Esse texto é um texto/relato de uma amiga minha, Carolina Fantini, ela postou isso hoje no facebook. Esse post me tocou, sei que uma atitude assim deveria ser "comum" e não vista como algo além do normal, mas na sociedade que nos encontramos infelizmente esse não é o caso, e por isso estou dando o devido destaque que merece. Espero que isso dê a todos algo para pensar.
"Estava eu voltando pra casa hoje, e em algum momento, entre os meus pensamentos sobre como a Santa Dose de ontem me estragou, e como a rodada do Uruguai foi importante para a criação da OMC (pós aula do Geraldo), eu vi uma cena que por mais comum que seja, não deixa de ser tocante (ou pelo menos não deveria deixar de ser).
Um menino, mais um menino de rua no Extra, sentado no chão pedindo dinheiro. Eu como uma boa “paulistana” passei rapidinho, sem fazer contato visual e fingindo que não ouvi o pedido dele por dinheiro. Até chegar na rampa do Extra eu pensei “q dó, q vergonha, mas imagina que legal que não seria trocar uma idéia com ele? Pena que eu sou muiiito ocupada... ” mentira.
Voltei, fui até ele e perguntei:
- Qual o seu nome?
-Eliaque, dá uma moeda tia?
- Não tenho moeda, você já jantou?
- Já, me deram uma marmita. Ah.. então compra uma coca pra mim??
-Compro, mas só se você for comigo lá.
- Tia, não me deixam entrar ai..
- Você tá comigo, vem.
Que ilusão, não estávamos a nem três metros da porta quando veio o segurança:
-Moça, o menino não pode entrar
-Ele está comigo, vamos comprar uma coca
-Você pode, ele não, são ordens moça..
- Bom, mas então saiba o senhor que o direito de ir e vir é um direito fundamental, assegurado pelo artigo quinto da Constituição brasileira de 88, e o menino vem comigo. – Eu juro q sempre quis falar isso p alguém, vi ali a minha chance e caprichei na poker face com o segurança!
- Hum... mas é que ele está descalço, e descalço ninguém entra!
- OK então. Eliaque espera ai que vou até a minha casa buscar um chinelo pra você. Mas não saia daqui entendeu?
- Beleza tia...
Quase na rampa novamente, com medo de que os seguranças se livrassem dele antes de eu voltar eu só pensava em ir o mais rápido possível, quando ouço:
- OU!!!!
Virei.
- Eu calço 31!!
Só consegui dar risada e voei para pegar o chinelo. Chegando lá o Eliaque estava no mesmo lugar onde eu mandei ele ficar, e de chinelo no pé entramos, mas eu já fui logo avisando:
- Eliaque, eu não vou te dar nada. Vamos fazer uma troca: A gente compra algumas coisas pra você, e em troca você me conta a sua história, e se eu achar que vale a pena, vou contar ela para muitas outras pessoas, para que elas te conheçam também, pode ser?
- Mas tia... se não valer a pena eu não ganho a coca?
- Você vai ganhar mais do que uma coca, prometo. E me chama de Carol.
- Beleza tia!!
Não demorou nem cinco minutos para que o Eliaque começasse a contar tudo quase sem respirar, acho que ele se sentiu pressionado a fazer valer a pena.
Ele dorme na rua, no Bom Retiro -“sabe onde fica tia?”- junto com a mãe dele e mais cinco irmãos, cujos nomes noo chance de eu conseguir lembrar. A mãe dele puxa carroça (pois é.. não é um trabalho exclusivo dos cavalos), e segundo ele não falta nada para eles comerem, ela dá conta de sustentar a família toda. E ele só volta pra casa depois de conseguir juntar dez reais.
Eu esperava que como uma criança “normal” ele fosse querer encher o carrinho de chocolate, salgadinhos e coca-cola, mas quando perguntei o que ele mais queria do supermercado ouvi simplesmente: “a coca, uma blusa, uma escova de dente e uma pasta tia! Não agüento mais escovar o dente com a mão!! Posso?”.
E conforme andávamos e conversávamos o Eliaque se preocupava principalmente em comprar embalagens grandes para dividir com os irmãos dele e escolher o produto mais barato, achei uma boa já que paguei a conta com o cartão do meu pai.
Passando do lado daqueles bolos que a confeitaria do supermercado vende (que eu particularmente odeio):
- Nossa tia, esse bolo é bom!! A minha Irma achou um IN-TEI-RI-NHO no lixo uma vez!! Muita sorte né!
-Você quer levar um?
-Não tia, vamos achar a coca!
Ele chegou a conhecer o pai dele, mas ele era drogado, e sempre que aparecia era pra roubar alguma coisa da mãe dele, até que um dia ela chamou a polícia, ele foi preso e assassinado no presídio.
- Mas ele morreu porque lá?
- Mataram né tia!- com aquela cara de tipo duuh.
