Cotijuba: Os sete da ilha do inferno
Praia, sol, floresta... Um cenário paradisíaco cerca a Ilha de Cotijuba, uma das 42 ilhas que integram o arquipélago de Belém do Pará. Considerada Área de Proteção Ambiental desde 1990, o local apresenta um ecossistema de tirar o fôlego. Muitos paraenses e turistas festejam o tão aguardando final de semana nas mais famosas praias da ilha. Famílias vem e vão a todo o momento. Todos os comentários postados nas redes sociais mostram que o local é repleto de felicidade. Mas você está preparado para conhecer o outro lado da moeda?
Matheus Moura acordou animado naquele dia. Quer dizer, ele quase nem dormiu de tanta ansiedade, esperando a noite escura e densa dar lugar a luz do sol, ponto esse que daria início ao dia mais infeliz de sua vida. Marcado a 27 dias atrás, ele havia criado um grupo no aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp com seus amigos, para juntos, comemorem seu aniversário na Ilha de Cotijuba. 27 de agosto. Ele estava tão animado que havia guardado suas coisas na mochila 2 dias antes. A barraca de camping se encontrava junto a sua cama, esperando a hora de ser carregada para a famosa Ilha.
Ligou seu celular. 6h da manhã. “é hoje galera, vamos nos divertir muuuuito, quero ficar tribêbado” mandou mensagem no grupo. Tomou seu banho, comeu um pão do dia anterior com leite e chamou um Uber.
Antes de ir embora, seus pais lhe deram dinheiro, e preocupados, comentaram que estavam receosos de deixar o garoto, que agora tinha 21 anos, ir a um local que ele nunca havia ido antes.
- Eu vou ficar bem, são apenas 3 dias de acampamento. O que pode dar errado? É UMA ILHA! Fiquem tranquilos. Quando eu chegar de lá, vamos comemorar naquele local que sempre comemos pizza, ok?! - ele disse. - Meu Uber chegou. Tchau, amo vocês!
Matheus e seus amigos marcaram de fazer as compras (comidas e bebidas) em um supermercado perto do porto de Icoaraci, distrito de Belém, onde depois iriam pegar o barco que os atravessariam na baía do Guajará até a ilha. Há barcos pequenos (chamados de pôpôpô) que saem a todo o momento, cobrando uma taxa bem simbólica por cada pessoa.
Ele e seus 6 amigos pegaram o barquinho.
- Hey! - disse Vanessa, melhor amiga de Matheus - é seu aniversário. O que queres fazer lá?
Matheus havia pesquisado na internet todas as atrações da ilha. Decidiu, por avaliação de internautas, que o melhor local para acamparem seria a Praia Funda, pois era “tranquila, linda e boa para dar uma ‘sumidinha’ no matagal”.
- Bom, acho que só observar o mar, olhar a natureza, e beber muuuuuuito. É isso o que quero. - respondeu.
Ao chegarem na ilha, compraram as passagens de charrete (veículo que é puxado por cavalos e burros no local, pois não é permitido o uso de carros). Matheus era o único que ainda não tinha ido até a ilha, então observou cada detalhe, até seus olhos se fixarem em uma ruína, que estava localizada a alguns metros da entrada de Cotijuba.
Ele havia pesquisado tanto sobre as melhores praias que não havia mergulhado profundamente sobre aquela ruína, e o que um dia aquilo significo para aquele local. Até porque seu foco era sol e mar. Somente.
- Matheus, tu ta ligado sobre o que aconteceu na ilha anos atrás, não é? - disse João Pedro, que estava ao lado de Matheus.
- João. Não. Para de baboseira. - repreendeu Vanessa, dando um olhar severo para João.
- Como assim? - perguntou Matheus, curioso.
- Bom, ele vai saber de qualquer jeito ué! - disse João - Bem, anos atrás, não lembro muito bem, mas parece que a ilha foi usada para ser um educandário, ou seja, um local para capacitar jovens infratores de Belém. Traziam eles para cá para aprenderem a serem pessoas sociáveis, como nós. - ele ri - Só que o local cresceu tanto, fisicamente, que ele logo se tornou um presídio. Dizem que eles faziam experimentos horríveis com os presos. Era um local de muita tristeza. Muita tortura. Muitas mortes. Mas bem, isso foi há muito tempo atrás, agora, é só alegria! - ele retirou uma pequena embalagem de vodca da mochila e deu um enorme gole - Vamos? - disse ele, subindo na charrete.
