O que aconteceu? Me diz, ou conta pra meia dúzia de amigos seus que vão sair por aí espalhando; dá um jeito de eu ficar sabendo. Porque eu juro que dessa vez tentei fazer tudo certo, tentei não pisar na bola - e consegui. Te dei valor, corri atrás, esmaguei meu orgulho porque eu sabia que se continuasse com ele, você não iria fazer parte de mim, e eu queria você na minha vida, muito. Eu queria te contar cada mínima coisa que acontecia comigo, queria sair com você no mínimo todo dia, queria ouvir suas piadas e sentir meu coração se confortando de novo. Queria ouvir você falando “chega de drama” e me abraçando, em seguida dizendo que tudo ia ficar bem. Seu interesse e suas preocupações em relação à mim, o seu jeito torto de dizer que queria ficar comigo, a sua maneira engraçada de demonstrar seus sentimentos. Seu ciúme que me deixava com um sorriso enorme, seu hálito que me enlouquecia, sua maneira de enfrentar a vida e os problemas. Sua mania de elogiar meus dentes, meus lábios, meus traços. Tudo ficava mais leve quando eu te tinha ali, do meu lado, sendo meu. Tudo ficava incrivelmente mais fácil. O tempo passava com suavidade, e pela primeira vez eu não enfrentava ele como um inimigo, e sim como um presente. Pois foi graças à ele, que os ponteiros se mexeram e finalmente chegou o dia em que te conheci. Foi graças à ele que chegou o dia dos nossos beijos, dos nossos carinhos. Chegou o dia em que nós brincávamos de nos amar. E como eu amava essa brincadeira! Pra mim, ela nunca vai perder a graça. Mas pra você, já não foi bem assim. Eu acho, ou não. Essa é a droga do problema! Você me deixa confusa, você bagunça cada raciocínio que eu consigo formar, você vem e muda todos os conceitos que eu tinha. Minha mente, que já era um tanto quanto aberta, ficou escancarada depois que você chegou. Só que a gente se esgotou mutuamente, sem ao menos nos darmos conta do que fazíamos. Quando abri os olhos, aquela nossa tranquilidade havia ido para a puta que pariu. E eu quis gritar bem alto: parabéns! Parabéns! Porque foi fácil, foi muito fácil nós transformarmos tudo em uma enorme bagunça. Dois incompetentes, dois estúpidos. Dois fracos, imbecis, otários. Nenhum de nós merecíamos aquela coisa incrível que pairava sobre a gente quando ficávamos juntos. Foi depois disso que as coisas desandaram, mas eu tentei! E você também. Nós tentamos e eu juro que não foi em vão! Não parecia ser em vão… Eu não quero acreditar que foi. Eu fui atrás, eu corri, eu procurei, eu briguei, eu lutei, engoli humilhações e ergui a cabeça, deixei que você pisasse em mim mas eu tentei. Você também tentou, mas quando começava a funcionar de novo, você se afastava. E fazia de tudo pra me afastar também - o que não estava sendo nem um pouco fácil. Nenhum beijo me deixava ligada igual o seu, nenhum abraço me confortava como o seu, nenhuma piada me divertia como as suas, nenhuma companhia era superior à sua e ninguém conseguia te tirar da minha mente. Acordava com essa angustia no peito e essa aflição que nem eu entendia. Tudo ficou chato de novo, tudo perdeu a cor, o ânimo. Saía nos fins de semana e ficava sentada em uma mesa com os amigos naquele barzinho de rock que nós dois íamos. Ficava lá, sentada, com uma heineken na mão e um cigarro na outra. Olhava para o vazio e ficava esperando que você aparecesse por lá com os seus amigos. Observava atentamente cada pessoa que circulava por lá, tentava te enxergar em todas elas. Nunca mais apareceu, nunca mais me ligou, nunca mais me mandou mensagem. Sumiu, sem nenhum aviso, sem nem um beijinho de consolação. Foi embora, virou as costas e seguiu teu caminho. Pareceu tão fácil, tão indiferente. E agora eu volto a te perguntar: o que aconteceu? Onde foi que eu errei dessa vez? O que foi que eu fiz? Fala logo! Não me deixa aqui, na dúvida, na incerteza, no vácuo. Nesse vazio gigantesco. Não deixa meu coração assim, tão oco. Só uma explicação, só um lembrete, só um “p.s.: você foi importante”. Não faz eu me sentir assim, tão nada. Tão pequena, tão vulnerável, tão fraca. Não faz eu sentir que era pouco pra você, porque eu não era. Você sabe que ficou me devendo muito, e que eu não vou te perdoar essa dívida. Às vezes vou pegar o celular correndo quando recebo alguma mensagem, esperando ser sua. Nunca é. Quando me ligam no confidencial eu atendo esperando ser você, mudo do outro lado, só querendo ouvir minha voz. Nunca é. Quando toca a campainha aqui de casa em um domingo bobo, sempre penso ser você querendo me levar pra ir na sorveteria e não tomar sorvete nenhum - como nós sempre fizemos. Mas você não vem, não aparece. E até prefiro que seja assim. Você não pode sumir do jeito que sumiu e um dia aparecer aqui na porta de casa com aquele seu sorriso que me destrói, amolece, enfraquece. Não, não pode. Se você foi embora, boa sorte, segue teu caminho. Porque eu não posso mais aceitar você de volta. Só se lembra que aqui em mim, lá dentro, sempre vai bater esse coração que transborda amor. E que sempre vai ter um pouco pra você.
Letícia










