A tarde do sexto dia do Fantasporto visitou um filme italiano muito especial: Handy de Vincenzo Cosetino, antecedido por uma curta-metragem de Francisco Bautista Reyes, Mi Vanidad. Duas antestreias europeias diretamente do Rivoli, no Porto.
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A tarde do sexto dia do Fantasporto visitou um filme italiano muito especial: Handy de Vincenzo Cosetino, antecedido por uma curta-metragem de Francisco Bautista Reyes, Mi Vanidad. Duas antestreias europeias diretamente do Rivoli, no Porto.
Gouçalo Moura, diretor de conteúdos: “podemos correr mais riscos” no 24Kitchen
Desde a génese do canal até ao momento em que tem Filipa Vacondeus na grelha: Gonçalo Moura, o diretor de conteúdos do 24Kitchen, esteve sempre presente na cozedura deste canal 100% dedicado a conteúdos culinários. OEspalha-Factos aproveitou a apresentação de dois novos formatos para falar com Gonçalo Moura sobre o rumo do canal, o presente e o futuro, assim como foi o surgir da nova aposta forte da grelha: A Boleia da Filipa.
Espalha-Factos: A aposta do 24Kitchen vai continuar a ser em português e com produtoras portuguesas?
Gonçalo Moura: O 24Kitchen desde o início que assenta muito no regionalismo, ou seja, no original e na produção local. Basicamente nós temos três pilares em termos de conteúdos: um era a produção própria, original e local; a produção original mas internacional porque o 24Kitchen é uma marca que existe em vários países e o que fazemos é co-produzir, digamos, várias séries que depois serviam para todos os países com talentos obviamente viáveis e escolhidos por todos os países em conjunto.
O terceiro pilar é a compra de produtos a terceiros. A compra mais de enlatados, se quisermos. A ideia é que com o aumento da produção anual – ano a ano vamos tendo cada vez mais catálogo de produção original – perca a importância de comprar a terceiros.
EF: É rentável?
GM: Claro que é rentável.
«a vantagem que temos ao sermos um canal de cabo é que permite, e nós apostamos muito nisso, inovarmos no ponto de vista dos formatos»
EF: As audiências assim o dizem?
GM: Nós lançamos [o canal] no final de 2011; [depois] tivemos uma redistribuição no verão de 2013. Nós estivemos durante muito tempo fechados, digamos assim, num pacote do MEO. A partir do momento que entramos na ZON, os números dispararam em termos de share de audiência. E depois do ponto de vista comercial, que é outra parte importante do canal, o interesse tem sido cada vez maior também à medida que o canal aumenta a distribuição, aumenta o share. E, portanto, torna-se num canal mais relevante no território.
EF: Este programa em particular partiu de uma ideia da Filipa Vacondeus. Aceitou logo à partida a ideia?
GM: Era inevitável. A Filipa Vacondeus bate-te à porta e diz: eu quero fazer um programa contigo [risos]. E tu, dizes o quê? “Ah, não”. Ela ligou para lá [escritórios do canal] através da agente dela na altura, e disse: “olhe, eu quero ter uma reunião com vocês porque eu sou fã do canal e tenho uma proposta para vos fazer; e estou há muito tempo parada e quero fazer coisas”. Portanto, chegou lá e disse: “o que eu gostava mesmo era de fazer um programa sobre a essência da cozinha portuguesa para de certa forma passar o meu legado”, e ela estava há muito tempo sem fazer nada em televisão… E, pronto, a partir daí foi formatar e arrancar.
EF: E porquê juntar a Filipa mais nova?
GM: A vantagem que temos ao sermos um canal de cabo é que permite, e nós apostamos muito nisso, inovarmos no ponto de vista dos formatos. Nós não temos as restrições e exigências que têm, ou podem ter, um canal em sinal aberto e, portanto, podemos correr mais riscos. E isso é muito bom. Então nesta situação em concreto, nós, com a provocação que a Filipa Vacondeusnos fez, dissemos: “agora vamos arranjar aqui alguma coisa que seja diferente, e que nos permita com esta ideia montar um formato fresco, original”. E depois também porque nós presamos muito e tentamos criar uma rede de talentos. O vínculo com os talentos é uma espécie de compromisso que nós temos com eles e eles têm connosco.
Portanto, também é verdade que a partir do momento em que temos talentos nossos lhes queremos dar oportunidade e visibilidade para poderem fazer coisas diferentes. Achamos que dada a provocação do legado, de deixar um legado, tinha toda a lógica juntar duas gerações. Também vou ser sincero: na primeira reunião que a Filipa teve connosco houve um fenómeno espontâneo que aconteceu e que foi o motor da ideia de juntar os dois. Toda a gente no escritório – e a média de idade é relativamente jovem – teve à porta do gabinete para tirar uma foto com ela no fim. Então eu acho que esta relevância que uma mulher de 80 anos tem… uma relevância para todas as idades e sobretudo para uma geração que já nem cresceu com ela, uma vez que no escritório há pessoas de 20 anos…
«para mim há três motores do programa que deram origem a este formato: o legado da essência da cozinha portuguesa, as duas gerações e a questão do food truck»
EF: E esta parte do programa ser itinerante – o que aumentou certamente os custos de produção – como surgiu?
