Did this when it first went around and never actually posted it. Now I have no idea where the original meme went, but I have to clean off this drive today, so here it is.
seen from China
seen from United States

seen from United States
seen from Germany

seen from United States

seen from United Kingdom
seen from Sweden

seen from United Kingdom
seen from United States

seen from Italy
seen from United States
seen from Kazakhstan
seen from United States

seen from United States

seen from United States
seen from Singapore
seen from Mexico
seen from China
seen from Russia
seen from Slovakia
Did this when it first went around and never actually posted it. Now I have no idea where the original meme went, but I have to clean off this drive today, so here it is.
Broken Crystal, Capítulo 1
Era um dia realmente lindo, o sol fazia tudo parecer mais vivo... Londres nunca tinha estado tão bonita... Claro que o fato de ter que ir para a escola fazia tudo isso parecer sem valor... Odeio escola. Eu estava praticamente reprovada em matemática e ainda tinha algumas provas para fazer... Me levantei da cama com preguiça, tomei um banho e coloquei o uniforme da minha escola. Esse é o ultimo ano nela, e faltam apenas alguns meses para terminar... Era estranho acordar sozinha no apartamento do centro da cidade onde eu morava sem que minha mãe estivesse dormindo no sofá ou em cima de seu computador usado para redigir seus romances. Ou mesmo com todas aquelas caixas no canto, esperando para que nossos pertences fossem para dentro delas. Mas acabei esquecendo disso quando saí para tomar café na padaria a duas quadras de onde eu morava. Todos os dias, antes de ir à escola, eu tomava café nessa padaria, não tinha nada demais, ninguém interessante, apenas era mais fácil. Morar com a minha mãe irresponsável significava absolutamente nada de comida dentro de casa. Encontrava quase todos os dias minhas melhores amigas ali, Lana e Claire. Para variar, elas já estavam lá e eu estava atrasada. Consegui vê-las pelo vidro do estabelecimento em tons pastéis. Tinha apenas algumas mesas e se encontrava em uma esquina. Le Ceresier In Fleur.
- Oi, oi, desculpa a demora. - falei enquanto me juntava a elas na mesa de mármore. Logo a atendente veio e eu fiz meu pedido de sempre.
- Tá tudo bem, acabamos de chegar. - Claire falou com um sorriso e olhos brilhantes, ela sempre tinha um humor incrível durante a manhã... - Sua mãe já voltou?
- Não, ela tinha me mandado uma mensagem ontem dizendo que pegaria o avião agora de manhã, provavelmente pelas quatro da tarde ela deve aparecer em casa. - respondi fazendo uma conta rápida de distância e tempo que levaria de avião para minha mãe sair de Las Vegas e chegar em Londres, mas provavelmente tinha errado aquele calculo, matemática não é meu ponto forte... Logo vi a garçonete que sempre atendia nossa mesa trazer meu expresso tamanho grande e o muffin.
- Ela pareceu feliz da ultima vez que a vi... - Lana comentou, bebericando um pouco do chá a sua frente. - Quer dizer, quem diria, ela e o Steve?
- É verdade. - Comentei. Minha mãe sempre namorava caras idiotas, mas há alguns meses ela e seu melhor amigo começaram a namorar, o que é ridiculamente estranho pra mim... E isso talvez o diga o porquê...
Mary Zaring, minha querida mãe, tinha uma melhor amiga chamada Ane Wayland desde que elas tinham se conhecido no Ensino Médio da escola onde eu estudo, Humpfrey High, Minha mãe se casou com meu pai, Jonathan Less, que fora para o exercito e acabou desaparecido em missão há dez anos atrás, e um pouco depois disso, Ane morreu de câncer. Pode imaginar ver seu marido e melhor amiga morrerem de uma maneira que você não pode fazer absolutamente nada? Ela não tinha chão, então Steve, o viúvo de Ane acabou sendo quem ajudou minha mãe a superar tudo... Steve Wolff era seu melhor amigo, cuidou de minha mãe e de mim quando precisávamos... Mas, de alguma forma, eles começaram a se envolver no ultimo ano e acabaram se casando há poucas semanas atrás. Estavam na lua de mel agora, em Las Vegas.
- Enquanto eles estiverem felizes... - Lana respondeu. E assim se fez o silêncio mortal entre amigas.
- Então, temos alguma coisa importante na escola hoje? - perguntei. E Claire olhou para os livros que segurava pelos óculos. Procurando pela grade de horários, fazíamos quase todas as aulas juntas, a única exceção era a maldita matemática, a qual minhas amigas eram simplesmente brilhantes, enquanto elas faziam algo como "Calculo III", a ultima cadeira para fazer antes de ser formar, eu estava em "Matemática para retardados", junto com os meninos do time de futebol e os gênios da sexta série.
- Não realmente. - Lana respondeu, mas logo depois, notei que ela olhou por cima do meu ombro e deu um sorriso malicioso - Mas aqui parece ter algo interessante...
Virei meu rosto para o lado que ela olhava e logo senti meu estomago embrulhar. Tinha me arrependido profundamente de ter olhado. Era ele, tinha acabado de entrar pela porta e ia, graças a Deus, na direção oposta a nossa mesa. Harry Wolff. O filho de Steve e quem me infernizava desde que eu consigo me lembrar... Estudamos na mesma escola, nas mesmas aulas desde que tínhamos sete anos de idade. Obviamente nos odiamos esse tempo todo. Parecia até que eu era a melhor diversão para ele. E provocá-lo era realmente muito bom, fazia bem para o meu ego quando eu ganhava as descuções ou quando estávamos na classe de educação física e eu fazia gols contra o time dele quando jogávamos garotos contra garotas. Assistir ele sentar e colocar a mochila surrada na cadeira ao lado, pedir com um sorriso para a garçonete uma torrada e um café. Observei também a garçonete sair dali com um sorriso bobo e se abanando, atraída por... Aquela coisa. Cheguei até a rir com isso, alguém se sentia atraída por Wolff... Que hilário. Voltei a encarar a garota a minha frente.
