Capitulo XXXVI
O Ritual
Saindo do andar das prisões, Carlos segue carregando Daniela enquanto Sarah ajuda a ninja a andar. Anna de pouco em pouco vai recobrando sua força, mas por enquanto só o que consegue é se agarrar no ombro de Carlos.
Sem saber qual caminho tomar, eles vĂŁo seguindo por corredores longos indo do nada a lugar nenhum. Parando algumas vezes para descansar eles ouvem o som de vozes Ă frente. Seguem cautelosos entrando em um imenso salĂŁo no fim do corredor.
O tamanho do lugar é desproporcional a qualquer conceito. O salão deve ter pelo menos cerca de quatrocentos metros quadrados. Várias pilastras grossas de sustentação e seu chão é completamente forrado por um carpete vermelho lotado de desenhos e inscrições douradas. Exatamente no centro há um trono todo trabalhado em ouro, sentado nele um homem usando mantos pretos, aplaude a entrada do grupo.
- Resgataram a fada e uma traidora veio de brinde. Meus parabéns, eu sequer acreditei que vocês teriam a coragem de vir – diz Gabriel cessando as palmas e grades deslizam bloqueando o caminho por onde eles haviam vindo.
- Você é Gabriel? – pergunta Daniele.
- Sim, minha querida. E vocês estão com algumas coisas minhas. – diz ele saindo do trono e se aproximando de uma bancada. Agora que Carlos vai reparar na bancada repleta de objetos estranhos – Com um item que deve chegar a qualquer momento e este teu broxe, só falta matar a fada.
Carlos força a água para fora do cantil transformando cada gota em uma agulha e lançando contra Gabriel. O inimigo boceja e as pequenas gotas viram apenas vapor soprando de leve em seu rosto.
- Se aproximem.
Ao dizer essas palavras, saem de trás das pilastras vários magos encapuzados com um hexágono desenhado com sangue brilhando em suas roupas. A única opção que o grupo tem para fugir deles é ir à direção de Gabriel. Rapidamente eles já se encontram a menos de dez metros do trono.
Daniele tenta se mover para atacar, porém a dor que percorre seu corpo é forte demais e ela cai.  Sarah vai até ela e inicia a invocação.
- Partes em parte, partes que ninguĂ©m quer tocar, partes que sĂŁo vistas somente uma vez, partes que ninguĂ©m quer invocar. Sugue meu poder e faça dele seu, AlaĂde eu te invoco.
Um homem de terno e chapĂ©u surge atrás da invocadora e deixa a mĂŁo em seu ombro. Sarah toca a mĂŁo dele com a sua e o espĂrito se desfaz. Gabriel ergue suas duas mĂŁos e um flash repentino preenche a sala.
- Já se faz muito tempo desde que AlaĂde aceitou servir alguĂ©m. Entretanto, me ensinaram um modo de bloqueá-lo, nĂŁo posso deixar que algumas explosões arruinar meu carpete lindo – diz Gabriel sorrindo enquanto vai na direção de Carlos.
Sarah tenta invocar o espĂrito novamente, sem resultado. Com Gabriel se aproximando, Carlos avança para golpeá-lo com as mĂŁos. Primeiro golpe, segundo golpe, terceiro golpe, Gabriel foi desviando de todos os golpes atĂ© encontrar uma brecha e socar forte o estĂ´mago de seu oponente.
Carlos desaba sem ar e Gabriel arranca o broxe que ele carrega. Primeiro inimigo derrotado, ele parte para Sarah que carrega Anna nos ombros.
- Eu cuido dele! – grita a pequena fada voando e se transformando em uma mulher de quase um metro e setenta com um par de lindas asas.
- Cicatriz! – Gabriel usa a magia de nĂvel dois das trevas no peito da fada que tenta desviar, mas Ă© atingida de raspĂŁo. A fada voa e deixa cair um fino pĂł na direção de Gabriel que se abaixa para pegar Massamune de uma Daniele que nĂŁo consegue se mover.
