Eu vi a morte. Eu olhei em seus olhos. Vi sofrimento, dor, perda, indignação. Algo peculiarmente estranho aconteceu hoje, e não posso deixar de ressaltar o quanto isso me afetou. O quão real é, o quanto eu sou pequenino perante isso. Como é inesperado, desesperador. O dia se despedia, e a noite nos abraçava. O momento exato da meia luz. Eu saía do supermercado, tinha ido comprar pão. Voltava com uma sacola pequena nas mãos. Tranquilo e sem pressa, abri a mala da motocicleta parada frente a porta de uma casa de família. Ouvi vozes. Levantei o olhar enquanto terminava de fechar. A porta estava totalmente aberta. Uma garota loira, não muito mais velha que eu. Ela falava alto num tom de indignação para um jovem senhor que viria a ser seu pai. Havia sangue no nariz dela. Eu parei. Não costumo prestar atenção na vida dos outros, muito menos em suas conversas, mas alguma coisa me prendeu. Chame de curiosidade se preferir. Ela falava alto, então não pude deixar de ouvir o diálogo conturbado, mesmo que não fosse da minha conta. Ela falava que uma garota havia lhe batido por causa de ciúmes do namorado, ou algo do tipo. Dizia que não fazia parte daquilo, mas que por algum motivo a garota a odiava. Seu pai se irritou, saiu de si, disse que iria tirar satisfações com a menina, talvez mulher. A moça tentava o acalmar, mas ele gritava que precisava defender sua menina. Exaltado, não pensou duas vezes, falou que ia dar queixa da garota e entrou em algum outro cômodo. Eu continuava ali observando, parado, inerte. Foi quando a moça ergueu os olhos e me avistou. Eu não sabia o que dizer. Me desculpei por ter ouvido a conversa, e sendo mais presunçoso do que gostaria, cuspi um conselho. Falei pra ela não deixar seu pai fazer nenhuma bobagem que pudesse se arrepender depois. Pedi para que ela deixasse-o ligar para a polícia, mesmo sem saber se isso era o certo a se fazer. A garota loira de olhos claros me agradeceu, demonstrou surpresa, e antes de qualquer outra coisa, seu pai chegou com o telefone na mão. Tentava sem jeito digitar alguma coisa. Ele realmente estava fora de si. Algo imprevisível, inesperado, fez com que eu me aproximasse da casa. Alguma coisa estava fora do lugar. Eu precisava estar ali. Não entendi bem por que, mas precisava. Eu entrei na casa no exato momento que a garota implorava para o seu pai se acalmar. Ele sentou-se no sofá, e a tensão era tanta que nenhum dos dois me percebeu. O homem alto, forte, deitou-se após se sentar. A garota procurava desesperadamente pelo remédio dele. Foi nesse instante, nesse exato momento que ela olhou pro pai. Vi seu rosto desaparecer. A voz saía desajeitada em meio a lágrimas. ‘Pai, olha pra mim, fala comigo!’, ela implorava. Não adiantou. Ele se foi. De uma hora pra outra. Em um piscar de olhos. Seus olhos permaneciam abertos. Quase que com um pequeno salto, agarrei a moça a impedindo de cair no chão. Ela chorava sem parar. Eu a abraçava como se fosse alguém muito próximo a mim. A soltei e a vi chorar sobre o corpo do próprio pai. Minhas mãos gelaram e senti um enorme calafrio tocar minha alma. O olhar daquela moça que eu sequer sabia o nome, o amor, a história que ela carregava no olhar. Tudo parecia estar sendo transferido direto pra mim por meio de alguma conexão bluetooth sobrenatural. O peso do acontecimento, o sentimento da moça que eu tentava abraçar como podia. De alguma forma eu sabia que ela necessitava daquele abraço. Eu sabia. Eu tinha certeza. Eu já havia esquecido o pão. Esqueci que tinha que voltar pra casa. Isso é a morte. É emergir da realidade. Mais tarde, já bastante escuro, familiares já haviam chegado, o corpo já tinha sido levado. A moça continuava chorando, porém com menos intensidade. Eu estava sentado do lado dela com o braço envolto. Ninguém mais estava por perto. Parecia que éramos amigos de infância. Por um breve instante me questionei da falta de amigos, que àquela altura já deveriam saber do ocorrido, e estar fazendo companhia a ela ao invés de mim. Soube que ela não tinha mãe nem irmãos. Me despedi, e saí sem sequer saber seu nome, ou ela o meu. Não sabia o que fazer, o que sentir, o que pensar. Cheguei em casa, liguei o computador e procurei algo no facebook. Não sabia bem o quê, mas encontrei. Descobri que o senhor trabalhava em uma escola. Vi alunos lamentando sua morte, e algo me veio à mente. Tantas mensagens. Ele parecia ser amado. Mas será que sabia disso? Meu coração apertou ao notar que ele jamais leria aquilo. Aquela verdade, gratidão, carinho que tanta gente sentia ou sente por ele. Se a morte viesse com aviso prévio, poderíamos tratar de nos despedirmos, dizer o quanto as pessoas são importantes, realmente mostrá-las seu devido valor. E não importa o quanto você leia aquelas mensagens prontas que te mandam valorizar quem ama antes que o perca. Ninguém sequer quer pensar na mera possibilidade de perder alguém que ama. E mesmo que isso acontecesse, e todo esse carinho, todo esse amor que você sente pelo outro pudesse ser demonstrado antes de sua partida, ainda nos restaria o sentimento de que poderíamos ter dado mais atenção, amado muito mais. Não sei se a verei novamente, não sei o por que de tudo que aconteceu. É isso que a morte nos deixa. Um silêncio, um vazio, uma porção de incertezas. E não importa o quanto eu tente, eu não paro de pensar naquela garota. Por mais que eu queira, não sei se consigo revê-la, olhar pra ela e imaginar sua dor, sua vida daqui pra frente. Dói em mim, capitão. Sei que não devo, mas às vezes acho que carrego as dores do mundo nas costas. Mas aquela garota, esse ocorrido, não foi por acaso. Não me livrarei da dor alheia fácil assim. Talvez eu faça como sempre. Talvez eu a tome pra mim e faça dela algo de útil pra entregar para alguém. Nem que seja para a pobre garota, que hoje de pobre só tem a dor.