GM: A Filipa propôs-nos na altura… Não tinha que ser, mas quando ela nos diz que gostava de ir à essência da cozinha portuguesa, ou viajávamos pelo país todo – e essa era a ideia original, mas a exigência dela era que tinha dormir em casa – ou a gente simula a itinerância [por zonas mais perto]. O próprio formato de food truck quando é construído é parte elementar do próprio formato do programa. Portanto, para mim há três motores do programa que deram origem a este formato: o legado da essência da cozinha portuguesa, as duas gerações e a questão do food truck. Ou seja, é um desafio para elas de repente terem de cozinhar ali dentro e estarem num sítio diferente.
EF: E este programa conseguiu levar o 24Kitchen ao povo português? Por ser itinerante e por ter a Filipa Vacondeus que tem um público mais abrangente.
GM: Como ainda não estreou, nós ainda não conseguimos ter essa noção real. Agora, das gravações? Sim, tivemos um impacto muito grande no sentido de… há uma parte do programa em que elas vão às compras antes de fazerem as receitas. Nessas situações há muita interação com o público seja no mercado, na loja ou no sítio onde elas vão. E nessas situações, o facto de elas estarem juntas, nomeadamente a Filipa Vacondeus que tem um chamariz muito maior, faz com que as pessoas perguntem o que anda a fazer, o que é isto do 24Kitchen… Portanto, eu parto do princípio que quando estrearmos vamos perceber que deu para espalhar a palavra.
EF: Qual é o objetivo destes novos programas do 24Kitchen?
GM: Por um lado, é afirmar e reforçar que se há algo que para nós é elementar e chave no24Kitchen é ser o único canal com 100% conteúdos dedicados à cozinha em português, feito em Portugal. Nem todos os conteúdos são feitos em Portugal, ok, mas é o único canal 100% conteúdos culinários e que tem esta componente local. Há canais que fazem conteúdos de cozinha, mas não são 100% cozinha; e os canais 100% cozinha que existem no território não são portugueses ou não têm nada em português.
Portanto, nós conseguimos ter essas coisas. Depois é para nós é muito importante também, e talvez isto seja uma ambição muito minha – ou é um objetivo muito pessoal meu, no sentido de ser um canal dentro do portfólio do FOX International Channels – que é demonstrar que é possível produzir de forma diferente e inovadora no cabo, e com isso trazer valor quer ao mercado – porque há um investimento feito em produtoras locais – quer à própria oferta do cabo. Para nós, essas duas vertentes são as mais importantes.
EF: Não tem medo que depois do boom da cozinha na TV, o 24Kitchen deixe de fazer sentido (até a nível comercial)?
GM: Por uma questão de modas? Quando a moda começar a passar?
EF: Sim, exatamente.
GM: Eu estive também na génese do boom dos canais FOX em Portugal, de séries. Hoje em dia não podemos dizer que as séries estão na moda… ou melhor, se estão na moda, estão na moda há 10 anos? Seria um bocado estranho estar na moda há tanto tempo. Eu continuo a achar que as modas vão e vêm, mas quando a moda é muito forte, como foi o caso das séries, e alguém impulsiona essa moda – tal como foi com a FOX com as séries e o 24Kitchen com os conteúdos culinários – cria-se um espaço.
E esse espaço, por muito que a moda passe, fica criado e portanto o espaço vai lá estar sempre e vai ter um público que vai e vém, mas que cria uma certa fidelidade. Nós assistimos a isso na própria evolução dos canais de séries, com as FOX’s, e eu acho que quando passar o boom da culinária vamos continuar a existir. Acho que isso é mais perigoso para canais que têm propostas menos definidas e objetivas. Ou seja, aqueles canais que são tão generalistas que vão atrás das modas. Nós aqui: a proposta é clara, é isto, é só isto, não queremos sair daqui. Agora, dentro disto, queremos fazer coisas de forma diferente e mais bonita.
Seja O Que For O Amor. Sofia Costa Lima: “eu escrevi para ter uma espécie de guia para o futuro”
No seu segundo livro, Sofia Costa Lima decidiu escrever na primeira pessoa com este testemunho lançado a 19 de abril:Seja O Que For O Amor. Um livro pessoal, praticamente biográfico, que nos leva para uma viagem perigosa entre os pensamentos da autora e os acontecimentos da vida real.Seja O Que For O Amor é um retrato íntimo de um período da vida amorosa de uma adolescente. Tal como a autora nos diz em entrevista, este livro é uma “espécie de guia para o futuro“. No presente, Sofia Costa Lima, natural de Trancoso, atualmente a estudar Jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, fala ao Espalha-Factos deste segundo livro, dos seus processos de escrita e, claro, do amor, esse conceito dúbio.
Espalha-Factos: O que não é o amor?
Sofia Costa Lima: Ora, eu suponho que o amor não seja egoísmo, acho eu. Deixa-me cá dizer coisas bonitas… Não queres fazer uma pergunta mais difícil, não? O que não é o amor… O amor não é dúvidas, por isso estás a ver que isto agora não é amor [risos]. Eu nem sei o que é o amor, não sei se percebeste!
EF: Sim, daí a pergunta. Talvez seja mais fácil definir o amor definindo o que não é o amor?
SCL: Talvez, mas por isso é que se chama Seja O Que For O Amor. Seja o que for, pronto, não importa; cada um é que sabe.
