Ela alisava os fios da franja como se aquele penteado fosse o início de uma epopeia. Eu, com a cabeça recostada no espaldar da cadeira, demorei um tempo para entender qual era a sua intenção com aqueles gestos repetitivos de alisa, estica e puxa – e estica, puxa e alisa um pouco mais. Posicionando um espelho bem diante do seu nariz, a senhora levantava os olhos e girava o rosto para os lados, tentando adivinhar o melhor ângulo para garantir o sucesso de sua empreitada. Estava munida de não mais do que um pente um e o referido espelho, mas agia como se portasse a solução para os males do mundo. O cabelo era curto e revolto, de um grisalho esponjoso: um ex-acaju em processo de redefinição. Passados alguns minutos, o apanhado de fios se aquietou, e devolveu ao rosto que antes parecia, como o cabelo, também revolto, uma borrifada de leveza. O cabelo daquela senhora, sentada num ônibus rumo a qualquer lugar às 3 tarde, era o seu pequeno projeto, como todos aqueles – eu iria descobrir mais tarde – em que as pessoas se empenham enquanto algo maior não acontece, a fim de que as vontades e o desejo irreparável de transformação, ainda que de cabelos revoltos e desbotados, não passem mais do que 10 minutos em completo abandono.