ㅤㅤㅤImprovável determinar em que momento passei a apreciar o não dito, o espaço que existe entre a espera e as possibilidades que ali residem. antes inimigas tacanhas daquilo que comumente considerei ser o objetivo de minha outrora percepção de existência, tornou-se lentamente a estaca que mantém essa alma longe da vastidão inerente aos caóticos; veja, se por meio da ausência pode-se entender como descuido, é por ela também que se permeiam os campos da salubridade de espírito, talvez haja afinal encontrado na mais culposa das atitudes um pedaço pacífico do coexistir. não mais poderei ouvirdes os lamentos que preconizam o cair em sua teia, talvez sim, esteja aqui uma hipérbole e sejamos apenas duas individualidades marcadas pela mesma tragédia cosmica que há muito fora assinada como destino, mas se houvera em mim o semeio de seu espírito rebelde e juvenil houve também a força que culminou no mais doloroso dos atos. afastar me daquilo que não mais beneficia, do que lentamente agride meu silêncio, determinar no sinceridio o ato mais delicado de traçar limites, fora, ainda que amargo remédio, necessário para que me mantivesse na estrada da sanidade. peço perdão a ti e mim, por sentir culpa de fazê-lo. por determinar que nossos destinos, por sangue interligados, sofresse desse abismo. infelizmente, descobri que desejo sobreviver e quem sabe, encontrar um pouco mais do que apenas o instinto de seguir a rotina e viver de percepções tão longe da realidade; mais uma vez, peço perdão, nessa carta selada e escondida, que não pude deixar te cumprir a promessa feita há quase duas décadas, receio que seja somente minha a tarefa de não sucumbir ao vazio. aguardo-te em dias futuros.