EF: Ou seja, nem pela positiva nem pela negativa: tu não consegues descrever o que é o amor?
SCL: Não… tu consegues?
EF: [silêncio]
SCL: Aí é que está. Vejamos. Eu acho que não há ninguém que consiga definir o amor sem que tu venhas a seguir e digas mais três ou quatro coisas completamente diferentes, e mais outra pessoa mais umas diferentes. É completamente impossível.
«estamos sempre a descobrir novas formas de amor, de amar»
EF: Então achas que é um conceito em constante mutação?
SCL: Claro que sim. Estamos sempre a descobrir novas formas de amor, de amar, e acima de tudo estás sempre a descobrir qualquer coisa sobre o amor que ainda não sabias.
EF: E é perigoso escrever sobre o amor?
SCL: É um bocado difícil porque há muita gente que escreve sobre o amor, ou tenta escrever sobre o amor, e acabas por chegar ali a um ponto onde ou te repetes e dizes aquelas coisas que toda a gente diz e aquilo torna-se um bocado chato… e depois não tens aquele critério de: aquele já disse isto, mas eu vou dizer na mesma, não importa. É um bocado complicado porque podes estar sempre a cair naquilo que toda a gente diz, e nos clichés, e nessas coisas todas que dá asneira às vezes.
EF: Às vezes, falar sobre o amor, pode ser um caminho mais rápido para o abismo?
SCL: Também. Dás muito facilmente em doido. Confirmo [risos].
EF: Mas isso acontece no processo de escrita ou quando vais reler o que escreveste?
SCL: Nos dois. Principalmente a reler, porque a reler é que tu percebes bem aquilo que estiveste ali a escrever. A escrever sai tudo naturalmente. Depois quando vais reler é que pensas: eu estava doida… então eu escrevi isto assim? Mas será que toda a gente percebe o que eu quero dizer? E depois ficas completamente à nora, e pensas que isto do amor é uma coisa tramada.
EF: Vamos parar de falar sobre amor, apesar de o título do livro ser Seja O Que For O Amor… no livro tu fazes esta pergunta, e eu quero que me respondas agora: será que a imaginação vem com a escrita ou a escrita é que vem com a imaginação?
SCL: Eu perguntei isso no livro porque não sabia! Eu acho que é uma coisa um bocadinho igual, ou seja: tu estás a escrever e vais imaginando, mas ao estares a imaginar vais tendo sempre ideias para escrever. Acho que é isso. Pelo menos comigo acontece assim.
EF: Ou seja, mistura-se?
SCL: Claro que sim.
«tens ideias quase aos tombos de meia em meia hora, como se fosse um comboio a chegar»
EF: Dizes no livro que há coisas demasiado pessoais que não partilhar, e sendo este um livro um pouco biográfico, então porquê explorares este lado?
SCL: A maior parte do que está aí já tinha sido publicado online e aí logo tinha assegurado a parte privada. Mas claro que há coisas que são demasiado privada. Do género: tu não vais estar num livro a dizer que deste 6079 beijos, que deste 79000 abraços, e que passaste 36 horas a escrever durante uma semana… é demasiado, percebes? Há um limite. Uma coisa podes partilhar e outra já não.
EF: E quando escreves estás a pensar no que interessa aos leitores?
SCL: Mais ou menos. Estou a pensar naquilo que eu, se tivesse a ler isso, ia ler completamente à vontade e não ia pensar “já estás a partilhar demasiado”.
EF: À medida que o livro avança, tu vais definindo o teu ‘eu’. Sendo este um livro biográfico, não é difícil fazer isto? Ou essa introspectividade em ti é mais fácil?
SCL: É fácil e é difícil. Há momentos. Depende. Há momentos em que eu estou a escrever e que penso: isto não posso ser eu, mas há outros em que penso que aquilo sou eu completamente e que nem tinha percebido que era assim. Acho que é um bocadinho dos dois.
EF: É uma reflexão contínua, e diária?
SCL: Diária não, mas sempre que escrevi aí – porque eu agora já não escrevo nada relacionado com o que aí está -, mas sim, normalmente, tem sido sempre.
EF: Fala-me do teu processo de escrita, para além deste livro. Tu quando começas uma obra, estás permanentemente a pensar nela? Ou ela surge em ti durante o dia?
SCL: Olha, hoje é um ótimo dia para falar sobre isso! Porque eu tenho andado a escrever aquilo que poderá ser um possível novo livro e, por acaso, ainda à hora do almoço estava a pensar nisso. Vinha de manhã no metro e não estava a pensar nada no que tinha de escrever, mas depois comecei a ter ideias e fiquei completamente: agora tenho de escrever! Mesmo obcecada. Se estiveres muito, mas muito entusiasmada com aquilo que estás a escrever, então tens ideias quase aos tombos de meia em meia hora, como se fosse um comboio a chegar. É aos tombos mesmo. Pensas “ah, isto é que era fixe, mas que desperdício de tempo, agora tenho de ir fazer não sei o quê”. É completamente assim.
EF: E como é que fazes a triagem dessas ideias todas?
SCL: Ora: telemóvel, papel e caneta – todos os dias vem uma ideia e aponta-se. Às vezes eu esqueço-me e acontece que eu vou a andar no meio de rua e, se não aponto logo, ela foi-se.
EF: Mas não aproveitas todas, diria eu… Há a tal triagem.
