Eu sei que eu mudei. Eu sei que eu não sou mais a Natalie do começo do ano. Mesmo assim, quando eu paro para ler a Natalie do ano passado é quase assustador.
Talvez eu não tenha mudado, apenas me perdido.
Aos poucos eu tenho achado pedaços de mim largados pelos cantos, empoeirados debaixo da cama, embolados com as roupas sujas e jogando no fundo do armário. Esses pedaços são como relíquias. Quero vestí-los, mas já estou vestida com muitos pedaços que não me perdem e que eu fui achando por aí. Pedaços que não encaixam perfeitamente e sempre ficam frouxos. Eu estou achando os meus pedaços, estou tirando o pó e limpando, como se fosse um daqueles objetos que fazem a gente parar de fazer a faxina só para ficar contemplando e lembrando.
Fico me perguntando se não tenho feito a faxina sempre da forma errada. Será que as coisas realmente importantes não são essas relíquias? Será que a faxina não deveria começar por se despir de tudo que acreditamos ser importante, mas que está sempre frouxo, e colocar no lugar aquele pedaço empoeirado, enferrujado e quase sem brilho, mas que encaixa perfeitamente?
Em todo meu período de [real] mudança eu percebi que meu chão era tirado todas as vezes que eu conseguia me erguer. Eu me desmontava e quando conseguia colocar as peças de volta no lugar, elas caiam novamente. Aos poucos fui mudando as peças, fui confiando naquelas que não são moderninhas, nem da moda, nem convencional. Para minha surpresa, eram elas que me sustentavam e permaneciam toda vez que as outras peças caiam.
Então, agora, sempre que eu caio eu tento lembrar: essa peça não é minha, porque se fosse, ela não teria caído.