Hunter Thompson, 1975
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Hunter Thompson, 1975
Clarice Lispector, from "As Fast As I Can Type", Too Much of Life: The Complete Crônicas (tr. by Margaret Jull Costa and Robin Patterson)
A woman interviewed on the BBC's Woman's Hour spoke about her experiences as a prisoner of war: "When you've suffered a lot, you learn to pick up on people's weaknesses, their good and bad qualities, even among your enemies. Why should your enemy be completely bad or the victim completely good? Both are human beings and both are good and bad. And I believe that if we appeal to people's good side, we'll almost always be successful."
I know what she means, but she's wrong. There comes a time when we must forget about being human and compassionate and take a stand, however wrongly, for the victim, and take a stand, however wrongly, against the enemy. And return to a more primitive stage of dividing people into good and bad. The moment of survival is the moment when the victim is allowed to be cruel, cruel and angry - when not understanding others is the right thing to do.
Clarice Lispector, It's Also Important Not to Forgive
O militante de sofá com milhas acumuladas. por Julio Vicari, 2026.
Existe uma espécie em plena expansão global: o militante de sofá com milhas acumuladas. Ele jura fidelidade eterna a regimes onde o Estado manda em tudo, da economia ao pensamento, mas faz questão de carimbar o passaporte em países onde ninguém pergunta o que ele pensa antes de deixá-lo entrar. É uma revolução com check-in online.
Esse viajante ideológico costuma postar fotos indignadas de ruas limpas, trens que chegam no horário e hospitais que funcionam. Diz que tudo aquilo é “fachada”, “colonialismo disfarçado”, “capitalismo tardio em decomposição”. Curiosamente, essa decomposição tem saneamento, internet rápida e farmácias abastecidas, luxos que, nos paraísos que ele defende, costumam virar privilégio de partido ou mercado clandestino.
Enquanto isso, nos países que ele romantiza à distância, fatos teimosos insistem em estragar a narrativa: jovens fugindo em massa, moedas virando piada, prateleiras vazias, internet controlada, jornalistas “reeducados”, eleições eternamente adiadas por alguma emergência conveniente, assim como jogos de loteria, que não decidiram à tempo para quem e onde vai ser sorteada. Mas nada disso abala a fé do turista revolucionário. Para ele, quando dá errado, a culpa é sempre de um inimigo externo invisível e onipotente. Quando dá certo em outro lugar, é roubo.
Há também o ritual do discurso moral, onde o militante explica, com ar professoral, que liberdade de expressão é um conceito burguês superestimado, isso enquanto publica críticas ácidas sem medo algum de represália. Em seus regimes favoritos, esse mesmo texto renderia uma visita noturna, uma confissão pública ou um silêncio definitivo. Mas ele chama isso de “controle necessário”. Necessário para quem, coisa que nunca fica esclarecida, assim como cartões de embarque falsificados.
No transporte público eficiente, ele reflete sobre como o Estado deveria controlar tudo. No caixa eletrônico, saca dinheiro sem limites. No hotel, exige água quente, energia constante e atendimento educado. Reclama quando algo falha por cinco minutos, uma intolerância curiosa para quem passa pano para sistemas que falham há décadas.
Outro dado atual que o militante prefere ignorar: os mesmos governos que ele defende com fervor costumam investir pesado em propaganda, vigilância digital e culto à personalidade, enquanto culpam minorias, artistas ou “traidores internos” pelo próprio fracasso. Já os países que ele odeia permitem protestos contra o governo, inclusive contra o próprio sistema que garante o protesto. É um detalhe inconveniente, então ele finge que não vê.
No fundo, não é ingenuidade. É conforto ideológico. Defender uma utopia distante é fácil quando se vive sob as garantias de uma realidade que funciona. A ditadura alheia vira poesia; a democracia própria vira tédio. E assim ele segue, combatendo o capitalismo com cartão de crédito internacional, sem limite, Wi-Fi gratuito e liberdade garantida, desde que seja sempre na casa dos outros.