SCL: Claro que não. Pronto, aponta-se tudo e depois há aquelas ideias que acabam por ser usadas, há aquelas que são completamente mudadas, e há aquelas que vão para o lixo, basicamente.
EF: E quando é que a escrita começou a ser uma constante, quase uma rotina, na tua vida?
SCL: Começou há cinco anos quando eu iniciei o blog porque… eu no início não dava muita atenção ao blog, até porque nem tinha internet em casa para estar lá sempre. Mas tentava ir escrevendo e pensava “olha, isto era giro para meter no blog”. Comecei a escrever muito mais desde aí. Depois no verão seguinte, em 2010, é que comecei completamente a rebentar e era só escrever, escrever e escrever.
EF: Dizes várias vezes no livro que o objetivo dos livros é significar para além do sentido real, para além do óbvio. Qual é que o significação ‘para além’ de Seja O Que For O Amor?
SCL: Eu não sei se as pessoas vão perceber porque é difícil, mas além do amor que está ali – pelo menos eu espero que se note isso – há muita amizade e o importante ali é mesmo perceber… as pessoas perceberem mesmo que quando gostam mesmo de alguém ou de algo têm mesmo de lutar por ela. Mas também [perceberem] quando é a altura em que é para deixar ir, e deixar ir. Há coisas que só cada um percebe.
EF: Escreveste-o também para ser um exemplo para outros casos de quem fosse ler? Algumas pessoas vão certamente rever-se no livro… também escreveste com esse intuito?
SCL: Eu escrevi para ter uma espécie de guia para o futuro. Pensei: eu já cometi estes erros todos, e agora não posso voltar a cometer. E depois, claro, já houve muita gente a identificar-se… eu não esperava, aliás, eu pensava que a maior parte das pessoas iam pegar no livro e não iam perceber semelhanças porque é sempre aquela coisa: quando sentimos alguma coisa pensamos que somos os únicos, e somos assim um bocadinho egoístas… “sou só eu que sinto, ninguém percebe nada”. E, na verdade, não é bem assim.
EF: Já falaste dos erros que estão no livro, e de certa forma dizes que os textos que aqui estão saem quando pensas demasiado. Escreves para clarificar as tuas ideias?
SCL: Sim porque, pelo menos para mim, eu consigo perceber melhor o que vai cá dentro quando meto em papel ou word, ou qualquer coisa do género. Acho muito mais fácil. Assim tento encontrar as palavras certas e percebo melhor o que é que se está a passar, o que tenho de fazer para mudar.
«desconstruir para construir»
EF: É um processo de desconstrução?
SCL: Também. Desconstruir para construir.
EF: Para construir significado?
SCL: Talvez, talvez.
EF: Os capítulos são ordenados por músicas. A música é o teu catalisador de escrita? Ouves música enquanto escreves?
SCL: Sempre, sempre, sempre! Eu detesto, e detesto mesmo, estar a escrever sem barulho de fundo. Pode ser música, pode ser televisão, mas não consigo mesmo escrever sem barulho de fundo. Começo a pensar que as palavras já são demasiado silenciosas porque não estão a ser ditas, estão a ser escritas, e se não tiver alguma coisa ali a dar som, eu não consigo escrever tão bem. Não me concentro tão facilmente.
EF: Como se fosse um vazio que precisa de ser preenchido? Para teres inspiração?
SCL: Pode ser isso, acho que sim. A música também ajuda muito na inspiração, é verdade. Estás a ouvir e podes lembrar-te de algo que soa bem em relação à música, qualquer coisa da música que tem a ver contigo… acho que sim.
«a página em branco assusta imenso»
EF: E a página em branco assusta-te?
SCL: A página em branco assusta imenso! Eu, no ano passado, estive uma semana e tal sem escrever nada nem respostas para testes, e foi horrível porque ia ter teste de Filosofia e não conseguia escrever nada. Então comecei a entrar completamente em pânico, a pensar… “oh meu Deus, o que é que eu faço agora?” E não sabia mesmo como é que eu ia sair dali.
EF: Só passa mesmo com o tempo?
SCL: Também, e a insistir mesmo. É todos os dias olhar para a página, e pensar: eu tenho de meter ali qualquer coisa. Ficas completamente obcecado com a página. Nem que seja só uma palavra, pode ser que dê alguma coisa.
EF: O livro saiu recentemente para as livrarias. Quais foram as primeiras reações de quem já o leu?
SCL: Há muita gente que já o leu todo. Têm-me dito que gostam imenso, que se identificam com algumas coisas, já houve inclusive uma amiga minha que me disse que eu tinha feito demasiado, e que não percebia como eu tinha feito isto sem ir abaixo. Não sei. [risos] E inclusive ela diz que o livro está mesmo completamente brutal, e que toda a gente devia ler porque ficou com vontade de fazer alguma coisa em relação a ela. Não em relação a mim, ou em relação ao livro, mas em relação a ela.
EF: No livro tens duas frases do Pedro Chagas Freitas especialmente para ti. Presumo que ele seja uma referência para ti. Que outras referências literárias te influenciam?