- Sim, mas qual o motivo, você sabe? – pensando eu que ele poderia ser de algum grupo criminoso, sei lá...
- Ah tia, lá é muito cheio né!! Tem que matar alguns pra caber todo mundo. – com a maior naturalidade.
Mudamos de assunto.
Assunto clássico com criança que você não tem intimidade: escola.
Ele vai todos os dias sem falta, a escola dele é uma das melhores porque lá os professores esperam todo mundo fazer a lição para mudar para a próxima, e eles são legais também.
Perguntei do futuro: Ele quer ser médico! Eu falei que é difícil que tem que estudar muuuito, mas segundo ele, ele só tira dez em tudo, e aprendeu a escrever em letra de mão sozinho: “Eu nem tinha aprendido ainda tia!! Um dia eu tava escrevendo e quando vi, saiu letra de mão!!”, essa foi meio difícil de entender, mas beleza..
Plano B: Caso ele não consiga ser médico, quer trabalhar no Extra, pra poder andar de patins o dia todo, o pior que eu queria exatamente a mesma coisa na idade dele: trabalhar andando de patins em supermercado.
O estranho é que eu nunca fui barrada em um supermercado, nunca fui descriminada lá, e sempre pude comprar o que eu bem quisesse. Mas para o Eliaque as coisas são muito diferentes, no entanto ele vê isso com uma naturalidade assustadora, como se isso fosse normal por ele ser pobre, como se fosse normal o pai dele ter sido assassinado porque o sistema penitenciário é uma merda. Sem rancor, raiva, inconformismo, questionamento.
Mas o Eliaque tem nove anos e é vitimado por um sistema desigual. E nós?
Eu pelo menos tenho vinte anos, nunca me faltou nada (a não ser juízo segundo a minha mãe), mas de resto sempre tive todas as oportunidades e muitas vezes (quem sabe, se não a maioria) não dei o valor merecido. A questão é que de certo modo o meu pensamento é exatamente igual ao do Eliaque, ele só está maquiado por retórica.
Eu não me refiro aqui ao conformismo do tipo “a pobreza existe mas passamos reto e fingimos que não vemos”, mas sim a um conformismo menos feio, do tipo “não adianta nada fazer alguma coisa pequena e isolada, pois é preciso fazermos uma mudança estrutural, precisamos de um governo menos corrupto, políticas mais eficientes, distribuição de riqueza...”, e estudamos, nos formamos, trabalhamos para nunca colocarmos em prática as tais mudanças.
Não, meu nome não é Polyana. Eu não acho que eu mudei a realidade do Eliaque hoje, não sou uma pessoa boazinha, eu sei bem que o Eliaque só é pobre porque eu não sou, e as coisas que eu comprei só vão durar algumas horas.
Eu não acho que todos devem sair por ai comprando um monte de coisas pra um monte de gente pobre, e eu sei que esse discursinho de “aiii que merda, o mundo é um lugar complicado, a gente precisa mudar isso” é móóóito clichê, e tem efeito quando a gente tem 13 anos.
Mas de onde vem esse conformismo? Será que se a gente parar de olhar a pobreza como um problema estrutural, um número estatístico, e dar um nome, idade, história a ela, ela não ficaria mais palpável? Mais solúvel? Mas será também que isso não vai nos gerar um desconforto inconveniente? Não é mais difícil ouvir pessoalmente essa realidade, já que é impossível fazer isso sem criarmos qualquer tipo de identificação pessoal?
Claro que é, mas só acho que as vezes essas coisas passam pela gente de uma maneira tão perigosamente sutil que é difícil considerar que se a gente tentar conhecer melhor o reflexo desse problema estrutural pode ser mais fácil criar um senso crítico válido. E quando eu digo válido eu quero dizer baseado não apenas nos números e estudos, mas na realidade individual de cada uma dessas vítimas.
Foi por isso que eu escrevi tudo isso, e que eu duvido um pouco (por tudo que eu já disse aí em cima) que as pessoas vão ler inteiro, mas eu acho válido compartilhar essa experiência, esse personagem com qualquer pessoa que tenha interesse de conhecer também, para que a gente veja claramente que a pobreza tem nome, história, família, e calça 31.
E só para uma ultima reflexão: enquanto eu pagava a conta o Eliaque colocou todas as moedas que ele tinha juntado no dia na caixinha de doações do Extra. A minha reação e a da mulher do caixa foi idêntica: “Não Eliaque!!!! Leva esse dinheiro para a sua casa!!!” e ele com a maior inocência: “Não tia, eu gosto de ajudar as crianças doentes!!” – para quem não acredita, tem foto!
Então será mesmo tãoo clichê esse pensamento de que uma ação isolada pode fazer alguma diferença no status quo?" By Carolina Fantini
Vale a pena pensar sobre isso... posso dizer que eu sim pensei, e ainda to com isso na cabeça...