- Interessante? Tá mais pra horripilante. - eu falei, e comi meu muffin.
- Claro que é interessante, sempre incrível como vocês dois conseguem brigar apenas por respirarem o mesmo ar... Só quero ver agora que vão morar em baixo do mesmo teto. - Lana disse e Claire concordou com a cabeça.
- Eu queria ser uma mosquinha. - Clare falou, terminando o café e mexendo em sua bolsa para pegar sua carteira. Aproveitei e fiz o mesmo, Lana já tinha a sua na mão. - Lembra-se daquela vez que eles começaram a brigar quanto tivemos o treinamento de sobrevivência com o exército?
- Claro, impossível esquecer Hanna rolando na lama com Harry por achar que ele tinha trapaceado... - ela começou lembrar.
Aquela vez tinha sido vergonhosa, mas ele tinha mesmo trapaceado, estava atrás de mim na maratona e então no nada apareceu do meu lado, tinha que ter pulado algumas etapas... Era o primeiro ano do Ensino Médio e era a semana das profissões na escola, como de praxe o exército ia até lá e nos dava um dia de treinamento, aquele dia era uma maratona onde todos que faziam educação física tinham que participar e eu estava ganhando, aliás, ia ter uma medalha a mais que Wolff, que por sinal tinha torcido o pé na semana anterior jogando futebol, eu tinha uma grande vantagem, mas ele estava tão atrás que não tinha como ter chegado ao meu lado tão rápido... No final, a ultima parte era correr sobre um pedaço fino de madeira por cima da lama... E bem, quando eu o vi do meu lado e indo quase mais rápido, o acusei de trapacear, ele reclamou e eu o derrubei, só que com a minha grande astúcia, não me dei conta que ele poderia ter pegado meu braço e me levado junto... O que realmente aconteceu. Eu não queria ter feito aquilo, e só de me lembrar das quatro semanas de detenção com ele limpando a escola, eu senti um arrepio. Desde aquela vez, eu vinha tentando me controlar, parar de brigar tanto com ele. Fisicamente, quero dizer. Levantei-me com elas da pequena mesa e me dirigi ao caixa, rolando os olhos.
- Não, e se lembra daquela vez na quinta série quando eles tinham que fazer dupla no trabalho de artes? Tinha tinta em toda a sala, e todos nós tivemos que ficar limpando depois... - elas continuaram a discutir as vezes que minhas discuções com Wolff foram catastróficas, várias delas, por sinal...
Apenas paguei o meu café com um sorriso para a moça que ouvia horrorizada tudo o que elas falavam. Eu na verdade, rezava para que ela não achasse que fosse eu quem tivesse feito todas aquelas coisas, mas pela expressão, era o extremo oposto. Logo, esperei que as meninas pagassem, mas com a demora da conversa... Alguém se juntou a fila... Para minha total infelicidade.
- Bom-dia, Less. - eu ouvi a voz atrás de mim, indiferente, talvez até com um pouco de raiva... - Meninas... - ele cumprimentou Lana e Claire com um sorriso rápido.
- Uau, pelo menos ele mostra um pouco de educação, não é mesmo? - eu debochei e notei seus olhos faiscarem. - Bom-dia, Wolff. - respondi, no mesmo tom que ele. E cara aquela não tinha sido a minha melhor tirada, acho que eu ainda estava sonolenta. Mas, quando eu e as meninas passamos por ele, senti sua mão agarrar meu braço esquerdo, eu me direi e o encarei com raiva. Aquilo era demais.
- Nossa, criativa você heim? - ele respondeu, chegando mais perto de mim, pude sentir sua respiração batendo no meu rosto. - Não quer aproveitar e dizer também o quão bruto e infantil eu sou?
- Por que dizer se você mesmo admite? - Tudo bem, eu tenho raiva dele, mas a raiva que eu via naqueles olhos não era por minha causa, normalmente discutíamos por algo, mesmo que banal, agora não tinha motivo, ele apenas estava descontando raiva em mim. E eu tinha certeza que não era culpada.
- Ah não, de novo não... - ouvi Lana falando para Claire isso, baixo. Harry me olhou firme e apertou mais a mão em meu braço, dessa vez me machucando. Levantei a mão para dar-lhe um tapa, mas ele foi mais rápido e impediu.
- Me solta, Wolff. - Falei enquanto lutava para soltar ambas minhas mãos, Wolff tinha apenas uns quatro ou cinco centímetros a mais que eu, mas ele era muito mais forte, apenas apertava meu pulso e braço cada vez mais, e então, pela primeira vez perto dele, comecei a me desesperar. - Tá me machucando.
- Então quer dizer que toda vez que você não consegue argumentos pra me ofender, você pode bater em mim, mas eu não posso simplesmente impedir que você faça isso? Quer saber, Less, eu to ficando cansado disso. - ele falou, e eu pude sentir sua respiração em meus lábios, estávamos perto demais, seus olhos pareciam que iam me engolir na imensidão que eram. Estava me afogando em um oceano de raiva naquela pequena padaria, e todos ao redor estavam simplesmente congelados pela ação dele. Assim como eu.
- Quer saber o porquê você não aguenta mais? - eu estourei. - Você é só um menino perdido, sem futuro, um filhinho de papai que só sabe gastar dinheiro em festas, nada além disso, e não aguenta que eu te desafie, não consegue ver o fato de que eu sou a única que você não compra com dinheiro ou boa aparência. - Eu falei baixo, para que apenas quem estivesse realmente próximo pudesse ouvir, eu odiava escândalos, e com o tempo de brigas que tínhamos, acabei odiando mais. Mas às vezes, era simplesmente impossível me controlar perto dele.