Matheus não deu muita importância para a historia de João, pois "todo mundo” dizia que tudo era tão tranquilo e seguro que podiam acampar em qualquer lugar da ilha.
Chegaram até a Praia Funda, um local lindo, com poucas casas e muita vegetação. Um local perfeito para camping. Logo acharam um espaço ao lado de um casebre que tinha (FELIZMENTE! - gritou Vanessa, ao perceber que haviam) 3 tomadas ao lado direito da casa. “Quem construiu pensou nos visitantes.” disse Matheus.
Armaram 3 barracas, uma perto da outra, entre a praia e a floresta, onde iriam se dividir na hora de dormir. Tomaram banho na praia que realmente era funda, jantaram comida enlatada que não precisava de fogo - até porque não tinha como fazer, havia chovido e não havia galhos secos - colocaram uma toalha para sentar na praia e ficaram embaixo de um dos 3 portes de energia elétrica da praia, ao anoitecer, para um luau digno de festa. O céu estava lindo, estrelado.
- Incrível como estamos a poucas distâncias de Belém, estamos debaixo do mesmo céu, mas parece que não é o mesmo céu. Aqui é tudo estrelado. Lindo. Dá até pra ver ‘As Três Marias’! Olhem! - disse Rodolfo, um dos amigos de Matheus.
- Sim, é muito lindo. - disse Arthur, outro amigo de Matheus, que já estava muito bêbado.
Os 7 estavam muito embriagados. Haviam levado bastante bebida alcoólica, além de uma caixa de som com as melhores músicas de Matheus, já que ele era o anfitrião da viagem.
Passado 3 horas de pura diversão regada a um belo de um vômito de João, eles foram dormir. Matheus ficou com Vanessa e João em uma barraca, grande o suficiente para caber 4 pessoas. Uma hora ou outra o aniversariante sabia que isso iria acontecer, então ficou perto da entrada da barraca. Confirmando o que ele já suspeitava por ter bebido tanto, ele sentiu vontade de vomitar.
- Nunca mais eu bebo... - ele resmungou pra si mesmo.
Saiu de mansinho e foi até ao gigantesco matagal. Percebeu que havia um caminho entre as árvores. Não querendo que seus amigos o vissem fazendo tal ato vergonhoso e embaraçoso, ele adentrou uns 8 metros no mato e vomitou. Após se certificar que não havia mais nada em sua cavidade estomacal, ele limpou sua boca na manga da camisa.
- Droga...
Quando ele iria se virar para ir até a barraca, ele sentiu uma presença estranha, uma pressão atmosférica totalmente diferente tomou conta do ambiente. Ele olhou para o fundo do caminho, onde o breu da escuridão o cercava. De repente, tudo ficou silencioso. O som do ar, dos pássaros, das árvores, já não existiam mais.
Fixou seu olhar na escuridão. Foi a pior decisão que ele tomou em toda a sua vida. Uma sombra com um par de olhos circulares e totalmente amarelos o fitava. Apesar de estar muito porre, ele soube imediatamente que aquilo não era humano. Não era natural. Ele sentiu uma presença estranha. Seu corpo ficou pesado. Os olhos foram se aproximando, e a medida com que isso acontecia, o cenário ia ficando cada vez mais escuro. Ele não conseguiu se mover. Logo pensou que se tratava de uma paralisia do sono, pois ele não conseguia correr ou gritar. O medo tomava conta. Aquilo se aproximava. E quando a escuridão chegou mais perto, ele sente alguém lhe tocando. Vanessa.
- AAAAH - ele grita. Ela grita de volta.
- Menino, quê isso? O que está fazendo aí?- ela pergunta.
Ele logo percebe que a pressão e os sons da natureza voltaram ao normal. A sombra havia sumido. Assustado, ele corre e pede para Vanessa o seguir.
- TEM ALGO NA FLORESTA! TEM ALGO NA FLORESTA! - ele grita desesperado.
