemente a porta de três maçanetas que dá passagem para a sala. Rasteja de forma silenciosa até o banheiro para não acordar os pais, encara seu fantasma no espelho e senta na privada, sentindo suas nádegas quentes esfriarem no contato com o trono. A urina sai com dor, mas desconhece o motivo. Se levanta e escova os dentes. Tira sua roupa e desmaia despido em sua cama. Sente o peso dos erros do seu dia e jura que amanhã será o melhor que pode ser.
- Click!
Se encontra em uma fazenda ao meio de uma imensidão de pintinhos de cor amarela enfileirados, não sabe o motivo mas sente que precisa mata-los. A máquina de cortar grama reluz em contraste com o chão cinza, ele a manuseia e começa o extermínio. O tempo passa e onde antes havia vida, agora só resta uma imensidão de penas e sangue. Encontra sua roupa intima revestida de penas e merda de ave. Mesmo assim a coloca, sentindo as fezes umedecerem seu pênis, transcrevendo em seu corpo um sentimento de estar sujo tanto por fora quanto por dentro. Sua família aparece e reprova o serviço. Ninguém se expressa, mas ele sabe que fez algo errado. A cena corta para ele e seu pai afastados conversando, o desapontamento no rosto do velho homem é claro como o dia.
- “Falhei em ser um homem igual a você”, diz o dono do sonho, sentindo o peso da vida.
- Click!
Ouve sua mãe chamar, já são quatro horas da tarde e ele nada fez de sua vida. Se levanta e encontra sangue em sua cueca, não entende a situação. Senta na mesma privada e urina com a mesma dificuldade do dia anterior, escova os dentes e se força para tomar um banho escondendo assim os vestígios de seu crime moral. Ouve músicas as quais pessoas que pulam de prédios escutariam ao chuveiro. Sai do banho e almoça o previsível macarrão com salsicha. Passa horas ao computador, o pai chega com o pão, ele come e retorna ao seu mundo digital. As redes sociais se encontram todas abertas, cada qual em sua aba de sempre. Ele desliza o mouse pelas fotos e publicações como um fiel folheia a bíblia. O desejo de sair de sua casa começa a cerca-lo como sussurros cercam um alcoólatra, criando a obrigação de mandar mensagens para todos os seus contatos em busca de alguma fuga da inércia. Logo encontra companhia, uns amigos quaisquer em direção à um bar qualquer. Começa a beber por necessidade e torna-se bêbado por necessidade. Quando o relógio alcança os números posteriores ao doze, a excitação de se encontrar embriagado transforma-se em ímpeto, transcrevendo-se no ato de rastrear bocas alheias. Desliza o celular em busca de preenchimento, descobre uma menina qualquer que está em um lugar próximo ao bar onde ele se encontra. Paga a conta com o dinheiro do pai, acende um cigarro e rasteja ao encontro da pessoa que lhe respondeu. A descobre em um carro acompanhada de um casal desconhecido, saem os quatro. O carro estaciona em uma praça qualquer, os dois se beijam, mãos nos seios e dedos na vagina. Ele se cansa em poucos minutos, não mais lembra como e por qual motivo chegou naquela situação. Ouve a menina gemer, enquanto seus dedos simulam sexo em contato com aquele lubrificado órgão:
- “Você é muito bom nisso! ”
Ah! Agora ele lembra o seu motivo, preenchimento! Não se importa com o prazer que recebe, nunca se importou. Só se importa com reconhecimento. A reflexão existencial causa um déficit em sua performance, mas ele já não se importa, seu ego se preencheu com o gozo da desconhecida. A madrugada chega ao fim e os dois encerram aquela dança compulsória.
- “Precisamos transar um dia desses! ” Diz a moça qualquer.
- “Claro que precisamos...” ele responde ao apagar o cigarro, sabendo que não precisa e nem quer.
Ele olha pela janela do carro em busca da visão do portão cor de jaca, a menina esfrega as mãos por cima de sua calça achando que sabe dar prazer a alguém. Ele ignora o movimento, mesmo percebendo que sua dor aumenta com o atrito. Finalmente o portão se revela, a menina que estava beijando o outro rapaz o expulsa do carro.
Busca abrir a fechadura, mas o álcool desliza sua mão para o erro. Encara o sol que nasce e sabe que o sol o encara de volta. A rua, o homem, o mundo e o sol. Entra em sua casa pela mesma porta de três maçanetas. Urina com dificuldade, e se deita. Sabe que seu dia foi um erro, sabe que amanhã provavelmente irá errar mais uma vez e sabe que ao fechar os olhos será atormentado por pesadelos que remetem ao seu fracasso como pessoa. Engole a dor, fecha os olhos e jura que amanhã será o melhor que pode ser.
- Click!
Assinado por: Tabaco.