Bruscamente, ele me soltou e eu fiquei o encarando por alguns segundos, tentando ler o que tinha em seus olhos, algo como culpa poderia ter passado por ali, mas ele nunca deixaria alguém como eu ver. Então, lentamente e um tanto assustada me afastei e fui ao encontro das minhas amigas, que estavam ali do lado de fora, me esperando. Sem muitas palavras por alguns minutos, fomos em direção a nossa escola, a algumas quadras da padaria.
- Então, alguém me explica o que aconteceu lá? - Claire falou e eu dei um sorriso fraco.
- Eu não faço ideia. - admiti. - Lana?
- Eu acho que tudo isso se resume a minha teoria conspiradora... - ela começou e mais uma vez eu revirei os olhos.
- Ah, sério? Pra você tudo é resumido à teoria conspiradora. - eu falei e sorri.
- Claro, qualquer relação entre homens e mulheres se resume à atração reprimida.
- Ah, claro, como se a minha atração reprimida por Wolff fosse tão evidente quando a sua atração absolutamente abundante pelo Simon... Aliás, minha atração pelo Wolff é tão reprimida que chega a nem existir. - eu debochei dela, querendo mudar de assunto, mas pareceu não fazer muito efeito.
- A minha atração pelo Simon é tão óbvia, que só ele não vê.
- Verdade, - Claire interrompeu. - mas ele só não vê por causa daquela namorada dele, Perrie.
A verdade é que, Simon Malik é só o cara mais popular da escola, assim como o seu grupinho de amigos, e claro, ele só namora as garotas populares, como Perrie Edwards, a vadia mãe, como nós costumamos a chamá-la. Claro que ela é loira, alta, bonita e de olhos azuis, uma boneca que todos os caras que conhecemos se apaixona, mas é claro que essa beleza toda fica escondida pela maldade dela... Mas Simon e eu somos vizinhos, ele mora no apartamento acima do meu, um cara completamente preguiçoso e maravilhosamente lindo que acaba sendo um dos amigos que conheço há mais tempo, foi com ele que aprendi a jogar futebol, videogame e poker. Porém nossa amizade não é mais a mesma coisa desde que ele começou a namorar aquela garota asquerosa. Juro que no dia da minha formatura eu compro uma bazuca e atino nela e no Wolff, pelo tamanho ódio que sinto pelos dois... Na verdade, mais por Perrie, Wolff me irrita por existir, mas ela roubou meu amigo, companheiro de festas, porres e shows do The Kooks...
- A cadeia alimentar da escola é assim mesmo. Os populares no topo, as excluídas no fundo. - eu falei.
- Ah, nada a ver Hanna, você faz parte do time de vôlei, de futebol, de natação e de corrida da escola, está longe de ser uma excluída, já nós, do clube de vídeo, nem tanto.- Claire falou e por um momento ponderei. Minhas amigas não faziam nenhuma atividade física extracurricular, eu por outro lado era hiperativa, não podia ficar parada, não suportava ficar em casa, e não tinha concentração nenhuma nas aulas, precisava gastar minha energia de alguma maneira, então fazia todo esporte possível.
- Nada a ver. - respondi.
- Tudo a ver. -Lana me reprimiu. - Você tem mais vida social que a gente, é sempre convidada para as festas... Só não vai.
- Por que as minhas melhores amigas não vão comigo, e além disso, não gosto do pessoal que vai, se é que me entende. - falei. Então terminamos o assunto por ali. Nenhuma de nós queria voltar ao recente acontecimento, então continuamos nosso trajeto em silêncio.
O dia não tinha sido muito cheio. Fiquei em silêncio em todas as aulas cansativas do dia, conversei com as meninas o mínimo possível. Mas tinha algo, ou melhor alguém que não saia da minha cabeça. Os olhos verdes de Wolff estavam na minha cabeça desde aquele momento. Se eu tivesse uma câmera naquela hora, tiraria uma foto. Era uma imagem perturbadora mas ao mesmo tempo bonita. Entrei na primeira aula do dia, História Europeia e me sentei no fundo, ao lado de Jess, uma garota do meu time de natação, quem eu apenas sentia um leve coleguismo, afinal, eu não sou uma pessoa realmente sociável, minhas amizades se resumem à Lana, Claire, Niall, o capitão do time de futebol e Simon, que agora eu mal via... Wolff sempre se sentava na frente do professor e no lado oposto que eu estava, então eu o observava de longe, curiosa. O que tinha acontecido para ele estar assim? Com tanta raiva? Já falei que a curiosidade é o meu maior defeito? Bem, agora eu falei. Essa pergunta ficou na minha cabeça durante todo o dia. As aulas se passaram torturantes, logo fui até o meu armário e peguei a minha bolsa de ginástica, que continha meu uniforme do time de vôlei e uma muda de roupa, logo fui ao encontro de Lana e Claire, que já iriam para casa.
- Vejo vocês amanhã então? - perguntei quando me aproximava delas, que tinham o armário, uma do lado da outra.
- Claro. - Lana respondeu, colocando alguns cadernos dentro de sua bolsa e fechando armário. - Shopping para o almoço?
- Pode ser, encontro vocês lá.
- Até mais. - elas disseram ao mesmo tempo e eu acenei e sorri.
