João e Maria
Era uma vez uma bruxa. Seu nome era Crueltude, mas as poucas crianças que sobreviveram para contar alguma coisa só se referiam a ela como "Mar". Não porque gostasse do oceano ou inspirasse tranquilidade — "Mar" era apenas um apelido curto para "maldita", "maligna", "maldita bruxa do bosque". Ela era mesmo o mal encarnado. Seu passatempo favorito? Raptar crianças e transformá-las em grotescos biscoitos gigantes — decorados com glacê, cobertos com sangue e eternamente imóveis, empilhados como troféus em sua velha casa de madeira apodrecida.
Não muito longe dali, no limite do bosque, moravam João e Maria — ou como costumavam chamá-los os adultos do orfanato, Joãozinho e Mariazinha. Os dois irmãos haviam sido deixados à própria sorte ainda bebês e cresceram aprendendo a se defender sozinhos. Conheciam a crueldade do mundo e não se assustavam com sussurros sobre florestas assombradas ou bruxas comedoras de gente.
Foram adotados por um casal que vivia próximo ao mesmo bosque onde Crueltude escondia sua repugnante moradia. João tinha doze anos; Maria, onze. Eram espertos, unidos e faziam parte de um grupo de crianças da vizinhança que passava as tardes brincando perto da mata: Pedrinho, tímido e observador; Bocão, tagarela incorrigível; Julinha e Juninho, irmãos inseparáveis; e Carlinha, uma garotinha doce como o mel que crescia nas flores do campo.
Mas, com o passar das semanas, algo estranho começou a acontecer. Um a um, os amigos foram desaparecendo. Primeiro foi Bocão. Depois Julinha e Juninho. Até que só restaram João e Maria.
Foi então que os dois decidiram fazer o que ninguém teve coragem: investigar o bosque.
Certa tarde, notaram uma fumaça espessa no céu, vinda do interior da floresta. Caminharam em silêncio até avistar uma estranha cabana de aparência podre, como se a própria madeira estivesse apodrecendo por dentro. Era a casa da bruxa.
João apontou com o queixo:
— Tem duas janelas. Eu vou pela esquerda. Você espreita pela direita. Se nossos amigos estiverem lá dentro...
Maria o interrompeu com frieza:
— …Essa bruxa vai pagar. Com a vida.
Ambos sabiam dos boatos. Sabiam que o bosque era "amaldiçoado". Mas não tinham medo. Tinham sobrevivido a um orfanato brutal, enfrentado adultos cruéis, e aprendido a lutar pela própria vida.
João, ao espiar pela janela, sentiu o estômago embrulhar. Sobre uma mesa de pedra, viu biscoitos gigantes… com olhos humanos congelados em terror. Um deles ainda mantinha as tranças loiras de Carlinha. Outro usava a camisa vermelha de Pedrinho.
A fúria tomou conta de João. Sacou seu fiel estilingue do bolso, carregando-o com uma brita que havia guardado "para emergências". Mas, antes que pulasse a janela, Maria segurou seu braço com força.
— Precisamos de um plano — sussurrou.
Voltaram correndo para casa. Os pais estavam na feira. Sozinhos, os irmãos reuniram armas improvisadas. João pegou mais britas e um punhal que havia ganhado de um velho guerreiro, um homem que jurava ter matado um dragão de gelo. Maria retirou debaixo da cama seus dois canivetes, companheiros de infância no orfanato, usados para tudo — de cortar maçãs a afastar agressores.
— Lembra da história da garota que quase foi envenenada com uma maçã? — perguntou Maria. — A que matou a bruxa com as próprias mãos? — — Essa mesma.
E então voltaram para a casa de Crueltude.
Pularam a janela sem fazer ruído. A casa cheirava a sangue doce e ferrugem. No centro, um caldeirão fervia um líquido espesso e escuro. Ao redor da sala, sobre prateleiras e estantes, biscoitos-humanos estavam alinhados em posição de desespero, olhos arregalados, bocas abertas em um grito que jamais seria ouvido.
Crueltude mexia o caldeirão com uma colher de osso, entoando palavras indecifráveis.
João puxou o estilingue. Mirou. E gritou:
— Ei, sua bruxa velha! Olha aqui pra gente!
Ela se virou devagar. Quando os olhos da criatura caíram sobre os dois irmãos, Maria sentiu a espinha gelar. O rosto da bruxa era uma máscara de pesadelo: enrugada, deformada, com olhos de corvo e dentes como cacos de vidro.
— Nem nos piores contos eu vi algo tão... podre — murmurou Maria, quase sem respirar.
Crueltude se ofendeu. Avançou um passo.
— O que foi que você disse, garota insolente? Acha que será bela para sempre?
— Não é sua velhice que te deixou assim, é sua alma. Você fede maldade. Parece que rastejou direto do inferno — respondeu Maria, impassível.
— Garotinha atrevida! Eu poderia te transformar numa lesma! — rosnou Crueltude.
— Faça o teste — disse João, aproximando-se de uma estante cheia de poções.
Ele então sussurrou:
— Mana, ela é mesmo a filha do capeta...
Crueltude berrou:
— E o que vocês dois vieram fazer aqui? Invadiram minha casa, moleques imundos!
— Viemos salvar nossos amigos — disseram em uníssono. — E você vai pagar pelas outras crianças que devorou!
A bruxa riu. Uma gargalhada estridente, quase não-humana.