SCL: Eu, sinceramente, quando estou a escrever mais tento ler menos porque por muito que não queira há sempre aquela tendência de ler e copiar, mais ou menos, aquilo que leio. Então, eu tento ler menos quando ando a escrever mais porque é mesmo para não ter a tendência de copiar não digo, mas inspirar-me neles. Eu gosto muito do Miguel Esteves Cardoso. Ando agora a ler, quase a acabar. É dos meus preferidos, pelo menos dos portugueses. É ele que me vem sempre à cabeça quando me perguntam isso.
À Boleia da Filipa. Hoje o 24Kitchen junta gerações de ingredientes
Hoje, Filipa Vacondeus faz 81 anos. No mesmo dia, celebra a estreia do seu novo programa de culinária, no 24Kitchen, ao lado de Filipa Gomes, 50 anos mais nova. À Boleia da Filipa foi ideia da veterana que, num gesto empreendedor, fez a proposta ao canal, para surpresa da equipa que comanda os destinos da novata estação de televisão que dedica 100% da sua programação à gastronomia.
“Para mim foi ótimo; foi um desafio que eu lancei a mim própria”, confessa Filipa Vacondeus ao Espalha-Factos na apresentação do programa à imprensa. Ao nosso lado está o food truck onde preparou os petiscos que serviu aos portugueses que mataram saudades da cozinheira nas localidades que visitaram: “é um programa diferente, cheio de vida, cheio de movimento”, refere.
Apesar de esta ser uma estreia nos canais Cabo, e com um formato mais moderno, Vacondeusressalva que o programa “vai seguir uma linha que eu tenho seguido ao longo da vida: ensinar a nossa cozinha tradicional portuguesa”. Para cumprir essa tarefa com sucesso, Filipa Vacondeustem a seu lado Filipa Gomes, uma escolha do canal com que a veterana logo simpatizou: “achei-a muito competente, muito capaz, por isso disse logo que sim (…) claro que estava um bocadinho desconfiada porque há 50 anos de diferença”, mas esse pormenor dissipou-se enquanto dupla, referem as duas.
“Com uma vontade de viver gigante” – é assim que a novata descreve a chefe de cozinha que já soma 30 anos de carreira. Ao Espalha-Factos, a publicitária tornada chefe de cozinha afirmou que esta experiência foi “super interessante”, e que nunca tinha imaginado vir a fazer dupla com uma das figuras mais importantes da televisão portuguesa.
A melhor parte, atira Filipa Gomes, foi “o feedback direto e real do que as pessoas achavam”quando no fim provavam os pratos e diziam de sua justiça. Aliás, esta interação com o público “foi muito humana, muito quentinha”, e até deu para jogar com o inesperado quando “de repente alguém vinha interagir connosco”, conta.
O primeiro de treze episódios de À Boleia da Filipa estreia hoje, às 21h, no 24Kitchen.
Catarina Pereira: à terceira é de vez? "Nunca se diz nunca, mas não me está a apetecer [voltar]"
Minutos após ter ficado pela segunda vez no segundo lugar do Festival da Canção, Catarina Pereira disse ao Espalha-Factos que "nunca se diz nunca, mas não me está a apetecer [voltar]". A cantora de Mea Culpa tem dúvidas se é à terceira participação que será a representante de Portugal na Eurovisão, e referiu estar triste quanto ao resultado da final.
"Não sei se amanhã vou achar o mesmo, mas claro que estou triste, estou muito triste" - é assim que Catarina Pereira define o seu estado de espírito, momentos depois de ter ficado a saber que a vencedora do Festival da Canção 2014 era a cantora Suzy com o tema Quero Ser Tua.
Depois de em 2010 ter posto o Campo Pequeno a assobiar perante a atuação vencedora de Filipa Azevedo, com Há Dias Assim, Catarina Pereira volta a fazer o público assobiar e dispersar após o anúncio de que a medalha de prata era sua novamente: "acho que pertenço ao segundo lugar [risos]", afirmou ao Espalha-Factos.
Apesar de estar visivelmente entristecida com o resultado, a intérprete de Mea Culpa diz ter ficado contente por ser das mais votadas, mas o que a deixa mais contente é a equipa - "fico contente porque acho que a nossa equipa estava a dar tudo por tudo (...) foi uma boa performance".
À terceira é de vez?
A cantora sente-se desencorajada a regressar ao Festival da Canção, mas é da opinião que "um dia temos que levar este formato (...) de dança, e uma canção dance acho que devíamos levar um dia". "O Festival [da Canção] para mim é isto: dance!", refere. Afirma ainda que a canção de Emanuel é dançável, mas que prefere algo "mais com a guitarra portuguesa", e também com uma abordagem de palco diferente, "um bocadinho mais profissional".
Catarina Pereira confessou ao Espalha-Factos que vai continuar os estudos em Londres, nunca afastando o regresso a Portugal, consoante as portas que se abrirem no futuro.
Originalmente publicado em www.espalhafactos.com a 16 de março de 2014.
Eurovisão 2014. Suzy e Emanuel anunciam que "Quero Ser Tua" vai em versão bilingue
"Temos de prepará-la para a Eurovisão e dentro daquilo que a RTP nos permitir vamos obviamente adaptá-la ao mercado internacional", afirmou o autor e compositor de Quero Ser Tua, Emanuel, ao Espalha-Factos. Ao lado da intérprete vencedora que escolheu para o tema, Emanuel justificou esta escolha: "quem vai votar, quem vai dizer se a nossa canção pode subir ou não pode subir são os europeus".
