Capítulo 1 – O amante por livros
A tarde ressaltava seu esplendor aquecendo o minúsculo quarto da garota até aproximadamente 38 graus Celsius.
Suando em sua própria cama, decidiu se lavar e então ia à biblioteca. Não até pelo ar condicionado que mantém o lugar sempre a maravilhosos 27 graus Celsius, mas pela ínfima coleção de livros espalhados em cinco longos andares. Acabou de ser definido o paraíso.
Patrícia se despiu e foi até o chuveiro relaxando completamente seus músculos naquela água gelada enviada por Deus.
Com o sabonete líquido, esfregou suavemente sua pele intermediária. Nunca se achou negra, mas definitivamente não era branca como as europeias.
Voltando ao seu quarto, agora de toalha, se enxuga procurando uma roupa mais leve para sair.
Passando pela sua estante do lado da porta ela vê sorridentes uma garotinha recém nascida, outra de aproximadamente oito anos toda suja de tinta, uma com quinze anos cheia de espinhas em um jogo de futebol e a última com dezessete tendo o mesmo tamanho da outra e seu cabelo já pintado de azul, mas esta sem duvida é a sua foto mais sorridente, segurando o diploma de conclusão do ensino médio em uma das mãos e uma lista cheia de nomes aprovados na faculdade na outra.
Passando pela porta ela segue até a cozinha, tinha ainda de informar seu destino à carcereira.
- Mãe, vou para a biblioteca – disse tentando parecer autoritária.
- Cuidado na rua, mocinha, e não volte tarde! – advertiu a carcereira com um olhar desconfiado entregando o passe livre para a garota.
Infelizmente até o ponto de ônibus ela se perdeu pensando em qual livro se refugiaria esta tarde, por sorte já fizera este caminho tantas vezes que seus pés automaticamente a levavam até lá.
Completamente ludibriada pelas aventuras que encontraria no segundo livro da sua série favorita: “A Ultima Fantasia”, que por acaso já deveria ter chegado, Patrícia não vê o desnível criado na calçada, ainda ontem quando um carrinho de mão tombou de lado por descuido de seu dono, arremessando vários quilos de concretos no mesmo espaço de calçada.
O resultado desta façanha foi um desnível fácil de ser evitado, se você não for uma garota sonhando acordada.
Se aproximando a passos leves, Patrícia afunda o pé ainda mais do que teria direito não conseguindo-o voltar para a passada seguinte, imitando toscamente um mergulhador à beira da piscina.
Quando sua queda era mais do que óbvia, ela fechou os olhos já gritando, como se ajudasse a evitar o tombo... porém não foi o impacto sólido do chão que assaltou o seu corpo, e sim a sensação de quentes e firmes braços a parando no ar.
- Tudo bem contigo, moça? – pergunta o sujeito ajudando-a endireitar seu corpo.
Envergonhada por ter gritado, ela se limita a murmurar um “uhum” balançando a cabeça e olhando para baixo.
- Não precisa ter vergonha, garotas com um olhar tão lindo de sonhadora como estava o seu estão propicias a estes perigos. Ainda bem que eu estava aqui para te socorrer, donzela.
Fazendo um gesto cortês ele sorri, vai até o ponto de ônibus e se senta.
Desejando fazer um agradecimento verdadeiro, Patrícia faz o mesmo caminho que ele, mas quando chega ao ponto de ônibus, antes que pudesse dizer algo, o rapaz se levanta apressado.
- Meu ônibus, que sorte! Até outro dia – diz ele se aproximando e roubando da garota um beijo na testa antes de embarcar.
Este foi o limite dela. Felizmente não tinha ninguém ali para ver, pois ela ficava mais vermelha a cada segundo enquanto a temperatura de suas bochechas chegava a um numero preocupante.
Nunca o tinha visto por ali antes, nunca o tinha visto, isso sim. Mas ficara encantada com o rapaz. Educado, alto, forte, bonito, feições de um homem. Naquele momento ela teve a impressão de que sua mãe adoraria um genro assim, e ela como boa filha não poderia desapontar a mamãe.
Seu segundo devaneio sonhador durou até um ônibus passar acelerado pelo ponto de parada deixando um vento forte bagunçar o cabelo da garota. Voltando a si, ela torceu para não ter sido o dela aquele que acabou de passar.
