N I N T E N D O G A M E
Se alguém perguntasse pra Damian o que ele achava de ter um irmão, ia dizer com toda a sinceridade e carinho em seu coração que amava Connor II e que eles tinham um relacionamento ótimo, uma parceria verdadeira e que nem um drama era capaz de separar os dois por muito tempo. Até se arriscaria em dizer que o irmão o amava mais do que amava Nell e Ryuji juntos por ser seu caçula, mesmo sabendo que as chances de ser mentira fossem muito altas.
Ele não odiava Connor, seu irmão, mas sua persona artística sim; no mundo de performance competitiva e no ambiente em que eles tinham crescido, um era a nêmesis do outro. Sabia que Connor era o favorito da mãe, dos professores e até dos sócios, e não ficou nem um pouco chocado quando ele era o único nome em destaque na pirâmide de talentos da temporada, assim como nem um dos colegas se moveu ou se esforçou pra questionar.
Com uma exceção de Harvey, que se inclinou por cima da barra e o cutucou, claramente sem saber como as coisas funcionavam, parecendo genuinamente confuso enquanto a professora dava boas-vindas ao Donovan mais velho como se ele fosse um tipo de Messias.
— Por que seu irmão é o Headliner da turma? Ele nem estava aqui na última temporada.
— Porque minha mãe não gosta de rivalidade feminina e nem masculina, mas defende a generalizada.
Damian solta um suspiro, observando o jeito que Connor sorri para Alexandra, e ele só sabe que aquela não é uma batalha que ele quer lutar contra o próprio irmão.
— Todo mundo aqui é inimigo do Connor, e ele vai derrubar um por um porque é o único que fez todos os estilos da grade do curso e é profissional em todos eles. — Donovan então se volta a Smythe-Lee, com um sorrisinho insolente no rosto. — Achou que ele tava brincando quando disse que ia pisar em todo mundo?
Harvey parece contemplar sua fala por um tempo, se lembrando do dia, antes do recesso, que Connor tinha voltado pra escola, exalando tanta confiança que ele quis colocar o pé na frente dele enquanto andava pelo corredor como se fosse o reizinho daquele lugar. Como se fosse mesmo tudo dele, e nada pudesse derrubá-lo.
Harvey já o odiava, detestava.
— Eu fui o headliner da turma. Eu fechei o semestre como o que mais ganhou troféus, eu…
— Não é mais nada. — Uma garota de cabelo ruivo artificial se inclina na barra, a perna perfeitamente esticada enquanto oferece um sorriso sutil para Smythe-Lee, e então se volta a Donovan. — Mas você pode tentar, é o que todo mundo aqui faz mesmo.
Damian solta uma risadinha, a mão subindo pelas costas da garota enquanto a empurra, a ajudando pra ir mais longe em cima da barra de metal, mantendo os olhos em Harvey que pensa que se não fosse uma aula de ballet ainda em fase de aquecimento, ia achar aquela cena a coisa mais estranhamente atraente de todas.
Pensando que bem que queria estar no lugar da garota, e que se pensasse ainda mais longe, ia conseguir esquecer o quanto tinha ficado puto com o favoritismo escancarado por alguém que não era ele, até Damian completar.
— Bem-vindo a Academia Moon mais uma vez, Harvey. É assim que a banda toca de verdade aqui.
Quando Damian sai da sala, tem o braço de Hai Yun ligado ao seu e o sorriso mais tranquilo e relaxado de todos no rosto, enquanto a ruiva parece despreocupada ao seu lado, lançando olhares furtivos por cima do ombro dele enquanto os colegas passam pelos dois.
— Seu namorado não acha que eu sou sua namorada, acha? — Ela murmura perto do ouvido dele, fingindo que não tinha visto Harvey observando os dois em meio aos próprios amigos.
— Ele já achou, sim, que eu gostava de buceta. — E ele murmura de volta, virando para trás bem na hora que Smythe-Lee se volta aos meninos perto dele e desvia a atenção dos dois. — Mas muito antes dele ter a chance de ser meu namorado.
Já faz um mês desde a conversa dos dois, e ele que ainda não consegue manter uma conversa com Harvey que passe da linha do coleguismo e que não consegue ver qualquer futuro entre eles da maneira que costumava fazer quando eles ainda saiam juntos por aí. Quando confessou pra Smythe-Lee que estava apaixonado por ele, esperava no mínimo que ele o tivesse rejeitado logo de uma vez ao invés de ficar congelado no lugar e o deixar sem qualquer resposta, detestava como Harvey continuava ali como se nada tivesse acontecido e nem comentasse sobre o ocorrido quando eles se trombavam nos corredores da academia, nos intervalos das aulas, e nos finais de semana competindo pelo estado. Damian se pegava olhando pra ele, sempre tinha a oportunidade, se perguntando como, no inferno, ele tinha se permitido sofrer por um merdinha arrogante, bonito e imaturo quanto Harvey Smythe-Lee e por que Deus achou que ele merecia aquele castigo.
Ele só queria um sinal e poderia parar de ter uma crise existencial e gritar com a cara enfiada no próprio travesseiro todos os dias. Só precisava saber o que se passava na cabeça daquele otário.
— Acho que vai ser melhor se você não fazer um arco no refrão, mas só dar a ideia de que vai fazer um, e então já jogar os seus braços pro próximo movimento com mais força. — Connor volta pra posição da coreografia que tinha acabado de executar, seguindo cada instrução do irmão concentrado na imagem dele no espelho enquanto os dois murmuram a música de seu solo, e repete até Damian ficar satisfeito e deixar ele continuar com a música de novo. — Já tem coisas demais acontecendo, então vai parecer mais limpo se você fizer assim.