"Como vocês sabem, os países da Europa de Leste fazem a versão em inglês. Portanto, no que for possível, mantendo obviamente parte da nossa língua materna, (...) vamos fazer uma adaptação agora para a Europa", afirmou Emanuel adiantando que Quero Ser Tua terá uma versão bilingue.
Contente com o sucesso da canção no Festival da Canção e junto do público português, o cantor de O Ritmo do Amor anunciou que a música será lançada segunda-feira nas plataformas digitais: "a SONY já comprou os direitos desta canção independentemente de saber o resultado do Festival [da Canção] o que quer dizer que acredita muito na canção. Acreditámos que para além do Festival, vai ser um sucesso de verão."
"Deixei a minha vida toda em stand by no Dubai só para vir e participar no Festival da Canção"
"É um sonho de criança tornado realidade (...) Deixei a minha vida toda em stand by no Dubai só para vir e participar no Festival da Canção", foram estas as primeiras palavras de Suzy aos jornalistas na noite em que ficou definido que iria representar Portugal na Eurovisão 2014, em Copenhaga, na Dinarmarca, no início de maio deste ano.
A decisão de deixar tudo para trás para participar no certame foi quase de ultimato pessoal: "ou é agora ou é nunca. Já tenho 34 anos e já estava a pensar reformar-me, mas aqui o meu Emanuel apostou em mim, acreditou em mim, e convidou-me para ser a sua intérprete, e convenceu-me".
Ambos concordaram que este foi um Festival difícil, "com grandes canções e com grandes intérpretes", pelo que estão muito satisfeitos com a "magnífica vitória protagonizada" por Suzy, adjetiva Emanuel.
Originalmente publicado em www.espalhafactos.com a 16 de março de 2014.
2ª Mostra Judaica. "Trazer à memória para combater o esquecimento"
"Queremos trazer [a cultura judaica] à memória para combater o esquecimento", afirmou ontem Miguel Honrado, Presidente da EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), na conferência de imprensa de apresentação da 2ª Mostra de Cinema e Cultura Judaica, em resposta àqueles que falam da cultura judaica em Portugal como um "não-tema". Elena Piatok, diretora executiva do evento, é da opinião de que "há curiosidade da comunidade portuguesa na cultura judaica" e que a existência desta 2ª Mostra é o reflexo disso mesmo.
"A cultura judaica é uma das matrizes da cultura europeia e da cultura portuguesa", afirmou Elena Piatok, ao explicar o porquê de fazer esta Mostra de Cinema e Cultura em Portugal, acrescentando que "faltava um festival com estas caraterísticas". A diretora-executiva do evento referiu que tentou fazer uma escolha a pensar naquilo que o público português queria e ia gostar de ver, desde os clássicos até aos contemporâneos. Piatok lamentou, porém, não existirem documentários sobre os judeus em Portugal.
Esta edição anda à volta da procura da identidade - quem somos? -, do anti-semitismo, do mito dos judeus ricos, de mulheres realizadoras e, no essencial, à volta de histórias sobre judeus. A maioria dos filmes presentes nesta mostra só vão poder ser visualizados lá, uma vez que não entram em circuito comercial. "Nós mostramos o que nunca foi mostrado cá", afirmou Elena Piatok. O objetivo é não só mostrar cinema, como fomentar a cultura através de outras iniciativas com editoras e sessões especiais já definidas na programação.
Após os 1400 espectadores da 1ª edição, Elena Piatok está confiante de que "este festival vá entrar no mainstream". "Espero duplicar o número de espectadores", contou a diretora executiva do evento ao Espalha-Factos.
Elena Piatok revelou ainda que está a ser preparado um concerto, iniciativas com escolas para a educação do Holocausto e que a programação de 2015 já está definida.
Toda a programação do festival, que decorre de 27 a 30 de março, no Cinema São Jorge, pode ser consultada aqui.
Originalmente publicado em www.espalhafactos.com
Entrevista EF. Sofia Portugal: 'Cabaret Alemão' "é a nossa tomada de posição atual"
Sofia Portugal está em cena com Cabaret Alemão, uma peça de Luísa Costa Gomes com a encenação de António Pires. O Espalha-Factos esteve à conversa com a atriz para perceber o conceito por detrás deste cabaret e para saber como começou. Podes ler tudo aqui:
Espalha-Factos: Como é que surgiu a ideia inicial de fazer este Cabaret Alemão?
Sofia Portugal: A ideia inicial foi da Maria [Maria Rueff, atriz], penso eu, e depois falou com o Pires [António Pires, encenador] e depois falou-me a mim. Eu fiquei muito entusiasmada. Nós fomos colegas de conservatório. Somos colegas há vinte e tal anos. Portanto, somos amigas próximas, somos comadres [risos]. Ela falou-me nisso, eu fiquei muito entusiasmada, depois no verão fechamo-nos lá em casa dela: fizemos uma investigação grande sobre as músicas, tivemos uma aula de música pelo professor Mário Vieira de Carvalho, que também nos fez uma espécie de visita guiada sobre todo o início do cabaret. Fartamo-nos de ouvir coisas e ver coisas, e depois fizemos um levantamento das músicas que nós gostaríamos de cantar e um levantamento dos temas que nós gostávamos de falar. E depois então foi dada à Luísa Costa Gomes esses temas para ela escrever sobre. Na verdade, foi procurar uma plataforma onde nós nos podemos expressar e dizer as coisas que queremos dizer. É o que isto é. É a nossa tomada de posição atual.