Atravessei a escola em direção ao ginásio, eram apenas alguns metros então não me preocupei em ir rápido. A verdade é que eu não tinha muita vontade de ir para o treino, queria apenas ir pra casa e dormir, aproveitar enquanto minha mãe barulhenta e irresponsável não chegava para poder ficar na internet, escutando bandas antigas e fazendo a lição de casa tranquilamente. Enquanto caminhava recebi uma mensagem, "Cheguei em casa, venha cedo, vamos sair hoje." Ótimo, minha mãe queria sair, em sua linguagem complicada e única isso significa que tenho que sair com ela, Steve e sua família, que agora seria minha família... Por que ela não podia ser uma mãe normal e apenas descansar quando chega de uma viajem? Ela sempre gostava de sair, uma vez até me levou para um bar, quando eu tinha dezesseis anos, ela queria que eu "conhecesse alguém da minha idade"... Acho que ela não pensou muito bem que adolescentes não saem em bares para conhecer gente com suas mães junto. Mas eu não posso dizer que não a amo, mesmo irresponsável do jeito que é, é minha mãe, me sentiria perdida sem ela, mais do que me sinto sem meu pai.
Cheguei ao ginásio e fui direto para o vestiário, onde troquei de roupa rapidamente encontrando meu time de vôlei. Para aqueles que não sabem, voleibol é jogado com seis jogares de cada lado, cada par de jogadores com sua função, eu era jogadora de saída, o que significa sempre ficar ao lado direito da quadra. Isso é apenas um resumo, vôlei é um jogo não muito complicado, mas eu levaria horas explicando... O que interessa é que naquele dia o treino era misto, meninas contra meninos... Meu dia tinha acabado de ficar pior... Lembra quando falei que Wolff fazia todas as aulas comigo desde que tínhamos sete anos de idade? Pois bem, nos esportes, não havia uma exceção. Lá estava ele do outro lado da quadra. Vi todas as meninas do meu time torcerem o nariz e eu sabia bem o porquê. Eu sou competitiva e agressiva quando se trata de esportes, não gosto de perder, e Wolff também era assim, principalmente quando jogávamos um contra o outro. Comentários como "Não acredito nisso" ou "Ah, Harry e Hanna de novo?" invadiram meus ouvidos. Mas posso falar verdadeiramente que todas as vezes que jogávamos um contra o outro, ele me forçava a dar o meu máximo e ser o melhor que poderia, mesmo que acabasse praticamente morta depois de cada treino...Vôlei, futebol, corrida... Acho que o único esporte que eu não me sentia competitiva com ele era a natação, era o momento que eu tinha para pensar e relaxar. Em baixo da água, tudo fica claro e eu não preciso pensar em nada, sou apenas eu ali...
O treino tinha sido pesado, um jogo com duração de uma hora e com a vitória dos meninos, eu acabei o jogo atirada no chão, tinha tentado defender uma bola de um ataque feito por Wolff, como sempre ele atacava a bola onde eu estava, mas a força fora tanta que ela bateu em meus braços e em seguida no teto um tanto baixo do ginásio, talvez eu tivesse colocado um pouco de força na bola também, talvez tivesse cansada e não estava concentrada no jogo o suficiente. Enquanto todos saíam da quadra e iam para o vestiário, eu continuei ali por mais alguns minutos, recuperando meu fôlego e analisando meus braços que estavam vermelhos e logo ficariam cheios de hematomas, assim como meu joelhos que estavam protegidos pelas joelheiras. A parte que eu não gostava nos esportes era ficar quase completamente roxa. Deitei-me e fechei os olhos por algum tempo, apenas normalizando a respiração e repassando tudo o que tinha acontecido naquele dia, acalmando minha curiosidade irritante e minha mente acelerada.
- Desculpe pelos roxos. - Ouvi uma voz atrás de mim e me sentei com as pernas doloridas esticadas. Aproveitei e comecei a alongá-las.
- Tudo bem, faz parte. - Eu respondi ainda sem fôlego. E observei o dono da voz se sentar ao meu lado com os cabelos molhados, uma calça de moletom cinza, uma regata branca e um casaco de moletom vermelho, senti o cheiro forte de seu perfume invadindo meus pulmões. Ele largou a mochila preta surrada entre nós, eu tinha pena daquela mochila surrada toda cheia de fita isolante prateada no fundo e em alguns bolsos de fora. Eu terminei de alongar as pernas e para não ficar naquele silêncio desconfortável, resolvi puxar assunto, ignorando minha vontade de sair dali ou de bater nele por ter usado tanta força no treino. - Então... Parece que vamos ter que sair hoje, não?
- É. - ele respondeu. - Na verdade, sua mãe acabou de me ligar, disse que é pra você ir comigo pra minha casa, já começaram a festa sem nós.
- Não acredito nisso. - resmunguei irritada. - Ela me mandou uma mensagem antes do treino dizendo pra ir pra casa e agora já mudou de ideia e nem pra me ligar ela se prestou.
- Sua mãe é estranha. - ele falou, com um tom de riso e um sorriso sorrateiro nos lábios que me irritou mais ainda. - Hey, é melhor você tomar um banho, não vai entrar no meu carro fedendo desse jeito.
Eu apenas o espiei de canto de olho, começou chamando minha mãe de entranha, o que só eu tenho o direito de chamar e agora terminou dizendo que eu sou fedorenta. Bom se a minha vontade de dar um soco nele já era grande, agora ficou insuportável. Mas, minha nova regra desde o casamento da minha mãe e do pai dele era evitar brigas até eu não precisar mais vê-lo então apenas me contentei em fingir que estava interessada em sua mochila, fiquei olhando para ela por alguns segundos então simplesmente a peguei e joguei para ele, que com seus reflexos invejáveis a pegou no ar, fiz um sinal feio com a mão e ele começou a gargalhar, contentei-me em levantar e fui até o vestiário, que agora estava vazio. Nossa, será que eu tinha ficado tanto tempo deitada na quadra e tão alheia, que nem tinha visto todas aquelas pessoas passarem por mim? Peguei minhas coisas dentro do armário e tomei o banho mais rápido da minha vida, colocando a calça jeans que tinha dentro da minha bolsa de ginástica, a camiseta preta e o meu invencível par de Al. Stars que estava mais rasgado e sujo que qualquer outro no mundo todo. Saí dali com os cabelos molhados e encontrei uma cena estranha, Wolff estava da mesma maneira que o deixei, no meio da quadra com a mochila sobre a barriga porém com um livro nas mãos, parecendo concentrado na leitura. Eu não sabia o que fazer, apenas comecei a rir.
