⟨ ❝ O L G A G O O S E K E E P E R ❞
Pelos corredores todos sussurram: Vejam! Esta é Olga Goosekeeper, a filha da Guardadora de Gansos! Está em Fatales há pouco tempo, e todos já sabem que é uma Regillus, além de possuir um cão falante. Aparenta ter por volta de 20 anos e se parece comDanielle Campbell, mas pode ser apenas um feitiço.
❝ MIRROR MIRROR ON THE WALL ✦
Um destino nada acolhedor era o que aguardava a filha da princesa que passara meses de sua vida como uma mera guardadora de gansos. Reza a lenda que a, então, rainha Helga fora feita de marionete por uma das aias de sua querida mãe; que roubara da princesa a oportunidade de se casar com um príncipe digno e de bom coração. A história, entretanto, tomara rumos mais amenos, ao menos para a rainha; macabros, para a criada que se fizera passar por nobre, mas o bem sempre prevaleceria quando se digladiasse contra o mal, ou ao menos os Guardiões assim o desejavam enquanto repetiam os contos vezes por vezes, contendo a Balança e trazendo-a novamente ao equilíbrio.
A história de Helga é interessante de ser contada por conta das semelhanças que hão de acontecer com a própria história, o próprio destino ao qual sua filha estaria reservada, não que a mulher realmente gostasse daquele mísero detalhe; suas mãos, até a confecção dessas memórias, jamais voltaram a ser tão delicadas quanto as de uma rainha digna para seu povo. Helga era uma mera infante quando fora prometida ao futuro príncipe de Tonitrua — não tinha outros irmãos e o pai falecera devido a mais uma das guerras sem sentidos que eram travadas em Ether, no próprio front, o que o classificaria por qualquer militar como “a ponta da espada”, seja lá o que aquilo significasse para uma dama como a loira. O rei sempre tinha sido uma pessoa sábia, gentil e bondosa, mas aparentemente, criar herdeiros nunca fora seu forte, sempre postergando o inevitável para mais tarde enquanto se preocupava com assuntos que o exigiam uma atenção imediata. Por esse motivo, Margot, a rainha de Fulgur, só o ofereceu uma filha; a pequena Helga. E a garotinha bastou, ao menos até seus dezoito anos, quando Margot teve que se obrigar a ceder a única coisa que lhe trazia alegria em um mundo sem seu marido em troca de uma aliança proveitosa com Tonitrua.
Dessa forma, Tonitrua e Fulgur seriam convertidos em um único reino; duas vozes se tornariam uníssonas e a paz estaria reestabelecida — o reino, afinal, tinha sido o responsável pela guerra onde o rei de Fulgur tinha falecido; nada mais justo que obtivessem a princesa para garantir aquela união sagrada e indissolúvel. No dia anterior à ida de Helga ao seu abate, como entoava mentalmente, sua mãe cortou o próprio pulso, deixando com que três míseras gotas de sangue caíssem sobre um lenço de organza que a princesa levaria, junto de seus pertences; ordenando que a loira mantivesse aquele pedaço de tecido sempre consigo, já que a traria segurança. Uma assustada Helga não deu muita importância às palavras da rainha, preocupando-se em sarar as feridas que a governante tinha causado em si mesma — talvez, se não fosse tão desatenta às palavras da mãe, seu conto não teria prosseguido, mas Helga sempre fora uma menina espevitada, não parava quieta sequer por um segundo, por mais que falasse poucas vezes (era uma mulher de ações, afinal), então os avisos da rainha de nada serviram para alertá-la. No dia seguinte, Helga partiu com uma das aias de sua mãe — uma mulher vil, invejosa e, de certa forma, enciumada com toda a atenção que a herdeira recebia sem fazer por merecer.
Montada em seu cavalo e melhor amigo, denominado Falada por conta de sua habilidade de falar e inteligência acima da média até mesmo para humanos, as duas viajaram até Tonitrua sem muitos saques, sem muitos problemas. Certo dia, entretanto, o calor estava assolando o ambiente desértico de Fulgur quando finalmente encontraram um riacho para que pudessem reabastecer-se de água. A princesa, inocente, pediu para que Trudy, a criada, tomasse um pouco de água para si, mas a aia se recusou a fazê-lo, entoando que jamais seria sua criada, jamais a serviria. A loira não teve outra alternativa a não ser servir-se por si mesma, não antes da pele alva transmutar-se em uma coloração avermelhada, tamanho o seu desgosto. No dia seguinte, a situação se repetiu, e a loira se esquecera das rudes palavras de Trudy, pedindo-a novamente para que a fizesse tamanho favor. Naquele dia, entretanto, Helga perdeu o único pingente da sorte que poderia protege-la de qualquer infortúnio, o sangue de sua mãe sobre o lenço. Falada percebeu a falta, mas quando iria falar para sua dona e melhor amiga do incidente, Trudy tomou o pano para si, escondendo-o dentro de suas roupas e obrigando a princesa a desmontar de seu cavalo. A partir de então, seria ela a princesa que se casaria com o herdeiro de Tonitrua, e não Helga.