Quando o avião decola, ele suspira aliviado. Volta para casa certo de que resistiu ao sistema, mesmo tendo usufruído de cada uma de suas vantagens. A revolução fica para depois. Afinal, amanhã tem postagem nova e censura nenhuma para atrapalhar.
Puro português
Já andava há algum tempo ansioso pela chegada dos resultados, praticamente todos os dias consultava a dita app no telemóvel, para ver se acalmava a curiosidade. Tudo isto porque há cerca de um mês atrás surgiu no pequeno ecrã, um anúncio de que me pareceu mais uma premunição, pois porque de cada vez que esta situação surge sempre me ocorre o pensamento:
“Mas como foi possível esta coisa adivinhar o que me vai no pensamento…”
De alguma forma sabemos porquê, mas escolhemos sempre pensar que há uma força oculta e transcendente que nos persegue, e, de vez em quando se revela em anúncios no pequeno ecrã.
Dizia: “…desconto imperdível, conheça as suas descendências e encontre a sua no mundo, faça o seu teste de ADN!”
Segurei a roleta dos anúncios em série, e, de forma instintiva lá larguei os euros para obter a tal informação que iria transforma a minha vida. Primeiro chegou uma caixa por correio, impecavelmente organizada, com tutoriais, códigos, imagens, e um sem fim de outro centeúdos, enfim, fiz o que me pediram e enviei de novo para o remetente.
Seguiram-se cerca de quatro semanas de espera até ver que a meu teste se moveu do estado “em teste” para “resultados disponíveis!” Ansiedade no topo, mal segurava direito o telemóvel na mão, procurei um banco sentei-me, quase que a criar um momento sagrado, e cliquei para ver…
69,8% português, 16,9% espanhol, catalão e basco; 3% tunisino; 2,8%marroquino; 2,7% Italiano do Sul; 1,9%bretão;1,6% francês; 1,3% da sardenha…
Ora, eu um “puro português” na linguagem corrente dos ventos que sopram por São Bento, deixou-me algo confuso. Logo eu que reunião todas a condições de ser um dos puros, eu que era originário do lugar onde o nosso grande Viriato no uniu como um povo e cultura própria, e onde a nossa identidade cultural se melhor se espalha no passado, eu que sou do lugar onde os muçulmanos não alcançaram, ou os romanos a muito custo derrubaram, como seria isto possível.
Eu que não conheço nenhum familiar com origem fora de Portugal, e os que vivem ou viveram no estrageiro partiram desta terra sem margem para dúvida, afinal eu e todos os meus compatriotas, estes seres impotáveis e guardiões do que é ser português não somos puros!
Lá comecei a olhar com mais atenção e comecei a tentar arranjar alguma explicação naquelas percentagens:
Marroquino, ora talvez, depois de 500 anos de presença muçulmana na nossa terra, talvez um antepassado se tenha ramificado desta gente, pois deles temos palavras, agricultura, arquitetura etc.
Italiano, também, depois dos romanos andarem por aí cerca de 600 anos no, talvez também haja um italiano em nós, pois deixaram a língua que hoje falamos, a organização política, a cultura e umas tantas pontes e aquedutos de água limpa.
Alemães, pois bem, também por aí estiveram os suevos e visigodos uns bons 300 anos, seria natural sobrar por aí uns olhos azuis e alguma organização.
Gregos, Judeus, tunisinos e um sem número de povos do Levante também por aí estiveram cerca de 600 anos, coisas como navegação e comercio também por ai ficaram não tenho dúvidas.
De facto, e pensando sem os ventos de São Bento a soprar, somos muitos e de muito lugares, somos de diferentes e de iguais, tanto na cultura nos costumes e na religião, de facto somos de todos, sou afinal um produto do todos.