Foi tudo muito rápido. Em um instante Anna observava ele abaixar para pegar a espada, logo depois ele já estava ao lado da fada a golpeando. Anna cai sangrando muito e voltando a seu tamanho normal.
Sarah tenta segurar a pequenina antes que caĂsse no chĂŁo, mas Gabriel se faz a sua frente a golpeando no rosto e deixando-a inconsciente.
Carlos consegue ficar de pĂ©, ainda com o estĂ´mago doendo muito e invoca Guepardo para vir a seu auxĂlio.
O Tigre Voador aparece raivoso e ataca Gabriel que se defende com a espada ninja. Logo depois ele ataca com Massamune e Guepardo apara-a com os dentes.
- Aqui, pegue ela! – um garoto sai de trás da pilastra e arremessa uma espada para Carlos. O guerreiro não se importa com quem seja o garoto, simplesmente pega a arma lançada e remove a espada da bainha.
Guepardo remove Massamune de Gabriel e avança novamente. Gabriel consegue desviar e fugir para as costas do espĂrito, mas quando percebe o ataque de Carlos, já Ă© tarde.
A espada vai deslizando rapidamente até o pescoço do adversário, Carlos deposita toda força que conseguiu reunir na espada e quando ela ia perfurar a garganta do oponente, Gabriel sorri.
Tudo fica branco.
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- Finalmente acordou.
Lucas vai recobrando a consciência, sua cabeça a ponto de explodir e cada parte de seu corpo em pura agonia. Ele tenta sentar, não consegue, então decide se concentrar em identificar quem está conversando com ele.
- Como estou? – pergunta o arqueiro.
- Não sei, eu diria que está acordado. Já pedi para chamarem o curandeiro – diz a voz misteriosa.
- Quem Ă© vocĂŞ?
- Meu amigo. Eu lutei ao seu lado desde o norte de Distiria até dentro do quarto do rei de Kemys. Estou envergonhado que não se lembre.
- Tokin! – diz finalmente Lucas reconhecendo a voz de seu amigo mago.
- Você precisa se curar rápido. Temos problemas.
- O que esta acontecendo? – pergunta Lucas.
O curandeiro finalmente chega e já começa a recitar um encantamento, enquanto isso, Tokin no Kami põe seu amigo a par dos acontecimentos.
- Após o ataque contra o rei, aquela piranha escapou com a Caixa de Pandora, o exército que estava parado de frente à cidade era apenas uma distração e já foram embora.
- Isso foi muito ruim – diz Lucas já se sentindo melhor.
- E sequer é o começo. Horas depois a Cidade da Chama Dourada cai, soldados da Cidade do Dragão foram vistos por lá. Parece que o Palácio do Diamante Negro já declarou guerra contra nós e suas forças estão a poucos dias de atacar – informa Tokin.
- O que faremos? – pergunta Lucas. O curandeiro termina de realizar o feitiço e diz para o arqueiro descansar.
- Tentaremos os emboscar na passagem entre as montanhas. Quem nos informou foram espiões, provavelmente o inimigo está pensando que vai realizar um ataque surpresa.
- E quanto Ă caixa?
- Eles já enviaram alguém para recuperar – diz Tokin não parecendo confiante.
- Será que podemos confiar nesses espiões? – pergunta Lucas.
- Eu não sei, teremos que confiar, senão não teremos chance alguma – diz o mago.
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De volta aquela sala, Carlos encara as paredes brancas.Â
O lugar continua o mesmo de antes, contudo ele agora nĂŁo esta ali. Da outra vez Cesar Tentorian se encontrara com Carlos naquele mesmo lugar, hoje a sala vazia toda branca e iluminada parece sombria sem ele.
- Cesar, por que me trouxe aqui? Cesar?! Onde estás? – grita Carlos percorrendo o lugar. Ninguém responde.
