Eu caí da cama hoje. Acordei cedo. Me cansa porque sempre acordo tarde, mas hoje cedo eu acordei. Resolvi limpar meu quarto afinal o que eu faria tão cedo. Eu limpei meu quarto, a cozinha, lavei roupas, ajudei a fazer o almoço. Eu conversei, ri, brinquei, dormi, acordei. Assisti séries, vídeos, trechos de anime, joguei no celular e no vídeogame, o que é raro eu sei. Eu cantei, dancei, varri, comprei, comi e mais duas horas depois, comi outra vez. Eu li sobre signos, sobre idas e vindas, relatos, li fatos, aprendi sobre sagas, me deitei, levantei. Marquei de sair, desmarquei, reclamei, li o grupo de amigos, não respondi, não sei.
Lotei o dia pra não lembrar de nada, não ser consumida, não me sentir inundada, mas não adiantou porque uma hora a gente para e parar é uma bad trip horrorosa quando o piloto automático foi usado para adiar esse momento. Depois de muita relutância, eu desliguei a luz, encarei o teto, parei de assistir qualquer coisa, de ouvi qualquer coisa, de ser qualquer coisa. Minha garganta enosou, meu coração bateu forte, meu nariz ardeu, senti minha visão borrada, mas respirei fundo, chorar não, chorar não podia ser a última opção. Então eu levantei, liguei a luz, fechei a casa, conversei com os cachorros, prendi o cabelo: “banho não" pensei, não porque não gosto mas porque a água corrente vai me inundar e tudo que enche, tende a derramar, mas não deu pra fugir. Do chuveiro recebi a água quente, tão quente que podia me queimar, mas era como um abraço terno, de acalentar e eu transbordei sem pensar. O barulho da água nos oculta a respiração pesada, a porta fechada, a água te acompanhando, a desculpa pro olho vermelho. O chuveiro de confessionário cheio de sabão e quem nele está, de copo descartável que de tão cheio acabou por se rasgar.