[Flashforward] Bad Blood | October 31st, 1981
Você está ali, naquele lugar escuro, há tanto tempo que nem sabe que dia é hoje, muito menos que horas são (na verdade, já se passaram três dias desde que você foi capturado em uma missão da Ordem – uma das poucas para as quais fora designado). Eles já o haviam convencido anteriormente, que aquele era o lado vencedor, que, se ficasse com seus amigos, você morreria. Mas você não queria morrer, certo, Peter? E foi assim que iniciou o jogo, they toyed with your mind. Eles o fizeram sentir importante – Voldemort pessoalmente dissera que suas informações eram de vital importância, como se soubesse exatamente que esse era seu ponto fraco, que mexendo ali, na sua baixa autoestima, no seu desejo de ser reconhecido, ele conseguiria o que quisesse.
Você, meu caro garoto, foi enganado, mentiram para você, e você sequer consegue ver isso. Eles entraram tão fundo nas raízes da sua mente que te conheciam melhor do que você mesmo. Conheciam seus medos, suas inseguranças, aquele desejo de se sentir útil e desejado que você sempre teve e que, ultimamente, não estava sendo alimentado regularmente pela Ordem. Eles te deixavam de lado das missões, sugeriam que você não fosse, casualmente, claramente duvidando de sua capacidade (ao menos, era assim que ficara gravado na sua cabeça) e sua inteligência deixando que você ficasse na central da Ordem, ajudando na parte de estratégias.
Via Lily grávida, James, Sirius, Remus, todos juntos, e percebia que você não se encaixava ali. Lily, é claro, tão sensitiva quanto só ela mesmo era, foi a única que notou seu afastamento. Quando decidiam por um Secret Keeper, Evans casualmente soltou o seu nome, que, surpreendentemente, foi bem recebido. Se alguém faria tudo pelos amigos, esse alguém era você, Peter, ou ao menos quem você era antes que Voldemort e seu conhecido talento como legimilente invadissem sua mente frágil e mutável. You were Lily and James Secret Keeper, but you also had a Dark Mark on your arm, beneath the layer of cotton. A double agent.
Começou com pequenas informações. Inofensivas. Ou pelo menos era isso que você dizia a si mesmo. O número de pessoas da Ordem, seus nomes, status sanguíneo de alguns nomes que você conhecia dos tempos de Hogwarts, resultados de algumas missões, o que planejavam fazer – de fato, alguns movimentos da Ordem foram neutralizados porque você já abrira sua boca para os Death Eaters.
Mas nenhuma morte. No blood on your hands.
Eles estavam te quebrando, naquela fatídica noite. Aos poucos. Uma maldição imperdoável sobre você de tempos em tempos – intervalo esse que você não tinha a menor noção de qual era. O segredo, as palavras, estão na ponta de sua língua, prontas para saírem, mas você resiste, resiste, resiste, provando ao Chapéu Seletor que ele não errara ao te colocar na Gryffindor. Eles queriam James e Lily, e isso você não daria, de jeito nenhum. Via as pessoas encapuzadas passarem por você como borrões, aumentando a dor e diminuindo seus sentidos. “Spill it, Pettigrew. We don’t have months, and neither do you. If you ask me, I think it will be a surprise if you make it through this night.” Você engoliu em seco e sentiu sangue em sua garganta.
“Crucio!” A dor era inimaginável. No centro de seus ossos, nos músculos, na mente. Quantas vezes já usaram aquela em você? Era a preferida. Quando você achava que ia perder os sentidos, novamente, uma voz – que nem de longe parecia a sua – anunciou, interrompendo a tortura. “Godric’s Hollow.” (Era seu instinto de sobrevivência, mais forte do que você).
Você sempre soube que ia acabar ali. É tão obvio, não é? Esse foi o seu fim o tempo inteiro ― o único final para a estrada de autodestruição que é você. Não há escapatória, Peter, não agora. Você causou isso a si mesmo. Você se destruiu. Você destruiu seus amigos. Você está satisfeito, querido? Você se sente bem? É isso o que você sempre quis. A decadência de uma vida desregrada; o fundo do poço que é a sua vida, depois de passar a vida inteira cavando, as mãos sujas de terra, a luz há muito já perdida no meio da escuridão; o inferno queimando sob os seus pés.
Você está satisfeito?
Você tenta se levantar, mas não consegue. Sua visão está borrada e seus membros parecessem estar derretendo, fracos demais para suportar qualquer esforço ou movimento. Você sente o seu coração pulsar em um ritmo desenfreado, a dor no peito lhe atingindo como socos, uma bomba presa em seu peito, pulsando, pulsando até explodir. A respiração se torna ruidosa, como se o ar fosse doloroso e você não conseguisse nem mesmo mantê-lo dentro de você. O seu mundo inteiro parece girar e a bile sob por sua garganta, amarga, até o ponto em que a única coisa que você consegue fazer é virar o rosto e deixar tudo sair. Suas mãos estão tremendo sem parar e você sente como se não tivesse controle nenhum sobre as reações do seu corpo.
Você se encosta à parede e deixa o seu corpo despencar pelo chão. Os olhos se fechando mesmo contra a sua vontade, fraco demais para continuar lutando. Seus pensamentos são além de qualquer coerência e nenhuma palavra jamais deixa os seus lábios.
Você está morrendo?, pensa debilmente, mas o desespero não está ali. Há apenas o alívio. Finalmente.
Os seus olhos se fecham e, aos poucos, a escuridão toma conta de você.
Finalmente.
(E tudo o que você queria era que ela ainda estivesse aqui)
Está escuro.
E não há nada que você consiga sentir além da tristeza ― além da dor. Todo o seu corpo dói e a consciência do que você fez se crava em sua pela com garras e unhas e feridas abertas, faz um buraco em sua alma e o deixa, assim, vazio. E esse buraco dói e sangra e faz com que a única sensação que ainda existe dentro de você seja a sensação de estar morto.
É a primeira vez na sua vida que você chega ao fundo do poço dessa maneira, é a primeira vez que você se sente assim ― tão caótico, descontrolado, destruído ― e é a primeira vez que você encara o penhasco profundo que habita a sua mente ― que sempre esteve ali ― por mais de alguns instantes, a escuridão tornando impossível de definir a sua altura; sendo impossível saber se, caso você resolva pular, você vai ou não sobreviver à queda.
(Você não vai)
You have so much blood on your hands you can't even find your fingers anymore.