Provavelmente era, pois o próximo demorou muito a vir, mas nada disto importa, pois agora ela contempla as portas isolantes com o escudo da biblioteca da faculdade colado.
- Meu refúgio – pronunciou antes de entrar.
Passando pela porta ela cumprimentou a recepcionista, uma senhora de idade com o sorriso mais simpático que ela já vira e o guarda parado recostado a parede com sua aparência robusta de sempre.
Passou por eles sem demora, de tanto visitar o lugar acabou se tornando amiga dos funcionários.
No primeiro andar ela contemplou as estantes lotadas de livros didáticos dispostas por todo o lugar. Geralmente ela subiria até o quarto andar direto, de elevador é claro, ninguém merece aquelas escadas, mas antes tinha de perguntar à bibliotecária uma coisa, e ela só ficava naquele andar.
Sentada no centro do primeiro andar, a responsável pelo lugar recepcionou a jovem garota de cabelos azuis com um sorriso largo.
- Bem vinda novamente, já veio cobrar de mim, certo?
Patrícia sorri de volta e assenti com a cabeça.
- Já faz um mês que solicitei a compra deste livro, estou angustiada para lê-lo.
- Pois se acalme, ele chegou hoje pela manhã e já está na prateleira ao lado do primeiro volume.
Agradecendo apressada, Patrícia avança o mais rápido possível, sem fazer barulho, que ela consegue. A ansiedade já tomando conta do seu corpo enquanto chamava o elevador. Quebrado.
Por sorte agora ela estava com muito bom humor.
Subindo as escadas com ferocidade ela chega muito ofegante ao quarto andar, cambaleante ela segue pelo corredor da direita cruzando entre as estantes, desvendando o labirinto de livros formado por títulos estrangeiros e nacionais.
De todos os grandes sucessos da literatura que estavam ali, somente um interessava a aquela garota exausta.
Mais duas viradas, só mais uma agora, falta pouco. Finalmente.
O corredor se abriu majestosamente para ela, uma pessoa também estava ali, parada, lendo, mas isto não tinha nenhuma importância, ela estava perto, após um longo mês de espera, ela colocaria as mãos na continuação da aventura que prendeu seu fôlego.
Seus olhos percorreram a estante da esquerda, livro por livro, título por título, até que encontrou: “A Ultima Fantasia: Livro Um” e logo ao seu lado: nada.
Ela não conseguia acreditar, se havia o espaço ali, então o livro de fato chegou, será que outra pessoa chegou a ele primeiro? Quem será? Que demônio faria tal maldade com ela?
Desnorteada pelo cansaço de subir as escadas, a garota se sente tonta e no seu último relance antes de cair, ela o viu.
Pela segunda vez no dia, o impacto esperado com o chão não aconteceu. Novamente braços firmes a amparam e em um destes braços, a mão segurava fechado o exemplar de “A Ultima Fantasia: Livro Dois”.
Recuperando-se da tonteira e quase tombo, Patrícia avança na mão do desconhecido arrancando-lhe o livro e parando voltada de frente a ele.
Olhos calmos a observavam atentamente, os mesmos olhos que a encantou no ponto de ônibus hora antes. Pensando bem, pertenciam ao mesmo dono, ao mesmo garoto misterioso de antes.
- Fico feliz de estar melhor – disse sorrindo.
- Você o estava lendo? – pergunta a garota.
- Claro, terminei o primeiro livro alucinando por uma continuação, minha vida só terá sentido novamente quando eu lê-la.
Ela não conseguia acreditar, ele continuou.
- Com você é a mesma coisa, certo?
Patrícia acena em silêncio com a cabeça.
- Não acho que alguém consiga remover este livro de você agora, dou-me por vencido, mas que tal se fôssemos fazer um lanche lá embaixo agora? Conversar sobre o primeiro livro, é a primeira vez que encontro uma fã dele.
Ainda atônita e sem dizer uma palavra, Patrícia o seguiu.
- Obrigada por me segurar, duas vezes, me chamo Patrícia – diz após descerem dois lances de escada quebrando o silêncio.
- De nada, o prazer foi todo meu em te ajudar. Me chamo Lucas.