Assim que Tonitrua se apresentou à singela comitiva, Trudy interviu mais uma vez na vida de Helga, ordenando que matassem o cavalo — suas alegações ao rei eram as mais torpes; dissera que, por conta daquele indigno cavalo, suas costas doíam, mas a culpa não era do cavalo branco se a mulher não sabia se portar sobre um animal como aquele. Na verdade, Trudy temia que o animal encantado contasse algo para o rei, portanto o matar era a solução que conseguiu encontrar durante aquele momento; quanto à Helga, Trudy pediu ao rei que simplesmente a desse um trabalho qualquer. Por conta daquele ato, a loira tornou-se uma das muitas guardadoras de gansos, já que não poderia realmente falar sobre o assunto — seu talismã da sorte tinha sido perdido, seu adorado parceiro jazia morto, mas, com o restante da sorte que possuía, um de seus novos amigos entalhou a cabeça do bicho sobre uma das ruas mais escuras de Tonitrua. Em sua sina, entretanto, passava por aquela rua todos os dias para que se dirigisse ao seu trabalho nos prados empesteados das aves que passara a amar depois de algum tempo. Falada continuava a repetir as mesmas palavras para si, mas Helga não conseguia obrigar-se a ignorar aquele trajeto, por mais doloroso que fosse. Um jovem pastor a acompanhava todos os dias, com o intento de roubar seu adorável cabelo que mais parecia ouro — quem sabe quanto dinheiro poderia ganhar vendendo os fios dourados? —, mas nunca conseguia toma-los da cabeça de Helga, uma vez que, quando cantava, o vento se revolvia ao seu redor, o que tornava impossível para ele tirar um sustento extra para sua família, já que seu chapéu sempre dançava ao bel prazer das canções de Helga e ele era obrigado a correr atrás da peça.
Cansado daquilo, o pastor meramente se encontrou com o rei, pedindo que uma nova colega o acompanhasse e explicando seus motivos, decerto dignos de serem ouvidos pelo governante. O Rei Albert não era o mais piedoso dos homens — talvez pudesse ser classificado como um fofoqueiro, em padrões normais —, mas a história do pastor o intrigou. Por alguns dias, ele pediu que o pastor continuasse com suas atividades, seguindo os dois trabalhadores até os prados e vendo com seus próprios olhos o que havia acontecido. Encurralou a princesa depois que o prazo terminou, ordenando que ela o explicasse o que a afligia, mas havia feito uma promessa à Trudy, não se sentia segura. O rei, esperto, ordenou então que se confessasse ao forno, e Helga assim o fez quando o governante saiu do recinto, entre lágrimas, soluços e saudades de sua mãe; Albert, entretanto, não havia saído completamente do local, e escutou tudo o que a princesa tinha a dizer. Por incrível que pudesse parecer, acreditou na princesa, contando ao seu filho, há meses casado com a impostora, quem era sua verdadeira pretendente. George não poderia ter se sentido mais traído naquele momento, mas aceitou a verdadeira esposa, prometendo vinga-la. Pobre tolo, nada poderia vingar a morte de seu amado Falada; tampouco a separação de sua mãe, mas assim o fez.
Na mesma noite, um jantar foi oferecido pelo rei, onde a verdadeira princesa se apresentou, mas Trudy não mais a reconhecia. Depois de muito vinho, Albert propôs um brinde, explicando a história da princesa e sugerindo penalidades para a mulher à sua frente. Trudy não percebeu do que se tratava, portanto sugeriu um castigo macabro e doloroso para a culpada, o que não demorou a acontecer consigo, pois a farsa tinha chegado ao fim. Helga, desde então, fez um voto de silêncio — não queria a morte da criada, tampouco a de nenhum ser vivo, portanto convenceu seu príncipe a poupar a vida daquela pobre mulher, ocupando seu tempo com o casamento e, meses depois, com o bebê que despontava em seu ventre.
