Até minha melhor amiga tem um latin lover agora – não que eu não goste disso. Na verdade acho ótimo, porque desde que ela terminou com aquele ex-namorado loser dela, passou uns maus bocados. Mesmo assim, tem uma coisa que eu não consigo entender:
Sei que tem gente que passa a vida inteira sozinha. Tenho até uma tia que é descasada e tudo mais. Mas, de alguma forma, sinto que isso não é pra mim; ou pelo menos uma parte de mim sente. Não me importo com dinheiro, emprego, status – tudo que quero é encontrar alguém que faça feliz, e daí a gente vê o que faz. A gente se encaixa, se ajuda, e fica tudo bem.
Mas e se a vida não concordar comigo?
E se eu tiver nascido pra, bom... Ficar sozinha?
Não que os outros âmbitos da minha vida estejam dando certo, muito pelo contrário. Não consigo um emprego, e com isso não consigo dinheiro pra a) terminar minha faculdade; b) fazer todos os tratamentos desde ortodôntico até psiquiátrico que eu preciso; c) comprar coisas como roupas, perfumes e etc, além de ajudar meus pais que não estão nas melhores das situações financeiras; e d) sair e cultivar minha vida social, e já há quase um ano beira a inexistência.
Como pode uma coisa dessas? Geralmente rola um equilíbrio, do tipo “perdi meu emprego mas arranjei um namorado” ou “tomei um pé na bunda mas estou sendo promovida”, algo assim. O que fiz de tão errado nesse último ano que simplesmente fodeu-se tudo, em todos os âmbitos da minha vida?
Não posso reclamar porque pelo menos em casa as coisas estão OK. Minha mãe está trabalhando mais do que nunca, com dívidas maiores do que nunca, e me dói o coração não poder ajudar. Meu pai é doido e, bom, a cada dia que passa só piora. Mesmo assim, as coisas vão “bem”: damos risadas e nos divertimos juntos por mais que a coisa aperte. Não é exatamente um sucesso, mas definitivamente não é uma derrota – e dessas estou cheia ultimamente.
Minhas amigas dizem que eu tenho que sair mais, e acho que vou tentar. Minha esperança mesmo assim é nula: a vida de solteira não me satisfaz mais. Voltar pra casa depois de beijar um carinha bonitinho qualquer, ou voltar de manhã depois de ter passado a noite com ele, me parece tão tedioso quanto assistir um documentário do Al Gore. Já fiz muito disso, apesar de não ser tão velha quantos essas palavras me fazem parecer. Beijei fulano, o melhor amigo do fulano, o irmão do amigo, o amigo do irmão; voltei pra casa cinco da manhã, nove da manhã, três da tarde. Fui na balada, no bar, na casa, no boteco, na casa da praia; fiquei bêbada, chapada, alucinada, sóbria.
Tudo que eu queria era um pouco de profundidade. Uma ligação verdadeira, uma conexão, algo que realmente desperte interesse além do físico.
Não que o físico não seja importante, porque é. E muito.
Mas mesmo assim, não é mais minha prioridade. Queria uma daquelas pessoas com quem você pode sentar e conversar por horas e horas, e mal perceber que já são cinco da manhã e passamos praticamente a noite inteira sem fazer nada além de falar.
A parte triste é que eu encontrei essa pessoa, mas como deve soar bem óbvio, essa pessoa não queria nada comigo. E vou parar de falar sobre ela agora mesmo.
Já fiz tudo que eu podia pra tentar entender que tendência louca é essa na minha vida e que caminho posso tomar pra melhorar. Já li mapa astral, contei numerologia, tirei tarô, tudo. Mais do que isso só, se eu invocar um espírito pra ser meu guru e me guiar pela vida.
Coisa que eu faria, mas que claramente não sei fazer.
O que me resta então? Passar as noites sozinha, lendo e assistindo Orgulho e Preconceito repetidas vezes até ter certeza que minha vida nunca, nunquinha mesmo, vai ter a chance de passar por um romance desses, ou sair pra beber todo final de semana e enrolar a língua nos bonitinhos fúteis e superficiais até achar um manipulável o suficiente pra eu poder engatar num namoro?
Lamentável. Isso praticamente resume minha vida até agora, e não quero mais nada disso.
Estou perdida. Ainda se eu soubesse pra onde ir, conseguiria manter a fé. Hoje, sou um grande misto de romantismo e ceticismo, mistura essa que, pessoalmente, acho extremamente venenosa. Como me curar? Não sei. Não tenho um emprego pra me ocupar a cabeça, uma faculdade pra me manter atarefada, e todas as minhas amigas tem empregos, cursos ou latin lovers rolando nas suas vidas.
Acho que parei no tempo, sei lá. Minha vida está estagnada e, pasmem, não quer sair do lugar por mais que eu tente.
Vou ser extinta logo menos.