Dizem que o céu pode existir na Terra. Pode ser um lugar ao lado de alguém. Dizem que só vai para o inferno quem fez por merecer, mas eu nunca fiz nada. Quer dizer, minto. Omito. Manipulo. Mas este tipo de coisa nunca é errado quando somos nós que praticamos. Olhemos por um outro lado, mentir é errado, mas é um mal necessário. Um mal. Quem inventou a definição do que é ruim ou não? Viver numa fantasia é errado? Faz mal? Faz, mas é mais confortável. Quer dizer, veja bem, eu deveria perder uns dez quilos, mas prefiro me ver magra no espelho e comer sem parar enquanto vejo alguma comédia romântica sem sentido. Qualquer um preferiria fazer. Outra coisa que faz mal, dormir e deixar as responsabilidades de lado, até onde me consta, preguiça é pecado capital, mas não vem ao caso. O que vem ao caso é que várias pessoas fazem promessas, seja em inícios de relacionamento ou até mesmo de amizade. O maior deles é ser sincero. Teu namorado nunca vai ser completamente sincero contigo. Se tu estiver gorda, ele ainda vai dizer que tu está bonita. Se tu te achar incapaz de algo, e realmente for, ele sempre vai dizer que tu pode, mesmo sabendo que não é verdade. Então, até que ponto a mentira é saudável? Não é. Não deveria ser praticada. Mas é considerada saudável até o ponto que machuca, até o ponto que torna o teu céu na Terra, um inferno desmerecido. E machuca porque é desleal, e as pessoas não estão acostumadas com isto. Ninguém está preparado pra ouvir um ''Preciso falar contigo sobre algo sério'' e depois ouvir que a tal pessoa que lhe jurou sinceridade lhe mentiu. Uma, duas, três vezes. Há quebra de confiança, e o que é uma vida sem poder confiar em ninguém? Eu, por exemplo, odeio mentiras, mas minto para mim todo santo dia. ''Amanhã eu começo aquela dieta'' ou a mais comum ''No próximo ano vou me empenhar mais''. Todo mundo sabe que não vai cumprir. Porém essas mentiras são saudáveis... e quando é um ''Eu te amo''? Como se lida com a dor de mentir sobre algo tão sério? Tudo bem, somos jovens demais para saber o que é amar e blá blá blá, mas só cada um sabe o que sente. Amar é sim se sentir sufocado, é sentir tanto medo que dá vontade de chorar cada vez que você pensa em perder a pessoa. Amar é idiota e sem sentido, faz você pensar que não vive sem tal pessoa. Todo teu mundo se ilumina só de falar do dito cujo. Tem gente que foge do amor. Faz de tudo pra escapar dele. E tem gente como eu, que simplesmente não consegue fugir. Sabe aquele troço de olhou e se fudeu? É comigo mesmo. Talvez eu seja masoquista, talvez eu queira acreditar tanto na bondade das pessoas que acabe enxergando isso sem querer. E ai eu minto pra mim mesma. Não é saudável e com certeza não é bom quebrar a cara tantas vezes, quando você é como eu, que simplesmente não consegue aprender nunca. Talvez eu seja ingênua. Talvez eu seja fraca de chorar tanto às vezes que meus olhos cheguem a arder. Talvez eu devesse trocar o céu imaginário pelo inferno real. Mas eu não quero. Eu não quero porque eu sou grande só em tamanho, apesar de ser consciente. Claro, que a queda é bem alta, e machuca, cria cicatrizes que só pessoas muito especiais podem curar, o que é realmente difícil. Mas não é uma escolha. Parece que é, mas não é. Eu sou projetada pra amar com todo o meu coração, acreditar na bondade e lealdade das pessoas e depois quebrar a cara bonito. Eu sou conduzida pelo amor que eu sinto pelos outros, e até mesmo pelo ódio. Eu não sei fazer nada em pequena escala. É tudo exagerado e impulsivo comigo. É errado, e faz mal. Mas eu não tenho escolha. Se eu pudesse, eu voltaria para o céu na Terra, mas quando se tem alguém te mantendo no inferno, é difícil.
Quem troca o céu pelo inferno é louco, ou cansou das falsas promessas?, Camila Reis