- Sabe, eu nunca imaginei que você saiba ler. - eu admiti, em meio a risadas, talvez até um pouco maldosas.
- Pois é, alguns de nós fazem mais que apenas planos malignos. - ele respondeu não gostando da minha provocação barata. Wolff se levantou e guardou o livro na mochila, me juntei a ele e então fomos caminhando para fora do ginásio para o estacionamento em silêncio, até eu me lembrar de algo importante.
- Hey, preciso passar em casa - eu falei e ele me olhou. - Não dá pra aparecer numa festa da sua família com estes Al. Stars rasgados. - apontei para meus pés e ele os analisou com uma expressão indecifrável.
- Pra mim você tá bem assim. - ele falou voltando sua atenção agora para o carro a nossa frente, uma Mercedes Benz que tinha ganhado de aniversário no ultimo ano. Ele entrou no carro e esperou que eu entrasse do outro lado para ligá-lo e sair dali. Meu coração chegou até a parar por alguns segundos por sair daquela maldita instituição, agradecido. - Aliás, sua mãe disse que tinha pegado algumas roupas pra você.
- OK. - respondi, mas continuei inquieta, batendo as mãos nas minhas coxas e sacudindo a perda esquerda.
Eram pelo menos vinte minutos de carro com Wolff para a casa dele, no norte de Londres, que aliás, ser chamada de casa era quase um insulto. Era só cinquenta zilhões de vezes maior que o pequeno apartamento do centro que eu e a minha mãe moramos a vida toda. E era apenas para três pessoas, Steve, Harold e a irmãzinha dele, Ange, que tinha uns quinze anos agora, estava na nossa escola, mas como não fazia nenhum esporte, Steve a buscava na saída, ou o motorista dos Wolff. Eu sei, motorista, certo? Sinto-me a criatura mais pobre da face da terra perto daquela família. Sou tão acostumada com pouco, viver a vida meio apertada, contando o dinheiro dos livros da minha mãe e da pensão do meu pai para que consigamos de repente comprar alguma roupa diferente no final do mês, que me sinto mal perto deles. Wolff e suas roupas de marca, carros importados, festas todos os dias, casas da praia e de campo... Inveja? Talvez... De qualquer jeito, fiquei pensando sobre Harold e sua vida de pobre coitado tão alheia que percebi depois que ele tinha ligado o rádio do carro, tocava uma das minhas bandas favoritas, Red Hot Chilli Peppers. O que me fez acordar e volta a minha linha de raciocínio sobre minha irritante curiosidade.
O que será que tinha o irritado tanto durante a manhã? Desde que me lembro, nossos pais costumavam sair juntos para beber, principalmente depois da morte da mãe de Wolff e de meu pai, ficávamos nós e Ange, muitas vezes na minha casa com uma babá ou até mesmo na casa de Simon brincando até tarde da noite, então nossos pais chegavam de madrugada e dormíamos todos juntos no pequeno apartamento. Harry acordava todas as manhãs com o pior humor possível, mas não como naquela manhã. Será que seu pai tinha lhe colocado de castigo? Duvido. A namorada dele havia se recusado a dormir com ele? Essa duvida era até engraçada, nenhuma garota na escola se recusaria, com raras exceções, claro. Mas era algo que me intrigava cada vez mais. Perguntar? Não perguntar? Minhas pernas agora eram ambas inquietas sacudindo como se eu estivesse tocando um solo louco que bateria, até sentir uma mão sobre a minha perna esquerda, apertando-a, impedindo-a de mover-se involuntariamente e eu senti o carro para rápido demais. Olhei para aqueles olhos furiosos mais uma vez...
- Dá pra parar? - ele rosnou entre dentes. - Tá me desconcentrando, se dependesse disso, teria batido no carro da frente.
Meus olhos foram dos dele para o carro prata a nossa frente que estava quase perto demais e senti minha respiração parar por um segundo. E vi sua mão na minha perna, não sei bem o que senti naquele momento, se era o choque do quase acidente ou se vinha daquele contato físico tão estranho. Olhei-o mais uma vez e agora ele parecia confuso, ouvimos a buzina atrás de nós e ele voltou a dirigir o carro dessa vez com as duas mãos no volante, sem olhar para o lado sequer uma vez.
- Então... - tentei começar o assunto para quebrar aquele clima ruim. - Como vai você?
Harold me olhou de uma maneira estranha brevemente. Eu também teria me olhando estranho, fala sério, quem no mundo tanta quebrar um clima ruim com isso? Ainda entre duas pessoas que não se suportam? Eu apenas tentei não ter ficado completamente sem graça na frente dele. Eu queria ter um saco de papelão pra me esconder...
- Eu estou bem, e você? - ele respondeu sério, mas pude sentir um pouco de suspense e diversão em sua voz... Ok, eu não aguentei.
- Tá, então... Eu não sei fingir...
- Você quer saber porque eu descontei raiva hoje de manhã na primeira pessoa que vi. - ele me cortou e eu me calei. Será que eu era tão óbvia assim? Credo, devia treinar como esconder meus sentimentos. - Não é nada pessoal...
- É, isso eu notei.
- Eu nem sei, acho que ainda to me sentindo estranho com essa coisa do casamento. - ele admitiu com uma voz dois tons mais grave que o normal... Ele estava triste com isso? Quase pensei que ele sentisse o mesmo que eu. Aquela vontade de ver dar tudo certo mas esta longe dali. - Tive uma briga com o meu pai. Nunca pensei ver meu ele com outra mulher, ainda mais morando na nossa casa.