— Vão virar ratazanas asquerosas! Pulguentas! Fedorentas! — ela gritou, correndo até o armário onde guardava suas poções.
Mas João foi mais rápido.
Pulou à frente da megera e empurrou o armário com toda a força. As garrafas de vidro caíram com um estrondo, explodindo em uma chuva de líquidos coloridos e fumaça acre.
Crueltude, entre a raiva e o desespero, puxou sua carta final:
Sua varinha mágica.
— Eu ainda tenho minha varinha mágica! — rosnou a bruxa. — E vou buscá-la agora, seus pirralhos insolentes!
Ela se virou, caminhando mancando até a estante onde, dentro de uma gaveta emperrada, guardava seu último artefato de poder. Mas antes que pudesse tocá-la, João disparou com o estilingue, e a pedra voou com precisão brutal, acertando em cheio sua mão esquerda. Ouviu-se o estalo seco dos ossos se partindo.
Crueltude gritou de dor, cambaleando.
Nesse instante, Maria avançou por trás. Sem hesitar, cravou seus dois canivetes nas costas da megera. A bruxa se virou em fúria, urrando:
— Se eu morrer… eles jamais voltarão ao normal! Seus tolos idiotas!
— Mentira! — gritou Maria, olhos em brasa.
— Ela só quer ganhar tempo — disse João. — Está tentando salvar a própria pele.
João apontou novamente o estilingue. A bruxa, caída, se apoiava na estante destruída. Maria aproveitou o momento e chutou o caldeirão, que derramou sua mistura maldita no chão de madeira. A poção borbulhou, fumegou... e evaporou em fumaça pútrida.
— Não! — rugiu a bruxa. — Suas pestes! Será esse o meu fim?! Satã… meu pai?!
As crianças recuaram por um segundo, trocando olhares.
"Ela é mesmo filha do Coisa Ruim...", pensou João.
Sem falar, ele puxou o punhal da cintura e o lançou para a irmã:
— Maria, segura!
Ela o apanhou no ar e caminhou até Crueltude, agora caída, arfando como um animal ferido. Cravou o punhal no peito da bruxa com força. Mas… nada aconteceu.
Crueltude apenas gargalhou, cuspindo sangue preto:
— Meu coração já morreu há muito tempo...
João, frustrado, pensou: Como se mata uma criatura assim?
— Só há um jeito — sibilou a bruxa, lendo o pensamento dele. — Cortem meu pescoço... e queimem meu corpo por inteiro. Foi o preço do pacto que fiz com meu pai...
— Era só isso? — disse Maria. — Mais fácil do que pensei.
— Primeiro, vamos tirar todas as crianças daqui — disse João.
— Depois a gente queima essa casa maldita com ela dentro.
— SEUS MALDITOS! — gritou a bruxa com o pouco fôlego que ainda lhe restava.
João e Maria carregaram, um a um, todos os biscoitos-humanos para fora da casa. Os corpos estavam imóveis, mas os olhos — os olhos suplicavam. Quando o último foi retirado, os irmãos voltaram para dentro.
João ergueu a lâmina:
— Chegou a sua hora, Crueltude.
— Isso mesmo — completou Maria.
A bruxa sorriu um sorriso maníaco, demente:
— Estou pronta. Poderei enfim descansar… ao lado do meu pai… no Inferno.
E antes que se calasse, sussurrou:
— Sempre haverá uma bruxa Mar por aí... eu odeio vocês... eu odeio TODAS as crianças do mundo...
Os irmãos se entreolharam. Para quebrar o clima, jogaram par ou ímpar.
— Par! — disse João. — Ímpar! — disse Maria. Maria venceu.
— A honra é sua, mana — falou João, entregando-lhe novamente o punhal. — Faça isso por todas as crianças...
Maria se aproximou. A bruxa ainda cuspia pragas e xingamentos quando, com um só golpe firme, Maria cortou-lhe a cabeça. O corpo estremeceu... e por fim, caiu em silêncio.
Os dois irmãos, então, derramaram óleo e velas por toda a casa. Acenderam o fogo. Saíram. E assistiram a velha cabana arder em chamas, devorada por uma bola de fogo que parecia purificar o mal que ali habitava.
Do lado de fora, algo milagroso acontecia: as crianças, uma a uma, começavam a se mover. Os olhos piscavam. A pele se restaurava. Os sorrisos renasciam.
Estavam voltando ao normal.
João e Maria se abraçaram, em lágrimas. E abraçaram seus amigos. Estavam todos salvos.
Logo, os pais — muitos deles já sem esperança — viram os filhos que acreditavam perdidos voltarem para casa. As lágrimas de desespero viraram lágrimas de alegria.
E então, João e Maria tomaram uma decisão que mudaria suas vidas para sempre: tornaram-se caçadores de bruxas.
Mas não pararam por aí. Cresceram caçando criaturas das trevas: bruxas, lobisomens, vampiros e coisas piores que rastejam no escuro.
E o velho bosque — outrora sombrio e enfeitiçado — voltou a florescer. A primavera era eterna ali. As flores desabrochavam. Os pássaros cantavam. As crianças voltaram a brincar livremente, sem medo.
Porque, além de caçadores, João e Maria se tornaram os protetores do bosque.
E com a ajuda de fadas, duendes e gnomos, prometeram protegê-lo... para sempre.