EF: E a Sofia já tinha feito algum teatro musical?
SP: Teatro musical, sim. Eu estreei-me em teatro a fazer Brecht, já fiz outros musicais, é difícil de enumerar todos. Mas sim, já tinha feito. Não tanto teatro comercial, talvez mais no teatro político. Fiz com o José Peixoto, com o João Lourenço, também fiz com outras produções fora no Trindade [Teatro da Trindade].
«é uma conjutura geral de escravidão, é isso que sinto»
EF: Como é que foi conciliar a música e o texto para esta peça nos ensaios?
SP: Para mim é muito divertido porque eu canto desde miúda. Eu tive uns anos no conservatório de canto, mas não acabei o curso. Depois durante algum tempo, mesmo quando comecei a fazer teatro, quando havia pouco trabalho, eu cantei em bares. Portanto, a música para mim sempre foi um trabalho bastante paralelo. Vejo sempre a música como um lado onde eu me divirto muito. Nem vejo muito como trabalho. É o meu hobbie. O teatro normalmente é onde tenho um trabalho mais continuado. Portanto, vejo sempre a música como um sítio onde eu me divirto-me.
EF: As cenas exibidas à imprensa mostram uma certa atualidade. Como é que avalia este cabaret político português atual?
SP: É uma tomada de posição artística por cada um de nós e pelo coletivo. É uma crítica, obviamente. Eu acho que é um manifesto. Acho que este é um espectáculo em forma de manifesto. É o que nós queremos dizer sobre o estado das coisas. Não só da arte como da forma como vivemos. Nós sentimos que vivemos numa falta de liberdade encapuçada, escondida. Não temos espaço para fazer o que queremos, não temos espaço para fazer o que gostamos. Um espaço de livre expressão. Está muito condicionada. Somos esgotados monetariamente e, por isso, temos de andar a correr a fazer coisas que nem é muito a nossa praia mas temos de as fazer para poder pagar as contas.
EF: Consegue explicar essa parte da falta de liberdade? É pela conjuntura?
SP: Porquê é que estamos tão condicionados? Sim, eu acho que sim. Eu acho que estamos todos sufocados. Eu sou um bocadinho extremista. Eu sinto-nos, nós portugueses, um bocadinho como escravos a trabalhar para dar metade ao Estado, a ter que pagar imposto sobre quase tudo, quase sobre o ar que respirámos. Depois não nos podemos expressar muito porque há muitos desempregados a quererem ficar com o teu trabalho. É uma conjutura geral de escravidão, é isso que sinto. E acho que os artistas têm muito pouco espaço.
©Leonardo Negrão DN
EF: Como é que foi possível montar este Cabaret Alemão nesta conjuntura? Com apoios e vontade?
SP: Nasceu da vontade própria. Eu e a Maria estávamos dispostas a fazê-lo fosse em que circunstância fosse. Aliás, inicialmente pensamos fazer a custo zero e depois logo se via. Mas depois o Pires, quando se juntou ao projeto, juntou também o Teatro do Bairro e montou este espectáculo numa programação. Isso possibilitou ter algum fundo para montá-lo.
«a ideia é criar um espaço bafón, clandestino, onde se podem dizer as coisas proibidas»
EF: E esta peça é para que público? Para toda a gente? Os jovens?
SP: É para toda a gente. Acho que toda a gente se vai divertir. Nós cantamos músicas dos anos 30. São músicas intemporais. Eu acho que é mesmo para toda a gente. Claro que estamos a fazer isto à segunda e à terça-feira e isto possibilita, por exemplo, aos nossos colegas para vir ao teatro porque são dias em que não têm espectáculo. A ideia é criar um espaço bafón, clandestino, onde se podem dizer as coisas proibidas. Mas eu acho que este espectáculo não tem cor. É uma crítica generalizada. Não é de esquerda nem de direita. Nem de coisa nenhuma. É um grito de liberdade que está muito acima da política. É uma crítica absolutamente generalizada e a nós próprios, em como nós deixamos ficar em situações em que não nos expressamos livremente.
EF: O que há de alemão neste cabaret? Há a parte histórica, e talvez uma certa rigidez?
SP: Havia essa ideia inicial, sim. Dentro do levantamento dos tópicos e dos alicerces do espectáculo, nós falamos da disciplina alemã, do rigor, das coisas boas que os alemães têm. A música: os alemães têm compositores extraordinários. Os alemães têm grandes filósofos. Portanto, nesse sentido, tem caraterísticas alemãs.
EF: E não é para picar também a atualidade?
SP: Claro que sim. Esse é o primeiro objetivo.
«nós atores só somos felizes a fazer teatro»
EF: Porquê fazer teatro numa altura em que há muito teatro, mas em que este é mal pago? Porquê esta vontade?
SP: Porque nós, atores, encenadores, criativos – digo isto porque eu também enceno, faço direção de atores em televisão, faço couching - nós atores só somos felizes a fazer teatro. Como um pintor só é feliz a pintar uma tela, como um músico só é feliz a tocar. Nós precisamos de o fazer. Não é pelo dinheiro, é mesmo pelo nosso espaço de expressão. Mesmo para nos mantermos vivos, ativos, criativos e inteiros. Porque se não deixámos de existir como singularidade.