Após acordar todo mundo, ele conta o que aconteceu mas ninguém acredita nele. João foi checar a floresta e tudo parecia normal. Como haviam bebido, todos achavam que ele estava vendo coisas por conta do álcool no sangue.
- Será que vocês não entendem? Foi tudo real! Eu senti tudo!
Matheus se recusou a voltar para a barraca. Pensou em pedir ajuda aos moradores, mas pelo horário, estavam dormindo e seus amigos não o deixaram fazer isso. Ele sentou na beira da praia, perto do mar, e não voltou para barraca. Iria ficar ali até amanhecer e ir embora para sua casa. Vanessa ficou com ele.
Os dois amanheceram dormindo, com o sol escaldante batendo violentamente nos seus rostos.
Haviam marcado da charrete ir buscá-los 3 dias depois, então não tinham como irem embora, a não ser andado. O problema é que eles estavam com muitas coisas para carregar e não davam conta de levar tudo isso a pé. Estranhamente, não havia nenhum morador na praia. Ninguém. Isso começou a preocupar todos. Tudo ficou ainda mais tenso quando perceberam que estavam sozinhos desde quando chegaram. A adrenalina de fazer um luau de aniversário não os deixou perceber que estavam sozinhos esse tempo todo.
A única solução era esperar completar os 3 dias, já que no local não tinha sinal de vida humana e nem de rede celular para falarem com alguém de fora. Estavam encurralados. Esse vazio fez com que os amigos de Matheus acreditassem um pouco em sua experiência nada animadora.
Matheus contou detalhadamente para eles, já sóbrios e ressacados, o que havia acontecido e como tudo pareceu real.
- Eu senti como se não tivesse mais o controle do meu corpo, foi terrível! Eu preciso ir embora. - disse, ainda assustado.
Logo comentaram se isso tinha alguma relação com a história do presídio que João havia contado a ele.
- Não sei, eu realmente não sei... - disse Matheus.
- É apenas uma história mano... Isso aconteceu anos e anos atrás, não há relatos de atividades paranormais na ilha. Qual é, isso é um paraíso! - disse Rodolfo, o mais cético entre eles, em seguida, entrou na água para tomar um banho.
O dia passou, e veio a noite. Eles haviam colocado as barracas na areia, mais próximo da água e mais distante da floresta. Os olhares estavam fixados na escuridão, o medo tomava conta de todos. Sendo vencidos pelo cansaço, eles adormeceram. E foi aí que tudo começou a dar errado...
Matheus foi acordado com Vanessa tampando sua boca e apontado para fora. Ela e João já estavam acordados, sentados. O aniversariante logo compreendeu o que estava acontecendo. Havia barulho de passos lá fora. Ele sentou ao lados dos dois. Os passos ecoavam, como se várias pessoas estivessem cercando a barraca. Dessa vez, podia se ouvir barulhos de correntes. O mais estranho nisso tudo, era que estavam em um local coberto de areia, não tinha como um calçado ou uma corrente fazer barulho daquela forma.
De repente, tudo ficou silencioso, igual na noite anterior. A pressão do ar começou a pressioná-los. A luz do porte de energia elétrica se apagou. Tudo o que ouviam eram a respiração uns dos outros. Depois de 5 minutos sem acontecer nada, eles abriram a porta da barraca, lentamente. Estavam no mesmo local, mas o ar parecia ter parado no tempo.
- Cadê eles? - João disse, notando que estavam sozinhos. A duas barracas de seus amigos haviam sumido, deixando na areia apenas o rastro de que estiveram ali minutos atrás.
- Ai não... - disse Vanessa, saindo desesperadamente pela praia a procura do resto do grupo.
- Vanessa não! Volta, não sai da barraca! - disse Matheus, desesperado.
João correu atrás dela e conseguiu pará-la. Ela começou a chorar e todo mundo a seguiu.
O medo era real. Eles não sabiam o que fazer, para onde olhar. Tudo estava negro, até que eles ouviram algo se mexendo na floresta. O pânico tomou conta.
