O Ano em que meus Pais Saíram de Férias (2006)
O Ano em que meus Pais Saíram de Férias
Direção: Cao Hamburger;
Roteiro: Claudio Galperin, Cao Hamburger, Bráulio Mantovani e Anna Muylaert;
Gênero: Drama;
País: Brasil.
Quando se faz necessário adotar um ponto de vista infantil, Cao Hamburger é especialista: haja visto sua obra de maior sucesso e reconhecimento público - o clássico seriado Castelo Rá-Tim-Bum, exibido pela TV Cultura no final dos anos 1990. Neste filme de 2006, o enredo debruça-se sobre o cotidiano abafado e comprimido dos anos de chumbo da ditadura civil-militar brasileira através das acepções, percepções e do cotidiano de Mauro (Michel Joelsas), um garoto de 12 anos apaixonado por futebol. Não é incomum à cinematografia brasileira, a produção de filmes que contemplem este período sombrio da nossa história recente. A grande diferença que O Ano em que meus Pais Saíram de Férias guarda com relação aos demais filmes sobre a ditadura consiste justamente no ponto de vista adotado pela narrativa: o horror da ditadura não nos é apresentado explicitamente, mas através do olhar do garoto que, sem compreender, é enviado para morar com o avô em São Paulo, enquanto seus pais precisam entrar na clandestinidade. O filme é inequivocamente triste, porque registra com habilidade o cotidiano amargurado daqueles dias, ainda que Mauro não compreenda objetivamente a situação imposta, ele filtra os sinais e as atitudes dos sujeitos que estão em seu redor.
O ano é 1970; o país enfrenta o período mais grave da ditadura civil-militar - o governo de Garrastazu Médici; é ano de Copa do Mundo e a seleção brasileira almeja conquistar seu tricampeonato. Em Belo Horizonte, os pais de Mauro - Bia (Simone Spaladore) e Daniel (Eduardo Moreira) - preparam-se às pressas para entrarem na clandestinidade. Segredando do garoto o real motivo do desaparecimento (na percepção do menino, seus pais estão entrando de férias e deverão estar de volta antes do início da Copa), Mauro é deixado na porta do prédio onde vive seu avô (Paulo Autran), no bairro do Bom Retiro, em São Paulo. Acontece, no entanto, que seu avô sofrera um infarto naquela mesma manhã e falecera. Por isso, Mauro passa a viver com o vizinho Shlomo (Germano Haiut), um judeu ortodoxo idoso e um tanto quanto rabugento. Para se adaptar às novas circunstâncias, ambos deverão deixar de lado suas diferenças. É neste ambiente - e cercado por judeus - que Mauro viverá experiências definitivas: amadurecimento, espiritualidade, sexualidade, etc., sem, no entanto, deixar de esperar pelo retorno de seus pais.
Se pensarmos, por exemplo, na canção Aos Nossos Filhos, de Ivan Lins e Vítor Martins - “Perdoem a cara amarrada / perdoem a falta de abraço / perdoem a falta de espaço / os dias eram assim (...)” - , que registra a voz de um sujeito-lírico dirigindo-se aos filhos para tentar justificar a ausência naquele período sombrio, poderemos propor hipoteticamente que o ponto de vista de Mauro coaduna-se com a letra da canção. E que é sempre necessário reiterar: os dias eram daquela forma - sombrios, terríveis e violentos - ainda que alguns insistam em negar os fatos.
P.S.: quem assistir à subida dos créditos finais, terá o prazer de escutar a canção Tropicália (Caetano Veloso) na belíssima voz da cantora Céu.
⭐ 4.3 / 5.0














