09 Escape
America e eu estávamos na sala de Julie Baker, a mulher que cedeu seu DNA para que o Projeto Chronos tivesse início, e esse era apenas um dos motivos para que eu não confiasse nela. Tinha quase certeza que ela sabia exatamente de tudo o que contamos e concordava com tudo. Ela sabia que os clones não ficavam em tubos sua vida inteira. O que mais me deu certeza disso foi sua expressão quando disse que iria ao banheiro.
- Vamos pra casa, America. – sussurrei – Estou com um péssimo pressentimento.
- Ela vai nos ajudar, Justin.
- Ela vai é nos ferrar! Se você não quer ir comigo, vou sozinho – eu estava blefando. Óbvio que não iria deixa-la.
- Então vá! Pensei que confiasse em mim, Justin.
- Eu não confio nela! – e então Julie apareceu no corredor e logo tratei de manter minha postura calma.
- Acho que já vamos indo, Julie. Obrigado por nos escutar e vamos sempre te manter informada – sua expressão logo mudou e percebi que ela havia ficado inquieta.
- Não! Fiquem mais um pouco! Quero conhecer vocês um pouquinho mais – ela sorria de forma nervosa. A ignorei e me levantei do sofá, esperando por America que não movia um músculo.
- America? – a chamei, e ela me ignorou. Eu já estava ficando irritado. Tudo bem ela não me amar, mas esperava um pouco de consideração por tudo o que fiz e estou fazendo por ela, mas na primeira oportunidade ela deixa que eu vá, parecendo não se importar – Quer ficar?
- Sim, Justin. Eu quero ficar – ela falou sem nem ao menos olhar pra mim.
- Você sabe meu número e meu endereço – e então fui em direção à porta, sem me importar em dar “tchau” para qualquer uma das duas. Eu estava ferido. Magoado. Em míseros dias em que estou com ela na minha vida já consegui me apaixonar, gastar o dobro no mercado, me envolver em um Projeto repugnante, falar com o idiota do meu pai e agora ser feito de idiota pela causadora de tudo.
Em meio a pensamentos percebi dois carros vindo em alta velocidade pela rua da casa de Julie e um som estranho vindo do céu. Olhei para cima e vi um helicóptero com o logo da Clark e sem pensar dei meia volta e acelerei o máximo que conseguia em direção à casa de Julie. Por sorte a porta não havia sido trancada depois que saí, e entrei pela mesma como um jato. America estava sozinha na sala.
- America – a peguei pelo braço e comecei a puxa-la -, você tem que sair daqui agora! Por favor!
- Me larga, Justin. Por que está fazendo isso? – ela se debatia enquanto eu procurava uma saída pelos fundos da casa.
- Meu Deus, como você pode ser tão inteligente e tão burra? – falei de um jeito rude, o que a fez se debater mais – Me escuta! Em alguns segundos os carros da Clark vão estar nessa casa. Eles vão pegar você, America!
- Como eles sabem que estamos aqui? – agora ela havia parado de se debater e me encarava desconfiada.
- Julie. Eu te disse que ela não era confiável! – e percebi que ela ainda não acreditava em mim, mas o som do helicóptero acima de nós a fez mudar de ideia e a buscar uma saída. Encontramos uma porta que dava para o jardim da churrasqueira. Saímos correndo pelo gramado e então a cerca do terreno nos parou - Pula, America! Rápido! - e então me agachei e coloquei minhas duas mãos juntas e logo ela colocou seu pé nelas e no mesmo instante a impulsionei para cima. Pulei logo depois dela. Enquanto corríamos mandei que ela colocasse o capuz do casaco que usava, e fiz a mesma coisa. Ninguém poderia nos reconhecer. O som dos carros e do helicóptero se aproximava cada vez mais e não importava a velocidade em que corríamos, eles iriam nos alcançar em questão de minutos.
- Justin! - America gritou e no mesmo instante virou à esquerda, entrando em um grande prédio. Óbvio que fui atrás dela. O hall do prédio estava deserto e só o que eu podia escutar era a respiração de America tão ofegante quanto a minha - Nós não vamos conseguir fugir deles.
- Que novidade. - falei com um sopro de voz - Precisamos encontrar um lugar para nos esconder. Eles irão procurar em cada canto de Atlanta, America.
- Vamos entrar em algum apartamento e pensar em algo. Não é seguro ficarmos aqui, Justin - e depois de alguns segundos começamos a subir as escadas. No terceiro andar paramos em frente a porta de um apartamento que parecia não ter ninguém.
- Veja se em baixo do tapete não tem nenhuma chave - pedi para America, e ela não encontrou nada. Olhei no vazo de flor que havia ao lado da porta e nada também. Encontrei uma pequena chave no extintor de incêndio no fim do corredor. Abri a porta e então estávamos dentro do apartamento. Claramente alguém morava ali, mas pra nossa sorte, não tinha ninguém em casa. Fui rápido para o quarto e comecei a procurar roupas para que America e eu pudéssemos usar para despistar. Encontrei um hoodie preto para America e outro para mim. Voltei para a sala e lhe entreguei o hoodie para ela e enquanto ela o vestia fiquei olhando pela janela para ver a movimentação do lado de fora. O helicóptero continuava sobrevoando a região, mas nem sinal dos carros.