Virei-me para um espelho que estava no fundo de sala, e de repente vi-me com cara de muitos e de nenhum, afinal, carrego no corpo meio mundo, sou tanta coisa ao mesmo tempo, onde é que está o meu “puro português”? Onde mora esse tal espírito profundo, sebastianista, marítimo e ligeiramente dado ao drama.
Mais uma vez o velho Pessoa tinha razão em dizer que ser português é um estado de espírito, muito antes de haver testes de DNA a distância de um clique. É ser múltiplo por dentro antes de estar na moda sê-lo por fora. Ele dizia que ser português era ser tudo sem ser propriamente nada, ser universal pela constante falta de paciência para estar quieto, ser europeu na cabeça e oriental na sensibilidade, ser católico porque sim e pagão porque sabe bem, ser melancólico ao jantar e épico no café da esquina.
Somos de facto uma espécie de feijoada genética. Nada em excesso, tudo em quantidade moderada, mas sempre com um tempero que ninguém consegue copiar. O “puro português”, afinal, não vem de uma pureza qualquer, vem justamente da impureza. Somos miscigenação histórica, somos tudo.
E não deixa de ser deliciosa esta ironia, passamos séculos a discutir o que é ser português. Fizemos hinos, poemas, discursos inflamados, falámos de pátria, de raça, de missão. Entretanto, o nosso DNA estava ali, a rir-se de nós, a acenar com as mãos cheias de percentagens que basicamente dizem:
“Meu caro, és uma salada mediterrânica com molhos atlânticos. A pátria é só a mesa onde te serviram.”
No fundo, o nacionalismo português, se existir, deve ser isto: abraçar a mistura com um brinde, celebrar o caos com um fado, aceitar que somos mais universais do que gostaríamos de admitir, e que talvez seja essa a única certeza razoável que temos.
Sou “Puro Português” porque sou um bocadinho de tudo. E é isso que nos distingue e que nos condena, digo eu com alguma ternura, a sermos um povo eternamente poético, eternamente confuso, eternamente à procura de si próprio… enquanto deixa que o mundo lhe entre pela porta dentro e se sente à mesa como se fosse da família.
Afinal, o “Puro Português” é aquele que, como eu, como nós, traz na mala genética uma multidão de antepassados estrangeiros. E leva essa multidão consigo quando vai comer um pastel de nata como quem cumpre um ritual ancestral.
Se isto não é ser português, não sei o que será.
Filipe Cruz, Lisboa, 20 de abril de 2026.
Eu não disse nada.
Não perguntei por que você sumiu,
Por que você me deixou falando com o silêncio de novo.
Eu apenas fiquei ali. Presente.
Como quem ama sem pedir autorização.
Mas não se engane.
Estar ali não era sinônimo de fraqueza.
Era coragem. Era amor queimando com elegância.
Você me olhou como quem esperava uma cobrança.
Mas eu não cobrei. Eu já tinha aprendido que o que vem forçado não é amor.
É dívida.
Você tentou manter a pose,
fingiu que estava tudo bem.
Mas eu te vi. Vi o caos por trás dos seus olhos.
Você me viu também,
Mas não teve peito de ficar.
E o pior de tudo é que… Eu não te culpo.
Eu só queria que você soubesse o quanto doeu ter que fingir que estava tudo bem, também.
Doeu sorrir quando o que eu queria era gritar.
Doeu não dizer “fica”, porque eu sabia que você não ficaria.
E mesmo assim… Eu continuei ali.
Com o peito em brasas, mas de pé.
Porque eu sou essa mulher.
A que sente, a que sofre,
Mas que ama com a dignidade de quem não se apaga.
Sabes que eu estarei
Mas eu não deveria estar, nunca deveria ter estado, não fomos feitos um para o outro e o teu amor por mim era o que nos fazia estar juntos, mas não o meu amor por ti.
Eu já te amei, gostava que isso fosse suficiente, mas agora caminho com as mãos nos bolsos e o bafo frio das noites de novembro.
Gostava que fosses feliz, apenas queria isso, e sei que não serias feliz comigo.