Caverninha
As noites eram terríveis sem álcool, mas sempre as sextas havia vinho, éramos pagãos, viajantes na historia, bebíamos e viajávamos na historia, desde a antiguidade até a idade média, éramos seres contemporâneos e nostálgicos, passávamos horas na caverninha bebendo vinho, sonhando com nossos ancestrais que tivemos ou não tivemos, emanando a magia de seres invisíveis, ouvindo nossas músicas contemporâneas há poucos passos do mundo invisível.
Do lado de fora da caverninha à escuridão imperava e na escuridão o guardião aguardava, e na escuridão ele ficava um ser envolto em sombras que nada podia fazer a não ser observar.
Aquelas noites eram boas e com muito álcool e vez ou outra a bruxa vinha para beber conosco, mas nos estávamos sempre ali todas as sextas e os seres mágicos na escuridão sempre a nos esperar, eu era o guerreiro e o outro era telemita, filósofos ou historiadores...
Eu era o iniciante o outro iniciado... Eu era punk e o outro grunge.
Éramos contemporâneos, vivíamos as margens do mundo invisível, e praticávamos o que não lembro mais.
Certa vez na rua escura e fria do subúrbio um gato preto fez um circulo magico envolta de nós, talvez fosse o tal guardião, talvez estivéssemos bêbados demais, mas a noite era fria e o céu estava em profundo turvamento e um lobo uivava no centro da cidade e uma luz pairava na névoa bem adiante. As noites eram insuportáveis sem magia, um ser escuro passou por nós e o subúrbio ficou silencioso como uma caverna fechada há séculos.
Certa vez um ser veio me visitar e na noite escura me disse coisas há muito esquecidas, coisas boas às quais já não me lembro, falava-me como um amigo, e foi embora como um demônio trazendo agonia era meu guardião.
Mas era na caverninha que passamos bons tempos, bêbados, vivendo a historia e ouvindo nossas canções, salvo nos dias em que éramos expulsos pela bruxa de olhos de fogo...
Afinal éramos simplesmente nós mesmos...
Por Cristiano Silva