- Não é o único. - eu murmurei, mas não tenho certeza se ele ouviu.
Apenas continuamos em silêncio o caminho inteiro. Nenhum sentia vontade de falar ou provocar o outro naquela hora. Não demorou mais que alguns minutos para que chegássemos ao nosso destino, a Mansão Wolff, mas estes poucos pareceram dias. Éramos duas almas machucadas e mudas apenas esperando para sair daquela armadilha de metal sufocante... Harold estacionou o carro na garagem e eu apenas pulei para fora do mesmo sem esperá-lo, passei pela porta que dava na cozinha seguida por ele e avistei minha mãe. Um alívio percorreu minha espinha, abracei minha mãe com todas as forças que tinha. Duas semanas sem ela eram boas, mas eu sentia sua falta. Harold passou e a cumprimento com um aceno e um sorriso, seguindo para a sala e subindo as escadas.
- Mãe, senti sua falta. - eu disse e desfiz nosso abraço para olhá-la nos olhos. Ela era tão bonita para alguém da sua idade, eu me sentia feliz quando alguém dizia que eu fisicamente parecida com ela, e dava aleluia quando falavam que tinha a personalidade responsável do meu pai...
- Eu também, pequena. - ela sorriu. - Você não tem ideia de como foi ótima a viajem... Mas agora eu quero que á se trocar, nossos convidados já estão ai e eu não te quero com essa cara lavada e essas coisas que você chama de sapato. - eu ri com isso, sentia falta do seu falso tom de reprovação aos meus sapatos. - Seu vestido está no quarto da Ange.
- Ok, daqui a pouco eu volto. - sorri e a abracei mais uma vez.
Senti-me confortável por mais alguns segundos e então passei pelo canto da sala cheia de convidados, ternos e saltos altos eram mais que visíveis, mas eu tinha um superpoder que ser invisível quando eu queria, então eu o utilizei. Sem chamar atenção subi as escadas e segui pelo corredor largo, o quarto de Ange era a terceira porta a esquerda depois do de Harold, e antes do meu futuro quarto. Passei pelo primeiro e espiei, vi Wolff fechando uma camisa vermelho vinho de frente para o espelho ao lado da cama. Segui meu caminho, mas ao invés de ir para a próxima porta, segui para onde iria dormir nos próximos dias. Abri porta receosa, vi as paredes brancas preencherem minha visão e os móveis mogno montados. Uma cama de casal, uma escrivaninha, cadeira, armário e uma janela grande com uma pequena sacada que dava para a piscina. Sorri com isso, a janela do meu quarto no apartamento dava para a rua barulhenta do centro de Londres, aqui eu apenas ouviria o silêncio de algumas arvores e de uma piscina coberta por um teto de vidro.
Fechei a porta do quarto. Pronto, agora só faltava passar a manhã de sábado colocando as coisas no caminhão da mudança. Legal. Fui dali para a porta de Ange, a irmãzinha mais nova de Harold, bati nela três vezes e esperei que a pequena menina que quinze anos com olhos e sorrisos iguais aos do irmão atender. Era incrível como eles eram diferentes. Ange Wolff era tudo o que Harold jamais seria, gentil, doce e fofa demais. Se eu fosse homem, ficaria de quatro pela fofura e beleza dela.
- Hann, oi. - ela me saudou e abraçou. - Sua mãe te trouxe um vestido lindo de Vegas.
- Sério? Ela tinha dito para o seu irmão que tinha pego um meu.
- Acho que ela te conhece bem demais, se tivesse dado opção, você usaria um dos seus. - É verdade. Minha mãe sabe que entre o gosto dela e o meu, eu sempre preferiria o meu. Odeio usar roupas novas, principalmente aquelas que minha mãe escolhe e que eu não vejo antes de alguma festa.
Ange me deu passagem e eu entrei o quarto rosa feminino onde larguei minha bolsa na canto ao lado da porta. Ela usava um vestido da mesma cor que o quarto e sapatos de salto, ela quase ficava da minha altura e eu senti um pouco de inveja dela. Eu sou alta e não sou nenhuma modelo de magreza, então ver uma menina baixinha de olhos verdes brilhantes vestida como uma Barbie na minha frente me fazia um pouco mal... Sentindo-me culpada balancei a cabeça afastando esses pensamentos e fui ver o vestido que estava separado no cabide. Não era nada mal, para o gosto da minha mãe, ela só um vestido tomara que caia simples, nude, com uma barra preta milagrosa e emagrecedora na cintura.
- Coloque logo. - ela o pegou e colocou em minhas mãos. - Vai ficar lindo.
- Vamos ver se a minha mãe o comprou do tamanho certo. - tentei fazer a piada, mas eu acho que ri sozinha.
- Se não der certo, pegue um dos meus. - ela disse gentil.
- Ange, olha pra mim, qualquer um dos seus vestidos ficaria uma blusa em mim. - e falei séria e ela deu uma gargalhada.
- Só vai! - ouvi e atravessei o corredor. - As maquiagens estão na estante, dentro da frasqueira rosa.
- Ok. - falei e entrei no banheiro.
Não sabia muito o que fazer, nunca gostei de usar maquiagem então apenas peguei a frasqueira, coloquei um pouco de corretivo nas olheiras, pó, rímel e um batom vermelho, olhei para o meu cabelo que ainda estava molhado. Peguei o secador e o alisei com a escova, não que precisasse de muito esforço para deixar o cabelo liso, mas dava um ar de quem tinha ido ao salão e não apenas passado os últimos cinco minutos no banheiro fazendo o que dava. Tirei minhas roupas e coloquei o vestido, mas eu estava com problemas para fechá-lo. Depois de fingir ser contorcionista de circo por várias horas e algumas câimbras eu desisti. Coloquei os sapatos de salto pretos que estavam junto com o vestido e abri a porta. Fui até o quarto de Ange, mas ela não estava mais ali. E agora? Não podia aparecer assim lá em baixo.
