Mesmo quando estou no meu limite, eu sei quando você está no seu, somos tão previsíveis. Música alta, canta alto, várias músicas até chegar às suas de conforto. Só de ouvir a sua voz, ouço o que era para ter saído antes de começarmos a nossa briga de hoje. Você canta pesado, como se quisesse soltar o que estivesse preso, queria que você entendesse que a conversa é para retirar o peso, mas toda vez que tentamos acabamos brigando de novo e acaba virando uma bola de neve.
"Quando você vem. Meu coração já se alegra. Meus olhos já brilham, só de pensar que eles irão encontrar os seus. Meu corpo já se estremece, só de pensar em encontrar o teu abraço."
Hoje recebi a devolutiva de uma entrevista e informaram que encerraram a vaga por um erro. Mas falaram para eu ficar tranquila, porque quando abrissem de novo — se abrissem —, eu iria ser chamada novamente. O que me pega é que me deram esperança de que vou poder tentar de novo. Muitas das vezes na minha vida, basta um "talvez" para eu seguir esperando uma oportunidade para tudo, seja para emprego ou para uma nova fase no meu relacionamento. É o tipo de esperança que me condena sempre.
Sou o vitorioso da minha própria história. Soldado na frente de batalha em terreno de celulose pantanosa, de caneta em riste pronta para confrontar todos os milímetros de mim, de parágrafo inscrito na sua armadura pois a única coisa que me defende é a sílaba e suas regras gramaticais de plasticina e ferro por fundir.
Ler faz-me magia sensata; ler-me é a destruição de mim.
Clarice, Wilde e Pessoa, amparem o meu mundo com as vossas canetas afiadas; em tempos outrora, no antanho do cosmos, o vosso caos foi o meu, tão eloquente e eterno como outra coisa qualquer.
Assim me redescubro, reescrevo, reedito, sou repetições refrescadas, e reluzem em mim os despojos do que é ser gente, vitrais de Andrómeda. Quem imaginar o meu mundo acabará por refletir o seu.
Tédio, meu camarada combatente nas cataratas do ser, possuis algo que eu nunca imaginarei possuir. Esse requinte da pasmaceira. A falta de ardor é a morte de mim, pior que ler-me. Esse requinte da brisa erguida no teu enxugar de ombros, que até os teus ombros se desmontam, se desencaixam, se deambulam pela celulose e se desapegam da fronteira do fim, sensatos. Dessas clavículas claudicadas brotam novos arranjos de ombro, mais tortos e espetados, a pasmaceira da simetria.
Há na hiper-gramática hiper-geometria-cursiva uma retinta ilusão de domínio sobre as coisas. A linha deste caderno é a força gravítica das palavras nela repousadas. Quem me dera ser uma linha de caderno. Infelizmente?, aparentemente, só sou linhas de plasticina, fantasmagóricas, que, na sua convicta magia de aparecerem, tão instantaneamente falecem, e caem nos meus ombros todas as palavras do mundo. Se os meus ombros, por módico anseio, se soltarem das minhas clavículas de claraboia para retomarem a sua rota até à boca do inferno, onde pertencem, arder-se-iam hermeticamente as palavras, e talvez o mundo abraçasse esse cheiro de lírios e gardénias, e talvez todo o resto de mim se desmontasse para ser feliz. Mas a hiper-gramática-recursiva não o permite, meu amor. Nem imagina permitir. Fiquem onde estão, ombros de maquinaria remediada. Não revirem essa omoplata. Só tu suportas a Andrómeda em mim. O ardor em mim. Os milímetros de mim. Neste campo de batalha pantanoso a que chamo de lar.
O sangue derramado é retinto, também, e há muito solo que o bebe para a colheita do amanhã.
E esse repetido amanhã renasce com retoques de sofreguidão e lassidão, arrastando o azul ameno até ao seu enterro.
E esse enterro das estrelas remexidas é remetido às íris curiosas que ousam desmontar o infinito.
E esse renovado infinito, que os amigos dizem que é um comediante, tomou banho, aplicou creme de amónia e maquilhou-se de folha de papel.
E essa folha de papel recebe o meu sangue derramado, despejado, deleitado.
Os outros que inventem o seu infinito. Este hiberna nos meus ombros vitoriosos.
Ninguém escreve regras mais duras do que uma pessoa machucada.
Na minha cabeça, troquei a fechadura, recolhi as chaves, passei a corrente. Repeti que não faria papel de idiota outra vez. Se um dia ele voltasse, encontraria a porta fechada e teria de conviver com isso. Eu dizia essas coisas pra mim mesma como quem testa a maçaneta duas vezes antes de dormir.
Com o tempo, parei de testar.
