Sobre Evelyn Preer e outras atrizes negras no cinema dos EUA
Ontem descobri a história de Evelyn Preer, a Primeira Dama Negra das Telas de Cinema, como ficou conhecida na comunidade preta da época, na década de 1920, do século XX.
Aos 54 anos e com quatro décadas de paixão por cinema, somente ontem, 29/11/2021 descobri sua existência. Fui devorando cada informação encontrada (poucas) e rapidamente editei o post para publicá-lo. A urgência em revelar sua história aos meus leitores tornou-se quase uma obsessão. Até me atropelei nas escolhas das fotos.
Acabei encontrando uma página no quase falecido Facebook em sua homenagem. Entre as reproduções originais em preto e branco, optei pelas remasterizadas. Achei que era necessário que os leitores não tivessem dúvidas que ela era negra. Ridículo, eu sei, mas a gente ainda terá que usar tais recursos por muito tempo – até a sociedade entender que negro é negro. Não importa graduação de sua pele.
Lembrei-me da fala do ator Robson Nunes no quadro ‘Show dos Famosos’ no programa do Luciano Huck. Ele fez uma bela homenagem ao Mano Brown, vocalista do grupo Racionais MC’s, que nunca pisaram em qualquer programa da TV Globo.
Depois de sua incrível performance, Robson nos presenteou com uma excelente fala sobre a questão de ‘graduação do tom da pele’.
Contou que até criou um Stand-up com o nome ‘Afrobege’, termo que alguém usou para defini-lo. Afinal, segundo o pensamento do autor da expressão, o grau de ‘negritude’ do ator era equivalente ao ‘bege’. Aí, você pode se perguntar: “Mas quem é que pensa assim?”
Então... Quantos negros de raças misturadas não ouviram isto: ‘Mas você não é negro! Você é moreno, mulato, bronzeado, tom de canela, bla-bla-bla...!’
E quem diz isto acredita que está sendo ‘bacana’. Afinal, dizer que alguém é ‘menos’ preto ‘soa melhor em certos setores da sociedade’.
Mas, enfim... Voltando a Evelyn, conforme pesquisava, fui me questionando o quanto ela deve ter sofrido. O fato de a mesma ter se tornado a protagonista dos filmes do cineasta negro Oscar Micheaux explicava muita coisa.
Ela estreou no cinema aos 23 anos em 1919, fez peças teatrais, participou com backing vocal para Duke Ellington e diversas participações não creditadas em filmes de grandes estúdios. Quando pareceu que sua carreira daria uma guinada – tornar-se conhecida entre o público branco, ela morreu graças a uma pneumonia adquirida no hospital após dar a luz à sua única filha. Meu... Que triste!
Evelyn foi uma pioneira. Assim como Hattie McDaniels, que foi a primeira atriz negra a ganhar um Oscar em 1940 por sua atuação como Mammy em ‘... E o Vento Levou’, um dos maiores sucessos de bilheteria da história do cinema dos EUA.
Mas as coisas também não foram fáceis para ela. Sabia que, na cerimônia de entrega dos prêmios da Academia, Hattie foi proibida de sentar-se à mesa dos indicados? Ela foi colocar no fundo do Dorothy Chandler Pavillion, em Los Angeles. Só apareceu no palco porque seu nome foi anunciado.
A vitória de Hattie McDaniel também foi celebrada por alguns jornais da época. O Daily Variety escreveu: “Não é apenas a primeira de sua raça a vencer o Oscar. Foi a primeira negra a ser convidada para a cerimônia do Oscar”.
Demorou dez anos para outra atriz negra ser indicada ao Oscar, Ethel Waters em ‘Pinky’, em 1949 e outros 51 para outra vencer, Whoopi Golberg, em 1990 por ‘Ghost’. Desde então, a categoria premiou outras seis atrizes – Jennifer Hudson, Mo’Nique, Octavia Spencer, Lupita Nyong’o, Viola Davis e Regina King.
Na categoria Melhor Atriz, Halle Berry quebrou seis décadas de preconceito ao ganhar o Oscar por ‘A Última Ceia’, em 2001. Antes, Dorothy Dandridge, Diana Ross, Cicely Tyson, Diahann Carroll, Whoopi Golberg (que concorreu por ‘A Cor Púrpura’ em 1985) e Angela Bassett estiveram no páreo. Sem vitórias.
Ou seja, em 94 anos da história dos prêmios da Academia, uma atriz negra foi premiada enquanto 93 brancas venceram. E como coadjuvantes, oito negras e 85 brancas (a categoria foi criada 1936, ou seja, na 9ª cerimônia).