- Less? - ouvi a voz de Wolff atrás de mim. Virei-me para ver, com tamanho susto que levei, ele estava na porta do quarto, encostado no batente.
- Eu.
- Precisa de alguma coisa?
- Talvez. - eu sorri amarelo. Caramba, que vergonha. - Pode fechar meu vestido?
Ele se desencostou do batente e veio na minha direção. Engoli em seco, de novo aquela expressão séria indecifrável. Não precisou falar nada, ele apenas chegou perto de mim e eu me virei de costas para ele. Ele fechou o vestido lentamente e eu senti o fecho gelado nas minhas costas me dar um arrepio, então resolvi prestar atenção no que tinha na minha frente o móvel branco tinha algumas fotos. Uma era de Ange e Harold quando ambos tinham 10 e 13 anos respectivamente. Outra era minha e dela, do ultimo ano, e uma de nós três com Simon e uma das noites que ficávamos no apartamento da mãe dele com mais ou menos 6 a 9 anos de idade, sorri olhando para um menino sem os dois dentes da frente... Mas tinha uma foto maior que ficava no fundo, era de Steve, Harold, Ane e uma recém-nascida Ange. Senti um peso na consciência e sem pensar peguei aquele porta retrato na mão para observar mais atentamente.
- Missão cumprida. - Ele falou, mas eu estava tão absorta em pensamentos que nem senti o vestido terminar de ser fechado. - Essa era minha mãe.
- Eu sei. - eu o olhei, pelo meu ombro, ele tinha uma expressão estranha, um misto de nostalgia e tristeza. - Não me lembro muito bem dela.
- Nem eu, pra falar a verdade. Só alguns momentos, nada mais. - coloquei o retrato de volta e me virei para observá-lo. Eu estava uns dois centímetros mais alta que ele, me senti um pouquinho competitiva, como se tivesse ganhado uma pequena competição sem nem ao menos avisá-lo da mesma, mas tratei de esconder minha vitória pessoal o mais rápido possível. - Sua mãe tá te procurando.
- Ah, certo. Quase esqueci que tem uma festa lá em baixo. - eu comentei e o segui depois em silêncio. Eu senti uma coceira na minha garganta para falar algo sobre estar mais alta que ele mas resisti. Eu sabia que tanto ele quando Ange ficavam sensíveis quando viam alguma foto ou se lembravam de Ane. Eu também era assim em relação ao meu pai. Entenda. Quando você tem um inimigo como eu, você quer ver ele irritado e triste por algo que você fez, quando é por algum outro assunto, não é tão divertido, pois ele não ficou irritado por sua causa, você só agravou a situação...
Desci com cuidado os degraus da escada, tendo em mente que um pequeno deslize poderia me custar uma perna quebrada, odeio usar saltos altos. Assim que cheguei no final, Wolff fora para um lado do salão e eu para outro. Então foi neste momento que coloquei minha mascara sociável no rosto com um sorriso falso. Cumprimentar meus parentes, tias e tios de minha mãe que eu tinha visto apenas poucas vezes em festas chiques como esta, os pais de Steve, meus mais novos avós, conheci alguns de seus primos, parentes distantes, todos ali com o objetivo de celebrar a volta daqueles que nos deixaram por duas semanas, eu sozinha em um apartamento, Wolff e Ange em uma enorme casa. Era estranho ver todos felizes e dando atenção ao casal, mas eu não me importei, fiquei feliz com algumas taças de champanhe roubadas dos garçons que não sabiam que faziam apenas algumas semanas que eu tinha completado dezoito anos. Vestidos esvoaçantes, crianças de mais ou menos cinco anos de idade correndo de um lado para o outro, ternos e gravatas engomados e eu nunca me senti tão perdida ali, fiquei perto da mesa de doces sentada em uma cadeira confortável depois de buscar meu celular dentro da bolsa de ginástica que tinha ficado no quarto de Ange, trocando mensagens com Claire que relatava empolada um documentário que assistia com Niall. Não vi o tempo passar, muito menos notei quando alguém se sentou na cadeira ao lado...
- Entediada? - ouvi e levei um susto, quase pulando da cadeira. - Desculpe, não quis te assustar.
- Nossa, essa coisa de assustar é de família, né? - eu falei sem pensar e então me dei conta que realmente tinha falado pela cara confusa de Steve.
- Como?
- Ah, é bobagem minha, nada demais...
- Bem, seja como for... Se a festa está chata, o que posso fazer por você? - ele perguntou com um sorriso gentil igual ao de Ange, eu sempre gostei de Steve.
- Não está chata, eu apenas estou um pouco cansada... - respondi.
- Então por que você não está conversando com o pessoal da sua idade? - ele apontou para um canto da sala onde estava Wolff, Ange e alguns primos deles, alguns eu conhecia, outros eu apenas tinha visto em fotos... Eu senti minhas bochechas esquentarem, a verdade é que por mais que eu gostasse de conversar com a filha de Steve, sempre que Harold estava por perto, independente do que acontecesse, acabávamos fazendo alguma besteira... - Ah, é o Harry, não é?
- Não... Bem... - tentei disfarçar, mas a verdade é que eu nunca fui uma boa atriz.
- Não se preocupe... Sabe, Ane costumava dizer que vocês iam acabar juntos uma hora dessas... - Ele olhou para frente e pude ver seus olhos perdidos em lembranças. - Como se todo esse atrito fosse se tornando algo mais suave com o tempo e depois se transformasse em algo mais forte. Acho que ela estava errada...