- Pronta? - virei para trás e encarei America, que apenas assentiu e então já fui rápido em direção à porta - Vou te deixar na casa do Ryan, ok? Vamos sair daqui de forma calma, sem chamar a atenção, caminhamos até o centro que não é longe e então pegamos um táxi.
- Por que não liga para um táxi nos buscar aqui? - ela perguntou enquanto descíamos as escadas.
- Qualquer ligação feita pode ser rastreada. Não quero arriscar mais do que já arrisquei te trazendo aqui hoje. - ela apenas assentiu fraco e colocou o capuz - Não use o capuz agora.
Quando chegamos no hall, pude ver do lado de fora alguns homens rondando a área e percebi o nervosismo de America ao meu lado.
- Fique aqui. Vou sair e depois de um minuto você sai também - falei e percebi que ela estava cada vez mais insegura.
Saí do prédio tentando parecer o mais normal possível e fui caminhando na direção que me levaria ao centro da cidade. Nenhum dos guardas pareceu se importar comigo porque, afinal, eles procuravam um casal desesperado, e não um cara tranquilo caminhando pelo bairro. O que me preocupava era America. Quando ela fica nervosa sempre coloca os pés pelas mãos.
America’s point of view
Eu me sentia como lixo. Eu havia preferido confiar em uma estranha e deixar Justin ir do que confiar nele, mas só tive aquela atitude porque não pensei que ele fosse realmente fazer o que eu estava pedindo. Quando ele saiu pela porta da casa de Julie parecia que ele estava levando uma parte de mim - a melhor parte - e minha vontade foi de correr até ele, segurar sua mão e então voltarmos juntos pra casa, mas resolvi deixar meu orgulho - o que descobri ser um péssimo sentimento e que não leva a lugar nenhum - e a falsa esperança tomarem conta de mim, me dizendo pra ficar naquela droga de sofá. Um minuto depois que ele me deixou, eu já estava quase desabando em lágrimas, o vejo entrando como um furacão e nem tive tempo de pensar em algo e já estava sendo arrastada pela casa. Mais uma vez aquele idiota do orgulho tomou conta de mim fazendo com que eu me debatesse em seus braços, e então ele me contou que a Clark estava atrás de mim. Minha primeira reação foi desconfiar, mas logo escutei o som do helicóptero e desde aquele momento só o que fizemos foi correr, até encontrarmos um apartamento e recuperarmos o fôlego.
Depois que trocamos os casacos, Justin saiu na frente na tentativa de despistar os guardas que rondavam a área do bairro de Julie. Um minuto depois fora minha vez de sair. Tentei parecer normal, como se fosse uma simples moradora completamente alheia ao que estava acontecendo, o que deu certo. Dobrei na primeira à direita e depois segunda à esquerda e continuei caminhando numa distância segura de Justin, que caminhava tranquilo uns metros à minha frente. Chegando na área mais movimentada ele diminuiu o passo e logo o alcancei, entrelaçando minha mão na dele e então ficamos parados esperando um táxi aparecer. Logo atrás de nós havia um McDonald’s e não pude evitar o som que meu estômago fez. Justin apenas riu fraco e o silêncio permaneceu durante alguns minutos, até que um táxi apareceu. Justin deu o endereço para o taxista e logo pegou seu celular e ligou para Ryan avisando que iria aparecer por lá.
***
- Que confusão vocês se meteram? - Ryan perguntou assim que abriu a porta. Ele estava com uma calça larga e camiseta preta, como se não estivesse um frio horroroso na rua.
Depois que Justin contou toda a história - omitindo nossa pequena discussão - tudo o que Ryan fez foi soprar produzindo um som estranho pelos lábios e dizer “vocês realmente estão fodidos”. Aquela frase ficou tão sem sentido pra mim por simplesmente não entender o significado de fodido e a aplicação na frase, mas fingi entender depois que Justin havia concordado. Realmente estávamos “fodidos”.
- Justin - chamei sua atenção depois que Ryan havia nos deixado sozinho enquanto ia arrumar um lugar para eu dormir.
- Sim? - ele me encarou. Meu coração se contorceu.
- Eu sei que você está brabo comigo, e também sei que só pedir “desculpa” não vai adiantar, mas quero que saiba que eu realmente sinto mui - não consegui terminar porque no mesmo segundo Justin me interrompeu.
- Não estou brabo com você, America. - o encarei confusa, e ele sorriu sem vida - Só estou triste e muito, muito decepcionado - e então meu coração caiu no chão, minha garganta se fechou e meus olhos arderam me avisando que as lágrimas iriam escorrer pela minha face, mas elas forma impedidas de cumprir seu destino assim que Ryan apareceu na sala avisando que estava tudo pronto. Não demorados dois minutos Justin já estava saindo, me deixando para trás.