Nesse ambiente, Olga cresceu; nesse destino, sua vida foi marcada para sempre pelos Guardiões, fadada a reviver os breves períodos de felicidade para então ser jogada no desespero e desgosto, como sua mãe. Helga não falava, mas era infeliz com George. O príncipe, de toda forma, não fora o pai mais presente ou o marido mais dedicado. Vivia bêbado, com milhares de amantes por Tonitrua e Fulgur e não parecia se importar com o estado de nervos da mulher sempre que aparecia para cumprir com seus deveres matrimoniais, enojando-a de tal forma que sempre que George conseguia terminar o ato sem desmaiar antes, Helga tratava de se infectar, o que meramente piorou sua saúde, já debilitada à época. Enquanto isso, a princesa se ocupava com tarefas menos árduas, afastando-se da família que parecia não gostar de si por perto — a mãe, por mais que a amasse, jamais poderia olhar para a filha sem se lembrar do monstro que a tomava todas as noites, já que Olga parecia ser o verdadeiro retrato do pai e não ter herança alguma por parte da mãe. Enganavam-se aqueles que pensavam isso, à primeira vista. O sangue que corria em suas veias era o sangue real de Fulgur e, com ele, propriedades decerto soturnas eram acrescentadas à vida de Olga; além de ter a voz de um rouxinol e brincar com o vento enquanto cantava, não demorou muito para que os Guardiões voltassem seus olhares cansados e milenares para a herdeira, mas dessa vez não um cavalo se tornou o melhor amigo da menina. Não, o animal com fortuna tão ingrata tinha sido um cachorro, apelidado pelo nome de Ben, diminutivo de Benjamin, pela princesa.
Encontrara o animal ao acaso quando tinha pouco mais de quinze anos — todos sabiam como a princesa tentava, ao máximo, desgrudar-se da vida comum que parecia viver no castelo; como adoraria um pouco de liberdade daquelas paredes opressoras e do humor pouco contundente da mãe; como a mera visão do pai pouco presente a deixava extasiada, apesar de tudo o que escutava nas falas dos criados. Procurar por animais perdidos na floresta próxima ao castelo poderia não ser o programa habitual de herdeiras a um trono, concorrentes a rainhas e todas as obrigações relacionadas ao cargo, mas não havia como se desvencilhar de suas vontades. Tudo para se afastar de um destino cruel como o de sua desgostosa mãe. Conviver com seres tão irracionais quanto animais tornou muito mais do que um hobbie, mas uma paixão para a Goosekeeper, e ela jamais se desvencilhava de Benjamin que, de filhote, tornou-se um cachorro que poderia facilmente derrubá-la se assim desejasse. Passou a defender o direito dos animais, aliciando o pai para que proibisse caçadas no território de Tonitrua — de Fulgur também, mas o reino se juntou com o do pai, então, na prática, significava a mesma coisa — e tentando de tudo para que os animais do castelo fossem bem tratados.
A personalidade de Olga, entretanto, não é das melhores. Poderia ter herdado os poderes e amor por animais da mãe, mas era quase tão soberba quanto o pai, quase tão desenfreada quanto o homem, ofendendo-se com facilidade e possuindo um ego maior do que deveria. Basicamente, a princesa deseja o bem de seu companheiro, que sempre esteve consigo em suas poucas aventuras pela floresta, mas considera pessoas, no geral, vis e cruéis, tornando seu apreço por elas pouco planejado, mesmo que possa ocorrer eventualmente. Teatral, terrivelmente desregrada e levemente desequilibrada, Olga não contava que a carta para Fatales chegasse tão cedo; não estava pronta para reviver o conto da sua mãe, sofrer e ter uma vida trágica e sem amor, tampouco para se entregar a um príncipe qualquer. Olga preferia ficar com Benjamin, mas até mesmo ele a aconselhou a seguir com seu destino, sábio que era — e controlado pelos Guardiões também, vale lembrar. Despediu-se da mãe rapidamente, tomando o restante do tempo para abraçar uma última vez o pai — pelo que se lembrava, provavelmente o homem morreria tão logo fosse desposada, e esse na verdade era um dos motivos para que Olga tivesse ojeriza daquele destino.
Não era justo, mas, aparentemente, em Ether nada o era.
❝ WELCOME TO MY WICKED WORLD ✦