- É bem provável que sim. - eu ri com esse pensamento, Harold e eu juntos? Isso é um pesadelo.
- Achei que tinha diminuído um pouco.
- E diminuiu... Pelo menos da minha parte, tenho tentado uma nova filosofia de vida... Não matar seu filho enquanto você e a minha mãe estão juntos. - Eu ouvi uma gargalhada divertida vindo daquele homem grisalho. Era ótimo ouvir aquilo, cheguei a rir junto com ele...
- Então quer dizer que você vai tentar não matar ele? Assim espero, mas eu não creio que vá dar certo, mal conseguiam se aguentar na escola, quem dirá em baixo do mesmo teto...
- Eu disse que ia tentar, não quer dizer que eu terei sucesso. - eu retruquei um pouco ofendida, ele duvidava demais da minha capacidade... - É que não depende só de mim.
- É o que dizem, quando um não quer, dois não brigam. - ele disse e logo tomou um gole do wiski que tinha em mãos. - Mas conhecendo a personalidade do meu filho, ele vai fazer com que você queira brigar com ele.
- Nunca quis realmente brigar com ele. Ele sempre provocou primeiro. - Eu me senti uma criança falando isso, era um argumento infantil.
- Eu sei. - ele respondeu. - E você não é de levar provocação pra casa. Assim como sei pai era.
Eu congelei ali naquele momento. Era bom ser comparada ao meu pai, eu gostava disso, sabia que ele era brigão e competitivo, mas nunca deixou de ser responsável. Estranho lembrar que o homem que tinha falado isso agora estava casado com a minha mãe, mas acho que a vida é assim, uma hora ela vira tudo de cabeça pra baixo sem perguntar se está tudo bem ou não. Steve me falou algo sobre a nova senhora Wolff estar procurando por ele e saiu do meu lado. Eu não sei quanto tempo mais se passou, afoguei-me em pensamentos sobre meu pai, me lembrando de sua voz e de como ele era, sorri com a lembrança das piada idiotas copiadas dos seriados que víamos juntos e das vezes que ele tentou me ensinar violão sem sucesso. Levantei da cadeira e dei uma volta, cumprimentando mais pessoas e ficando por perto de Tia Magara, prima da minha mãe que vivia em Liverpool, não falávamos muito, e tudo o que eu perguntava era sobre sua filha que estava nos Estados Unidos fazendo intercâmbio... Não demorou muito para que a festa fosse acabando por conta própria, Tia Magara fora a ultima a ir embora, os garçons e o chef contratados por Ange, quem eu descobri ser a organizadora da festa já tinham se retirado. A casa agora era tomada por apenas cinco pessoas cansadas e com olheiras que se encontravam na cozinha, eu me sentei em um dos bancos da mesa de madeira na ponta. Na outra estava Ange, Wolff se encontrava sentado em cima da ilha ao lado do casal que estava encostado na mesma e abraçado.
- Bem, eu acho que vou me deitar agora. - Ange falou esfregando seus olhos com as costas da mão e levantando-se de onde estava.
- Boa pedida. - Steve falou e consultou o relógio. - Quatro e sete da manhã. - Ele olhou para minha mãe que fez uma careta que dizia "Posso ficar aqui?". Ele olhou para mim e para Harold, que parecia extremamente interessado na conversa de expressões dos dois. - Hann, quer dormir no seu quarto novo?
- Se meus pés não doessem tanto, dormiria até em pé. - falei encostando minha cabeça na mesa, sentindo meus olhos pesarem mais. - Mas eu não tenho nenhuma roupa aqui.
- Ah, é verdade, nem eu tenho nada aqui. - minha mãe olhou mais uma vez para mim e se dirigiu ao meu pesadelo particular. - Harry, pode emprestar algo para Hann?
- Por que ela não pega com a Ange? - Steve perguntou.
- Porque qualquer coisa da Ange não passa na cabeça da minha filha.
- Nossa, mãe, obrigada. Senti-me tão especial agora. - comentei e ouvi um leve riso de Wolff.
- Você sabe que é a verdade.
- Ok, eu empresto algo para a ela. - ele saiu de cima da ilha e foi para a porta, eu o segui. - Só não façam barulho. - Ouvi uma reclamação dos dois enquanto saia da cozinha e mais uma vez seguia Wolff pela escada para o segundo andar.
Dessa vez fui mais devagar, observando a postura ruim que ele tinha, os braços relativamente fortes e as costas definidas. Nunca tinha notado que ele ficava bem de vermelho. Nunca tinha notado nada sobre ele... Sem falar nada, ele entrou no quarto e foi até a cômoda, abriu a gaveta, pegou uma camiseta qualquer e voltou até a porta do quarto onde eu estava esperando.
- Obrigada.
- Não babe nela. - Ele disse com o sorriso convencido que eu já estava acostumada. - É a minha favorita.
- Sem problemas, eu a desinfeto pra você depois. - virei às costas e fui direto para meu quarto, sem olhar pra trás, mas tive a certeza que um sorriso tomou conta daqueles lábios.
Fechei a porta do quarto e vi que minha bolsa de ginástica estava em cima da cama, Ange deveria ter colocado ali assim que chegou em seu quarto. Peguei a bolsa e a abri, não tinha nada mais que livros, cadernos, fones de ouvido, os jeans, o uniforme da escola e o do vôlei. Nada que eu realmente gostaria de dormir, a maioria era suja e desconfortável. Só me restava a camiseta larga, grande e cinza de gola V que Wolff tinha me emprestado com o cheiro forte de seu perfume. Não pensei muito, coloquei o vestido em um dos vários cabides vazios do roupeiro junto com os sapatos e coloquei a camiseta que mal tapava minha bunda e apenas me esgueirei para a cama em baixo das cobertas caindo em um sono profundo logo depois.
Leia online :
* Social Spririt
* Nyah
* Wattpad