A casa se acostumou com a falta. O chão deixou de esperar determinados passos. As conversas que eu ainda guardava foram perdendo o volume. E eu segui, talvez não exatamente em paz, mas sem precisar discutir todos os dias com alguém que não estava ali.
Até que não houve uma batida.
Houve menos do que isso.
Um sinal pequeno. Uma passagem rápida diante da janela. Quase nada. O tipo de coisa que uma pessoa equilibrada vê, registra e volta a dormir.
Eu fiquei acordada.
O corpo, esse animal sem nenhum compromisso com a minha dignidade, reconheceu primeiro. Reconheceu antes que eu pudesse lembrar a ele tudo o que tinha acontecido. Por alguns segundos, não veio a raiva, não veio a mágoa, não veio a mulher que jurou nunca mais. Veio o carinho. Inteiro, inconveniente, sem a menor vergonha de ainda existir.
Achei um desaforo.
Eu tinha passado tanto tempo construindo argumentos, ensaiando respostas, imaginando a serenidade com que não abriria aquela porta. Só não tinha previsto que, do outro lado, ainda estaria alguém que eu saberia receber. Alguém com uma risada que eu não preciso reaprender. Alguém que amei de tantas formas que nem a ausência conseguiu transformar completamente em estranho.
O carinho é péssimo de conta. Não pega o que doeu, subtrai do que foi bom e entrega um saldo honesto. Guarda tudo junto. A falta de consideração ao lado das conversas que salvaram noites difíceis. O sumiço e o conforto. A raiva e a vontade de contar alguma coisa engraçada.
Talvez seja por isso que eu não saiba o que fazer com a porta.
Não quero abrir como se nada tivesse acontecido. Também não quero mantê-la fechada só para provar que consigo. Não sei qual das duas coisas me faria sentir mais idiota.
A verdade é que eu ainda me levanto ao menor barulho.
Só depois lembro por que decidi não abrir.
Talvez eu não abra. Talvez ele nem bata.
Quando fiz a promessa, achei que ele é que teria de conviver com a porta fechada.
Fui feita de coragem, por isso em mesmo ao medo, as frustrações, as decepções, eu sempre sigo em frente, as vezes demora um pouco mais, mas sempre encontro forças para persistir mais uma vez. Meu processo de habilitação sem dúvidas foi o que mais me desgastou, desmotivou, me fez perder a fé e a esperança, eu caí, fui no fundo no poço, mas agora eu me reergui, e agora estou pronta para mais uma tentativa. Agora não tem espaço para não, talvez, e se, a única coisa que existe é o SIM, o sim que espero há meses, o sim da minha independência, liberdade que sonho desde criança de ir e vir para onde eu quiser, conhecer lugares que sempre sonhei e viver a vida que realmente mereço. Deixo bem evidente que o resultado não é sentença, mas apenas uma etapa muito importante para eu chegar aonde sempre sonhei. Lembro dos lugares que minha mente já viajou dirigindo na infância, eu dirigindo para a praia, para o campo, para as cachoeiras, para a visita a família, para tantos lugares, e obcecada pelo resultado da aprovação eu me paralisei no medo e esqueci o quanto essas memórias eram importantes para mim.
Mas agora estou mais forte, mais experiente e a vitória vai chegar, no momento certo tudo se concretiza e agora tenho a certeza que essa hora chegou. Então hoje escrevo não só para reforçar minha fé, mas para lembrar a mim mesma o que sou e porque estou aqui, o que me sustenta, o que aprendi, o que devo superar e onde quero chegar.
Daqui há um mês estarei aqui agradecendo pela vitória de estar habilitada e realizada, por fechar um ciclo doloroso e iniciar um ciclo maravilhoso e cheio de alegria. Que Deus e a espiritualidade me acompanhe até o fim me dando força, coragem e determinação, me proteja de qualquer mau e me dê sabedoria e prudência para jamais prejudicar alguém.
Eu vi você, vi quem realmente você é. Quebrei e vislumbrei sobre esse rosto e gestos bonitos. Eu vi o quão pobre você é por dentro.
Mas, a pior parte, é que eu te aceitei mesmo assim, estava disposto a continuar o que quer que tínhamos sido. O que eu me arrependo.
Você nunca mereceu nada do que eu ofereci. Nunca ofereceu um pingo da minha atenção.
Está condenada. E nunca, nunca se esqueça disso: Você Merece toda essa descarga de merda que vai receber.
E quando estiver na lama espero que lembre que eu estava disposto a deitar com você nela. Quando estiver sozinha e com seus pensamentos perturbados e sombrios que sempre teve, lembre-se: Você merece cada segundo disso.