Aqueles pincéis foram deixados de lado assim que o rapaz se vira satisfeito com sua pintura. Uma pintura que, na verdade, lhe fazia sorrir sem ter consciência. Era ela; o rosto de porcelana, os fios longos e escuros escorridos por seus ombros estreitos e delicados. E aquele olhar que parecia puxar o tatuador para outra dimensão.
Junhyuk suspirou ao sorrir de leve; as cores que lembravam aquele dia de primavera se transformaram em aquarela no retrato da Hart. Assim que erguera a cabeça então, acabara notando o seu cachorro lhe encarando, o caro Watson. Fora também aí que percebera: parecia um estúpido. Um grande e tremendo estúpido. “O que você está olhando?” Os olhos se estreitaram e ele suspirou mais alto dessa vez, frustrado. Quando Victoria havia invadido sua mente daquela forma? Como? Aquilo, de certo, era um absurdo. Um absurdo, porém, que não conseguia controlar.
Assim que voltara a encarar a folha colorida então, levou os dígitos até o contorno da pintura, quase como se acariciasse o papel; como se nesse simples gesto, pudesse sentir a textura da tez da mais jovem. “Isso é...” As palavras soaram como um murmúrio, enquanto inconscientemente ele pudesse se justificar para si mesmo. “Ela é tão diferente de mim. É como se todas as cores dela invadissem o meu ser... Logo eu, que sempre fui tão cinza.” Fechou os olhos ao final, balançando o rosto em negativa. Assim, num impulso, jogara o caderno de desenhos no chão com certa agressividade, acabando por espantar o pequeno Watson no ato. Os joelhos se flexionaram, e o mais velho abraçou-os, escondendo o rosto entre os mesmos, pensativo por longos minutos antes de focalizar o caderno largado no chão, com o desenho da menina voltado para cima. “Eu pensei que você fosse uma idiota, mas eu... Eu que sou o verdadeiro idiota aqui, hn? Intoxicado por suas cores... Viciado nos seus traços, na sua textura... Como se um dia eu pudesse ser o suficiente pra complementar o seu quadro.” Um riso soprado e sarcástico escapara de seus lábios, e ele voltou o olhar para a janela de seu pequeno apartamento. No final, Junhyuk já sabia que estava completamente perdido e seu caso era, de fato, irreversível.