NÃO SOU O MEU CORPO, não sou o meu nome, não sou esta idade, não sou o que tenho, não sou estas palavras, não sou o que dizem que sou, não sou o que penso que sou.
Não sou o meu corpo porque existo fora da minha pele, para além dela, transcendo-a delicadamente ou à bruta. Não sou o meu nome porque não sou "apenas" o meu nome. Não sou esta idade porque esta idade só existe agora - eu fui e serei. Não sou estas palavras porque eu não sou "apenas" palavras. Não sou o que dizem que sou porque aquilo que sou não se diz. Não sou o que penso que sou porque penso vagamente que sou mais do que consigo pensar. Essa ideia é demasiado vaga e eu sou concreto no mundo concreto, sou real no mundo real.
Sou um caminho.
Sou alguma coisa que vem de antes, que me foi entregue pelo meu pai. Também ele a recebeu. Foi-me entregue em palavras, no tom de voz que ainda sou capaz de ouvir, nos erros ortográficos que o meu pai deixava em pequenos papéis ou em agendas - amo esses erros ortográficos -, no silêncio, no olhar, na presença, no toque, no cheiro, no cuidado, na memória, no exemplo, em tudo o que o meu pai foi para mim - uma força que não fui capaz de reconhecer completamente no seu tempo, mas que se impregnava em tudo o que eu era e aprendia a ser.
Sou alguma coisa que avança.
Sou alguma coisa que continuará depois de mim, que entrego aos meus filhos. Quero muito que lhes traga valor, que lhes enobreça a experiência de estarem vivos. Tento entregar-lha em palavras - estas palavras escritas, a desejarem ser claras, como esperança, como uma manhã de claridade -, no meu amor - o melhor de mim - e em todas as minhas imperfeições - eu.
Sou este caminho.
Já vivi muito. Quando viajo na minha memória, tenho lugares incríveis onde ir. As ruas da minha terra são infinitas, caminho nelas para sempre. Vou da loja do senhor Heliodoro à carpintaria do meu pai, atravesso a terra inteira, digo bom dia a pessoas que já morreram. Entro na Sociedade a qualquer hora e é sempre domingo à tarde - o relato do futebol no rádio -, ou é sempre sexta à noite - ensaio da banda filarmónica -, ou é sempre matiné de cinema, jogos de matraquilhos, velhos a baterem peças de dominó na mesa. Sou eu que decido. Faço o caminho para a escola com a mala às costas, não pesa porque vou a conversarcom o meu amigo Belarmino, só pensamos em brincar, jogar à bola na rua de São João.
Aonde quer que vá, levo tudo isto comigo. Chego a Banguecoque e, num copo de água, encontro os copos de água da minha madrinha, enchidos por um jarro tapado com um guardanapo de pano - ouço a sua voz a dizer-me: bebe. Chego a Las Vegas e, numa sombra, encontro as sombras do quintal da nossa casa, a minha mãe em algum lugar, o meu pai em algum lugar, as minhas irmãs em algum lugar.
Quando me falaram da morte pela primeira vez, acreditei logo. A partir desse dia, nunca mais vivi como se estar aqui - este ar, esta luz - não fosse acabar. Pelo contrário, na maioria das vezes, vivi com uma ânsia exagerada de consumir ao máximo, de conhecer ao máximo, de ser sempre o último a sair da festa.
Talvez essa obrigação de viver tenha nascido da notícia repentina - a meio de qualquer enredo irrelevante - de que o meu pai tinha três meses de vida. O médico a dizer essas palavras à minha mãe, a minha mãe a dizer essas palavras às minhas irmãs, as minhas irmãs a dizerem-me essas palavras a mim. A morte certa, real, e, no entanto, o meu pai ali, ainda ali, moribundo, eu a poder dizer-lhe tudo - qualquer coisa - e nada do que lhe pudesse dizer a mudar a certeza de perdê-lo para sempre. Durante três anos, o meu pai ali, cada vez mais morto, sempre com três meses de expectativa de vida.
Ou talvez tenha nascido antes, quando eu era um adolescente preso numa terra de mil pessoas, sempre as mesmas todos os dias. Adolescente imortal, sem imaginar que seria possível perdê-las, sem imaginar que passaria a vida inteira a preservar as memórias desse tempo e desse desejo - a cuidá-las, como cuidaria de um jardim.
A adolescência é difícil em qualquer geografia. Num lugar de mil pessoas - com televisão e sonhos -, os adolescentes sabem claramente o que não querem. Com quinze, dezasseis, dezassete anos, repeti tantas vezes para mim próprio a vontade de sair dali que talvez essa voz se tenha entranhado.
Já vivi muito. Se eu morrer de repente, se algum médico descobrir que tenho três meses de vida, quero que saibam que vivi muito, estou profundamente convencifo de que vivi muito.
Vou ter pena de morrer, vou ter pena de deixar aqueles e aquilo que cá ficam mesmo sabendo que nada do que deixo é permanente e que, um dia, tudo morrerá também. Mas, agora, neste momento, quero que saibam que vivi o máximo que pude. Tenho muitos arrependimentos - não soube fazer melhor -, mas não desperdicei tempo. Valorizo tudo o que vivi.
Tenho quarenta e dois anos. Quando olho para esta idade, parece-me imensa. Se os meus filhos tiverem de assistir à minha morte, quero que saibam que tenho orgulho em cada um dos seus gestos, dos seus pensamentos, e que o meu amor por eles é muito maior do que eu. Independentemente de eu estar aqui ou não, continuará para sempre.
"O Caminho Imperfeito", José Luís Peixoto, 2017
















