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Plantei Palavras
Hoje semeei palavras com caneta em um caderno. Cuidei para que fossem palavras boas. Escolhi as que me deixam com maior propensão à felicidade.
Gosto delas. Gosto de olhá-las no papel, em estado de sementes, princípios de possibilidades.
Pode ser que permaneçam eternamente em estado de latência. Pode ser que acabem, talvez por coesão, se reunindo e aí sejam promovidas a elementos de frases. Exerceriam então suas funções de substantivos, adjetivos, verbos ou outras quaisquer, relacionando-se.
Talvez eu não devesse considerar que formar frases fosse uma ascensão para as palavras, pois, pertencentes a frases, elas passariam por meus filtros.
Talvez eu devesse reconhecer que sozinhas elas são puras.
Eu quero
Quero as coisas tolas
e as piadas infâmes
a resposta que não magoa ninguém
Quero ouvir o velhinho sentado ali na praça
Quero palavras bobas
em um billhete piegas de amor
ou uma flor
que eu possa colocar no meio de um livro que gosto
e que faça sentir-me especial
quando encontrá-la muitos anos depois
Quero saber o nome completo dos meus bisavós e se foram felizes
Quero o gole de café
que o porteiro do prédio me oferece gentilmente pela manhã
todos os dias
Quero escrever a mão um cartão de aniversário
Quero catar as conchinhas
que ficaram perdidas na areia depois da ressaca
e bater papo com o vendedor de brincos e colares na praia
Quero deitar na grama no lusco-fusco e capturar a primeira estrela que surgir
Quero estar nos sebos,
nas feirinhas de antiguidades
nos museus, nas ruínas
Quero que um desconhecido me deseje bom dia
Quero caminhar na margem do rio
quero conhecer as bordas das coisas
Olhar uma lâmina no microscópio e
ver o céu com uma luneta
Quero inventar histórias para crianças
Quero saber para onde vão
as preces não atendidas
pois sei,
que nenhuma delas é em vão
Na Rua
A gente podia brincar na Rua
mesmo depois do entardecer anunciado por passarinhos
Era lugar de todos
idades misturadas
meninos e meninas
As regras do jogo eram respeitadas
Na Rua
A escuridão acrescentava dramaticidade e
a luz do poste era fraca
as aleluias e as crianças orbitavam em torno dela
Na Rua
Riscos com pedras ou cacos de telhas
marcavam campos adversários
brincávamos de queimada
Na Rua
Um vez, a bola veio com toda força
o pescoço doeu ao segurar o impacto
o rosto ardeu
as lágrimas ficaram prontinhas para escorrer
Segurei
Ser forte era uma lei
Na Rua
Cadência
O barulhinho da chuva tamborilava no vidro da janela
Eu tentava descobrir se havia um ritmo, um compasso
Na verdade não, isso não acontecia
mas de alguma forma havia cadência
Os estalinhos faziam melodia
E avisavam meu coração que há recomeços
Não me levantei
prolonguei o momento até ele terminar em si mesmo
A primavera chegaria em breve
Eu soube ontem, quando fui ao campo lá fora
margaridinhas de mato me avisaram que ela estava próxima
mas os galhos desfolhados das árvores recomendavam paciência
Eu vou esperar, mas por enquanto
guardarei a imagem das margaridinhas
Elas vão me lembrar que a primavera está chegando.