3 figuras em forma de sombras começaram a se rastejar lentamente em direção a eles. Os mesmos olhos amarelos e brilhantes que Matheus havia visto na noite anterior, mas agora acompanhados de mais dois pares. Os jovens começaram a gritar de desespero e correram na extensão da praia, desorientados. Quando chegaram no limite da praia, em uma rocha imensa, eles perceberam que estavam encurralados. As sombras rastejavam em sua direção. Não havia o que fazer... Eles entraram então na água, há uns 3 metros da areia, onde as figuras sombrias pararam.
- Eu não acredito que isso está acontecendo com a gente, não acredito. - disse Vanessa chorando.
- Ai meu deus, ai meu deus... - disse Matheus.
De repente, as sombras rastejaram de volta para a floresta.
- Para onde eles foram? - disse João.
- Não sei. Acho que estão indo embora. Não consigo mais me manter na água, estou tendo câimbra. - disse Vanessa.
- Que porra é essa que está acontecendo?!!!! - disse Matheus.
Após um minuto dentro da água, eles foram puxados violentamente para baixo. Matheus sentiu várias mãos puxando-o cada vez mais para o fundo.
Estava ficando sem ar, não havia se preparado para ficar tanto tempo debaixo d’água, não naquela situação. Seus pulmões começaram a doer... Foi aí que seus pais vieram a mente. Seus irmãos. Havia começado a faculdade naquele ano.... Seu pequeno cachorro Toby... Ele perderia tudo aquilo em apenas um dia? O dia do seu aniversário?
“Não quero morrer assim...” pensou.
Foi quando uma luz o cercou, fazendo com que as mãos o soltassem repentinamente. Mas era tarde demais. Ele sentiu a água barrenta entrar em seus pulmões...
-----------------------------------------------------------------------------------------------------------
José Rodrigues havia deixado várias pessoas nas praias da ilha. Lembrou que há 3 dias atrás deixou um grupo de jovens na Praia Funda. Olhou para o relógio em seu pulso. 2 horas da tarde. O sol estava escaldante. Estava na hora de ir buscá-los.
“Devem ter se divertido bastante, já que nessa época do ano ninguém vai pra suas casas lá.” pensou.
Ao chegar na praia, observou que haviam 3 barracas, todas intactas na areia. Olhou ao redor e percebeu que não havia ninguém por ali. Aós minutos sem saber o que fazer, gritou para que alguém pudesse ouvi-lo, mas não obteve resposta.
Começou a se sentir estranho. Isso nunca tinha acontecido antes. Sempre que os turistas marcavam com ele, eles ficavam prontos no mesmo horário. Deu algumas voltas na praia e não havia sinal dos jovens. Foi quando resolveu abrir as barracas. Ninguém. Apenas os bens materiais.
Decidiu ir até a delegacia da ilha, onde relatou o estranho desaparecimento dos amigos. A polícia acionou as autoridades da capital, que logo comunicou aos familiares dos jovens. O caso logou se tornou conhecido em Belém e no país todos. Os amigos ficaram conhecidos como ‘Os 7 da ilha do inferno”.
Nunca acharam os corpos dos jovens. O Governo do Estado criou um memorial na praça da República, centro da cidade, com os nomes dos sete. Ninguém ousou mais ir aquela praia por semanas, e a polícia nunca achou o verdadeiro motivo do desaparecimento. Várias teorias da conspiração surgiram na internet. Uns acreditam que se trata do arrebatamento mencionado em Apocalipse, famoso livro da Bíblia Sagrada. Outros, em abdução alienígena. Já uns, acreditam que os fantasmas das pessoas que morreram na ilha matou os jovens. E você, o que acha que aconteceu?
NOTA DO AUTOR:
Olá galerinha, tudo bom? Me chamo Igor Luz, e sou um entusiasta de histórias. A narração dessa história é FICTÍCIA. Assim como as imagens (GIFS) postadas.
A Ilha de Cotijuba existe, inclusive, eu AMO acampar lá quando eu posso, com meus amigos. A Praia Funda é uma das mais belas que eu conheço. É um local paradisíaco. E sim, as ruínas na entrada da ilha também existem, lá foi um presídio, em 1968. Querem a continuação e o paradeiro de Matheus? Compartilhem ao máximo de pessoas! bjs











