beauty and the beast
Já haviam se passado alguns dias dentro do jogo, ou ao menos era o que parecia a Tarquinn, que vinha evitando a todo custo repetir a cena traumática vivida logo em sua entrada naquele universo alternativo: a clara necessidade de seu personagem em devorar humanos. Descobrira, por sorte, ser capaz de controlar a transformação em fera, o que já ajudava e muito a evitar aquela situação, mas não sabia quanto mais seria capaz de evitá-la já que sua fome estava aumentando consideravelmente e sabia que nenhum tipo de alimento normal o saciaria. Descobrira também que Damián era um tanto quanto libertino, e isso envolvia – dentre outras coisas – beber, jogar e passar horas no cabaré, muito diferente de Tarquinn. Parecia irônico ter que fingir tudo aquilo dentro do jogo, quando já passara uma vida inteira fingindo na vida real, mas seu personagem parecia realmente gostar daquilo tudo e, assim como na vida real, ele não queria estragar seu disfarce.
Era por esse motivo que se encontrava no cabaré/bar aquela noite à mesa de pôquer, com uma bela dama em seu colo usando um decote avantajado que estava lhe tirando toda a atenção do jogo – não devido aos seios fartos que se pressionavam contra ele, mas sim pelo coração que batia por trás deles. O barulho estava ficando ensurdecedor e, para o desgosto de Tarquinn, o ligeiro bombear do sangue pelo corpo delicado da moça lhe dava, literalmente e no pior sentido, água na boca. Seria tão fácil enfiar a mão através do peito alheio e alcançar o órgão pulsante... Seu estômago faminto manifestou-se com a ideia e um rosnado quase escapou de seus lábios, ao mesmo tempo em que sua audição sobrenatural captava um vozerio conhecido vindo da rua; era um de seus “seguidores”, um jovem rapaz que parecia ser um tanto difícil de controlar.
Aproveitou-se da distração para desvencilhar-se da moça antes que lhe atacasse e sair a fim de averiguar o que estava acontecendo; do outro lado da rua, o rapaz parecia estar importunando uma moça, obviamente interessando em divertir-se com ela apenas para por um fim em sua vida mais tarde. A questão era que atacar cidadãos era muito perigoso quando alguém pudesse dar falta deles, sendo assim mais indicado os moradores de rua que podiam passar despercebidos. Recolocou o chapéu de aba larga e reta, destoando das cartolas comuns, e atravessou a rua a passos largos; pousou a mão no ombro do garoto com certa força, mas o olhar estava fixo na jovem que, segundo o jogo lhe informava, já havia visto diversas vezes antes em sua última visita à cidade dois anos atrás. “Buenas, señorita. Meu amigo aqui está lhe importunando?” O sotaque espanhol lhe saía naturalmente conforme falava, mais uma artimanha do jogo que Tarquinn achara sensacional. A mão apertou com mais força o ombro do garoto, que se encolheu ligeiramente; os dois homens não trocaram mais que um olhar significativo, e Damián o soltou com um não tão leve empurrão e o observou se afastar rapidamente. “Minhas sinceras desculpas.” Inclinou-se, prontamente tomando a mão da moça e depositando um leve beijo de forma cavalheiresca. “Damián, às suas ordens. E eu creio que já a vi antes.” @cleoepsilon