Damian só tinha aceitado que era menos estressante e tranquilo se enfiar nas coreografias de grupo e pegar as brechas de ser o center sempre que podia, então não tinha problemas dirigindo Connor enquanto ele ensaiava e o ajudava quando a mãe não podia. Costumava gostar de competir com ele e promover o caos em dupla, mas ultimamente prezava mais pela própria paz de espírito e não terminar o dia querendo enfiar o próprio irmão debaixo de um caminhão.
Pelo menos não o tempo todo, já que o sentimento, no geral, já era frequente desde que ele se entendia por gente, e mútuo também.
— Mas se eu fizer um flip no final… — Connor tenta sugerir, quando a música caminha pro final.
— Vão te dar pontos só por ser um exibido, e eu juro por Deus, vou estar torcendo pra você cair torto e aprender a ser mais humilde. — Mas Damian é mais rápido pra interromper e jogar uma garrafa de água vazia na direção dele.
A música termina e Connor parece exausto, se jogando no chão no espaço ao seu lado, apoiando a cabeça na mochila de ensaio enquanto Damian repassa a rotina em seu Tablet na altura dos olhos dele, e os dois só concordam e discordam nas mesmas partes, como se pensassem como um só, sabendo exatamente onde precisavam mexer e o que precisavam mudar até sábado.
— O Smythe-Lee fez uma rotina tão boa quando você dirigiu ele?
— Ele não ia conseguir te alcançar nem se fizesse um flip no final.
Connor quer receber aquilo como um elogio, mas não era aquilo que esperava ouvir quando jogou a sugestão no meio da conversa.
— Ah, foda-se a parte técnica, Damian. Você tem falado com ele? Por favor, não me diga que só ficou aqui dizendo o que ele tinha que fazer e depois o mandou pra casa. — Connor estava indignado agora, usando os cotovelos pra se erguer do chão e olhar pro irmão. — Você é melhor do que isso.
— O que você queria que eu fizesse? Sou coreógrafo assistente, colega dele, e é só. Okay, a gente transava e ficava dizendo umas coisas absurdas e melosas um pro outro, mas agora é isso que nós somos, é só o que nos resumimos. — O mais jovem indaga desligando o aparelho e o deixando no chão, enquanto aproxima os joelhos do corpo e olha pro irmão. — Não dá pra ter um relacionamento sozinho, Connor. Ele não me quer, e nunca gostou de mim tanto quanto eu gostava dele.
Ele se lembra do dia do estacionamento, quando Harvey ficou gritando pra deixá-lo em paz, com raiva e bravo, e depois quando confessou que tinha dormido com CJ e criado um sem número de cenários diferentes quando o viu com Hana e achou que eles estavam juntos na época que eles saiam depois das competições e festivais de dança. Era incrível como tudo podia ter sido resolvido com uma conversa madura e imediata quando as coisas começaram a ficar confusas pra outra parte, mas o fato de Harvey ter logo partido pra outra história e o deixado no escuro, só fazia ele pensar que o que eles tinham nunca tinha sido importante ou significativo de verdade pra ele.
— Acho que você tem razão, não dá pra ter um relacionamento sozinho, e você merece mais do que isso. — Connor então volta a se deitar no chão, olhando pro teto, quando Damian o acompanha e faz o mesmo. — Alguém que te queira de verdade, e que faça coisas por você.
Mostrar interesse, com certeza, era o mínimo, e Harvey parecia ter lido todos os pensamentos dele na segunda-feira, quando o parou na porta da sala. Não o cutucando ou lhe chamando a atenção, mas segurando seu braço, e depois seu pulso, fazendo Damian ficar com a respiração presa na garganta enquanto ele mesmo não sabia o que esperar.
— Não dá pra superar seu irmão, e eu não aguento mais coreografia de grupo. — Harvey começa, num tom de quase súplica. — Então, aceita ser minha dupla?
— Depende do que você precisa, do que você quer, tem um monte de conceitos, e…
— Minha dupla fixa, Damian. Quero apresentar rotinas românticas com você.
Donovan congela, tem certeza que os olhos estão bem arregalados agora, e consegue ver Hai Yun e Connor na sala, um do lado do outro, cochichando sabe se lá Deus o que, enquanto ele tenta organizar os próprios pensamentos.
— O conselho é formado por um bando de velhos, e os jurados não ficam atrás na possibilidade de serem conservadores também. Nunca vão deixar dois meninos fazerem o que eles viram menina e menino fazendo a vida toda. — Damian solta, em um tom tão treinado que ele tem vontade de se dar um soco, mas não consegue evitar o choque do que estava acontecendo ali e agora.
— Eu não me importo, a gente pode lidar com eles, mas só se for com você.
Harvey não vai recuar, e ele sabe disso, e quando checa em si mesmo qualquer sinal de que não deveria aceitar, de que não deveria ceder a ele e que aquilo ia ser tão irreal quanto todo o resto, ele não encontra nada. Cada célula sua quer estar com ele, dançar com ele, explorar coisas com ele e ver o que esperava os dois a partir daquela decisão que só cabia a ele tomar depois de Smythe-Lee se ocupar em fazer a proposta.
— Então… Você vem?
O que está te impedindo, Damian? Não era esse o sinal que você queria?