Uma vez que sua mente começa a ser invadida pelo medo, escritas aparecem na parede.
“Fizeram-me prisioneiro, mas eu já era seu prisioneiro. Liberte seu poder e poderá me libertar, entretanto você não precisa me libertar, mas deve temer meu poder.”.
Assim que Carlos leu, as palavras se desfizeram deixando a parede em seu habitual branco impecável.
- Acho que nĂŁo adianta pedir clareza. A Ăşnica diversĂŁo que eles devem ter Ă© ficar fazendo estas charadas.
Carlos senta no chão e começa a pensar no que acabou de ler. Tentando entender onde está seu amigo, ele se lembra da luta que teve em Fontuory quando de repente a presença de Cesar desapareceu. Até aquele momento Carlos pensava que ele apenas havia adormecido, mas agora teme pelo pior.
- Carlos? Daniele? Alguém?
O guerreiro ouve a voz de Sarah vindo do outro lado da parede. Sem demorar ele se levanta pedindo para que ela se afaste. Contudo não foi necessário por a parede a baixo. Quando ele ia se aproximando uma porta surgiu. Ela então é aberta e duas garotas entram, ambas idênticas.
- O que aconteceu? – pergunta a primeira Sarah – Não precisa se preocupar, ela é nossa aliada – completa vendo o olhar hostil que ele lançou para a versão da invocadora de cabelos curtos.
- Por que ela se parece com você? – pergunta ele.
- Pouco importa minha aparĂŞncia. Aquela espada que lhe entregaram, como Ă©?
- A lâmina é prata cheia de detalhes vermelho rubi e tem algo escrito no cabo, você a conhece?
- Sim, Ă© a espada Andressa. Ela foi refeita e Ă© a Ăşltima chave para o ritual.
- Temos que voltar! – grita Carlos compreendendo a gravidade da situação.
- Não adianta, só nós não seremos capazes. Você tem que descobrir o que está acontecendo com Cesar. – diz a garota de cabelos curtos.
- Ele vai matar a Anna!
Dizendo isso, Carlos se concentra em sair dali.
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Carlos reabre os olhos. Olhando envolta ele analisa o mesmo salĂŁo enorme com um trono no meio em que estava antes. Seu corpo dĂłi e ele está deitado a poucos centĂmetros do trono. Tenta se lembrar do que aconteceu, mas tudo que lhe veem a cabeça Ă© estar perto de matar Gabriel e uma ofuscante luz branca o cegar.
A alguns metros Ă frente do trono um circulo Ă© feito com aqueles estranhos magos, eles ficam parados com suas cabeças abaixadas recitando estranhas palavras. No centro do cĂrculo estĂŁo jogados no chĂŁo um cetro de diamantes, uma coroa escura, o broxe que a lĂder das Amazonas deu a Carlos e a pequena fada inconsciente e acorrentada.
Carlos fica de pé e avança até o circulo de magos a fim de novamente salvar a fada, porém uma mão em seu ombro o segura.
- Não seria nada agradável você interromper meu precioso ritual agora – diz Gabriel quando Carlos se esquiva dele.
- O que você pretende? – pergunta Carlos.
- Fazer um sanduiche com carne de fada – diz Gabriel sorrindo – eles nĂŁo sĂŁo sábios magos, sĂŁo exĂmios cozinheiros.
Carlos muito irritado avança com as mãos nuas e Gabriel apenas desvia dos fracos ataques deferidos por seu oponente. Carlos vendo que não está adiantando, força os dois punhas para frente concentrando-se em Cesar. O carpete a frente dele se rasga abrindo passagem para um bloco de terra sair voando no rumo de Gabriel.
A proximidade Ă© muita e Gabriel tem de sacar a espada de suas costas e partir o bloco ao meio. Carlos admira a espada prata com detalhes em rubi que lhe tinha sido entregue momentos antes.