EF: Que tipo de humor é que vamos encontrar em Cabaret Alemão? Humor físico, é do texto… qual é mais trabalhado?
SP: Eu acho que o texto traz em si já uma grande parte da comicidade do espectáculo. Depois temos a Maria que eu acho que é a rainha da comédia. A senhora comédia. A Maria só por si acho que já é muito isso. É uma comédia ácida. Mas acho que está em todo o lado. Começa pelo texto porque as partes mais poéticas, diria, algumas partes são cantadas. Se bem que também há músicas que são de uma acidez e de uma comicidade muito grande. Tanto na música como no texto, há comédia. E na Maria, obviamente [risos].
EF: Aprendeu um bocadinho com ela esta parte cómica ou já tinha trabalhado nisso antes?
SP: Eu tive a sorte de integrar um elenco de um programa que a Maria fez há muitos anos que se chamava o Programa da Maria [SIC Gold]. Portanto, nós já tínhamos tido a oportunidade de nos divertirmos as duas em comédia. Eu, em teatro, a comédia que o meu animal conhece é mais a alta comédia, a de situação que tem graça. Diria que essa até é mais a minha praia. Aí está assente a dramaturgia deste espectáculo: a Maria é mais a cómica, e eu serei mais a atriz séria que tem graça pela situação. Desde o início que assumimos essa diferença como uma mais-valia. E não tentar uniformizar. Tentar tirar partido da diferença porque acho que é mais interessante. Eu penso que isso está aqui no espectáculo.
EF: Qual é a exigência deste espectáculo? Já falou da música, da comédia… é um texto bastante exigente?
SP: É, e é de uma golfada, é de correr. Estão sempre a acontecer coisas. A exigência é a todos os níveis. É vocal, é físico, é de rapidez, de raciocínio mental porque a comédia tem isso: é muito rápida. Exige uma lucidez e uma atenção que eu não estou habituada. Estou mais habituada a uns timings mais poéticos. Para mim essa é a grande exigência: a rapidez.
EF: O Teatro do Bairro, e pegando na sua noção de clandestinidade, é o espaço ideal para fazer este espectáculo?
SP: Eu acho que sim. É o espaço ideal. A ideia é tomar isto num espaço de reunião, é isso que estamos aqui a fazer, supostamente. Isso quando se vê o espectáculo todo percebe-se. E depois o cabaret é outra zona. É aquilo que estamos a fazer para disfarçar.
«sei disto que é ser hamster, de andar a correr para conseguir fazer tudo»
EF: Vimos uma cena do seu monólogo em que fala sobre o papel da mulher. Qual é a sua opinião sobre este tema?
SP: É um dos temas que me são muitos caros. Foi dos temas que quando falamos, eu disse logo que queria falar. Sobre o que é isto da liberdade da mulher porque efetivamente não era isto que nós queríamos. Eu lembro-me da minha mãe andar nas manifestações das mulheres, nos movimentos feministas. Eu lembro-me de ir com a minha mãe com o carro defender a Pintassilgo à Presidência. Eu tenho isto na minha génese. O meu pai é um Capitão de Abril, portanto, eu tenho isto muito na minha génese, no meu código genético.
Depois, de repente, eu tenho três filhos e sei disto que é ser hamster, de andar a correr para conseguir fazer tudo. Na verdade, as mulheres podem fazer tudo. Mas para conseguirem os seus lugares têm de fazer muito. Às vezes, para conseguirem ter um posto – é horrível dizer isto a um homem mas é isto que eu sinto… aquilo que eu estou a dizer [enquanto personagem] é exatamente aquilo que eu penso. Temos de responder à voz do chefe, à voz do patrão, temos de provar todos os dias que temos de estar ali a um homem que está na mesma posição do que nós, temos de fazer o trabalho por dois ou três. É exatamente isso que eu penso por muito escandaloso que possa dizer.
EF: É isso o que a personagem pensa?
SP: Sim, absolutamente. Eu acho que a igualdade ainda é só para a cota, só para inglês ver. Acho mesmo. Porque na hora da verdade, dos despedimentos – como agora – as primeiras a saltar são mulheres. As primeiras a saltar quando há trabalhadores a mais são as mulheres. Porque efetivamente o poder ainda é uma cadeira masculina. E o resto é conversa. O resto é treta.
EF: Então, o que se passa nestas tábuas [palco do Teatro do Bairro] é biográfico?
SP: Nesse sentido, é. Sim. Absolutamente.
EF: E o que pode ser feito para mudar esse paradigma?
SP: Eu acho que faz parte da educação na sua génese. De como nós educámos os nossos filhos. Preocupa-me. Eu tenho dois filhos e uma filha. Eu faço a minha parte. Eu quero muito educá-los na igualdade. Na igualdade de direito e de obrigações. Sobretudo nas obrigações isto está muito difícil. Temos os direitos, mas as obrigações não são distribuídas. Continuam a estar sobre a figura feminina. Então a mulher tem de trabalhar, mas também tem a obrigação de fazer tudo em casa. De repente adquirimos os direitos mas não distribuímos as obrigações. Acho que essa parte é que tem de mudar.
Originalmente publicado em www.espalhafactos.com