17 Justin?
Eu poderia jurar que estava me olhando em um espelho, não fossem as roupas totalmente diferentes e o cabelo loiro e longo que ela tinha. Nossas feições eram idênticas, a incredulidade nos dois rostos que agora se encaravam.
- Quem é você? – ela falou em um sussurro.
- Me chamo America – sorri de canto -, e você?
Ela me analisou dos pés à cabeça e deu um passo para trás. Fiquei a observando e tive que admitir: loiro não lhe favorecia muito.
- America x3 – ela falou.
- Temos um pequeno problema aqui, não é? – dei um passo na sua direção, minha voz num tom um pouco debochado.
- Como isso é possível? – na sua voz tudo o que senti foi medo. Ela falava como eu logo que Justin me encontrou.
- Pelo visto não contam muitas coisas pra vocês, não é? Você sabe onde está a America x1?
- America x1? – a confusão ficou ainda mais evidente em seu olhar.
- Bom, você é a America x3 e eu sou a America x2... A x1 deve estar em algum lugar, certo?
- Isso não é real – ela sussurrou e então fechou os olhos bem forte. No mesmo segundo fui rápido em sua direção, lhe acertando um soco do lado direito e então a joguei contra a parede, fazendo com que ela desmaiasse. Eu não queria ter que machucar alguém como eu, mas ela não poderia ficar andando por aí enquanto eu tentava encontrar Justin. Só uma America poderia encontra-lo.
ANDREW’S POV
Ainda não conseguia acreditar na atitude que America tinha tomado. Ela nunca foi assim, violenta dessa forma. Ela sempre foi doce, calma, um pouco assustada às vezes. Inteligente eu sempre soube que ela era, não era à toa que queriam mata-la, mas nunca a imaginei lutando daquela forma, com os olhos verdes tão cheios de ódio e dor. Ela não sabia o que estava fazendo de verdade, ela apenas agia por instinto, e seu instinto era o mesmo que o de Julie Baker, a dona do rosto que America levava consigo.
Julie, cerca de três anos atrás, era minha namorada – quase noiva – e estávamos muito felizes juntos, até que de uma hora para outra ela começou a agir de forma diferente comigo. Seu temperamento sempre fora um pouco explosivo, e sua personalidade um pouco egoísta, mas do nada tudo isso se intensificou e então descobri que ela estava tendo um caso com Matt. Lembra do Matt, meu irmão o qual America matou para conseguir fugir? Ele mesmo! Nada mais irônico não é? Ser morto pelo rosto que estaria te esperando em casa.
Fora Matt que insistira para Julie ser a primeira pessoa a ter uma duplicata, garantindo que ela ganharia uma boa quantia e se algum dia ela ficasse doente ou qualquer coisa muito grave, ela não iria morrer, pois teria alguém para doar órgãos 100% compatíveis, e logo depois me envolvi no Chronos, ainda sem saber que se tratava de um abate humano.
Eu já tinha saído da sala em que America havia me deixado atirado no chão, e agora procurava por ela e Justin em todos os lugares possíveis e impossíveis da Base. Não deveria ser tão difícil encontra-los já que eu conhecia o lugar melhor que eles.
- Senhor, você está bem? – um dos guardas apareceu de súbito em minha frente, provavelmente assustado com as marcas em meu rosto.
- Estou ótimo – sorri fraco e continuei meu caminho, procurando por aqueles dois.
AMERICA’S POV
Eu já havia procurado por todos os cantos daquele lugar. Eu já estava cansada e desesperada. Encostei-me na parede e deixei meu corpo deslizar pela mesma até que eu sentasse no chão. Respirei fundo diversas vezes tentando me acalmar e então senti lágrimas escorrerem por minha face. O que eu estava fazendo, afinal?
Cerca de duas semanas atrás Justin e eu éramos apenas duas pessoas em seu apartamento, comendo pizza e conversando, nos protegendo, e agora cada um estava em um canto diferente lutando por sua vida, lutando um pelo outro. Lutando com o nosso maior inimigo, prontos para derrota-lo e então sermos capazes de seguir nossas vidas.
Até agora, desde o momento em que cheguei na Base, a única coisa que fiz foi agir como uma pessoa louca, apenas querendo sobreviver. Eu era uma pessoa forte e com coragem, mas não a selvagem que fui.
O que Justin pensaria se me visse lutando como lutei com Andrew, jogando contra parede alguém tão semelhante a mim? Agora que eu estava mais calma a realidade me invadia tão rapidamente, me fazendo desmoronar.
Eu não poderia me deixar abater, me deixar levar pelo nervosismo como fiz quando fugi da Clark. Eu precisava me levantar e continuar procurando por Justin, e foi o que fiz. Levantei e fiz todo o caminho de volta por aqueles imensos corredores. Próximo do quarto no qual eu havia trancado minha irmã – se é que eu posso chama-la desse jeito, ou qualquer outro – eu podia escutar seus gritos e os murros que ela dava na porta. Continuei caminhando, olhando fixamente para o fim do corredor desejando que ela me perdoasse depois que estivesse livre para viver sua vida no mundo lá fora.
Desci as escadas que levavam novamente para aquele salão enorme e cheio de clones. Assim como da primeira vez que passei por ali todos me encaravam curiosos. Parei bem no centro do grande salão e então olhei em volta, dessa vez analisando todos os cantos possíveis com cuidado e atenção. Algo me dizia que era minha última chance.
- Que cabelo é esse, America? E essa roupa – olhei para o lado e uma jovem, de aparentemente uns 20 anos, loira e de cabelos bem curtinhos, estava parada me olhando de uma forma preocupada.
- Eu preciso da sua ajuda – sussurrei. – Preciso encontrar uma pessoa, e é urgente.
- America? – a voz que eu queria tanto ouvir finalmente chamou por mim. Olhei para trás e ele estava lá, vestido todo de branco assim como os outros. Havia uma faixa de suor escorrendo por seu rosto. Ele estava aparentemente cansado. Seu cabelo bagunçado, a roupa desajeitada o deixavam mais lindo. Ele me olhava confuso e preocupado, e então um vulto azul surgiu por trás dele, agarrando seu pescoço e apontando uma arma para sua cabeça.
- Vejo que encontrou seu amado – Andrew falou e então sorriu. Seu olho estava roxo ao extremo.
- Andrew, guarde essa arma! Não estamos só nós três aqui! – gritei, pois ele aparentemente havia esquecido dos clones espalhados pelo grande salão, todos paralisados e com os olhos arregalados.
- Logo eles irão esquecer tudo o que aconteceu no dia de hoje, America, mas aposto que você não e bom, seu Justin não vai ter como lembrar de nada.
- O que você quer dizer? – minha voz estava trêmula, meu corpo fraco.
Por que Justin não reagia enquanto Andrew conversava comigo? Por que ele ficava parado com o medo estampado em seus olhos?
- Você matou meu irmão, America. Estou apenas lhe devolvendo o favor – e então ele movimentou seu dedo no gatilho da arma e no segundo seguinte pude escutar dois tiros, um atrás do outro.