- Pensei que selando Cesar eu lhe impediria de dominar os outros elementos. Sem problemas, agora que tenho Andressa em mãos, só me resta fatiar a pequena fadinha – diz Gabriel gargalhando.
Carlos avança novamente tentando tomar Andressa para si, entretanto Gabriel lhe aplica uma rasteira e golpeia com a bainha no peito de Carlos o deixando sem ar. Carlos sorri.
Gabriel compreende e olha para o cĂrculo de magos a tempo de ver Sarah entrar e salvar Anna.
Antes que a invocadora conseguisse sair do circulo, Gabriel bloqueia seu caminho.Â
- Agora eu só preciso matar as duas – diz sorridente.
Quando avançava para golpear Sarah, um enorme tigre com asas aparece, muitas vezes maior que Guepardo. O Tigre Voador avança sobre Gabriel que tenta bloquear sua patada, mas perde Andressa que desliza pelo piso parando ao lado do cetro.
Carlos certa vez lera que quando um invocador usa seu sangue, o poder da invocação aumenta. Invocando o espirito do tigre voador ele tenta voltar a ficar de pé enquanto estanca o sangramento em sua mão.
- Carlos! Os anéis! – grita Sarah.
- Que anéis? – pergunta Carlos.
- Minha outra versão me disse que assim a magia for ativada, aquele que estiver usando os três anéis será levado ao lar divino! – responde a invocadora.
Carlos entĂŁo observa na mĂŁo de Gabriel, trĂŞs anĂ©is dourados resplandecerem ali com imagens referentes a corpo sĂŁo, mente sĂŁ e espĂrito estĂŁo gravados neles. Sem perder tempo ele faz com que o piso atrás de Gabriel se eleve fazendo com que ele caia.
- Arranque o braço dele! – grita Carlos para Guepardo.
Guepardo pula sobre Gabriel que estende a mĂŁo com os anĂ©is causando uma explosĂŁo que arremessa o espĂrito.
Chap!
- Só os anéis que você quer? – pergunta Daniele que aproveita a mão estendida de Gabriel e lhe decepa o braço com Massamune.
Pegando a mĂŁo dele antes que caĂsse, a ninja arremessa para Sarah que está mais prĂłxima. Gabriel causa outra explosĂŁo arremessando Daniele vários metros nos ar. Com Guepardo ainda no chĂŁo, Carlos muito fraco avança tentando chegar a Sarah antes de seu inimigo.
Gabriel olha raivoso para a invocadora e estende a mão com a intenção de causar uma nova explosão. Sarah lhe mostra os anéis e ele cerra o punho abaixando o braço.
- Minha vontade de te matar cresceu muito – diz ele.
- Não adianta, não vou te dar um beijinho – brinca Sarah. Quando Carlos ia agarrá-lo, Gabriel parece prever o ataque do guerreiro e ergue seu único braço causando uma nova explosão.
- E se eu matar um a um seus amiguinhos? – pergunta Gabriel caminhando na direção da invocadora.
Sarah tenta recuar, mas ele agarra a mĂŁo em que ela segura os anĂ©is chutando o estĂ´mago da garota. Sarah nĂŁo aguenta e os solta desabando no carpete vermelho. Quando ele ia novamente em direção ao cĂrculo, Sarah segura seu tornozelo e Carlos agarra a mĂŁo em que ele detĂ©m os anĂ©is.
- VocĂŞs sĂŁo muito tolos. Morram ago...
Gabriel para de falar. No circulo os magos param de recitar e Daniela, a irmã da ninja, ergue Andressa golpeando o próprio coração. Os objetos no meio do circulo começam a brilhar junto a mão de Gabriel. Um segundo de silêncio, depois eles já não estavam mais no enorme salão forrado pelo carpete vermelho.
- Pensei ter-lhe dito para vir sozinho – diz uma voz fria.
- Não seja grosso, temos visitas. Sejam bem vindos – diz outra voz muito doce – Chamo-me Diovanna e este é meu lar.










