nem sei por quanto tempo tu me guiou com a tua luz. Nem sabia que o escuro era o natural da minha vista, até o dia que cruzei meu olhar com o teu. No ônibus, na calçada, na fotografia embaçada.
Nem tive tempo de tirar minhas vestes do varal quando tu chegaste feito ventania desenfreada. Nada parecido com brisa calma, mas idêntico à um arrepio nos pêlos da alma.
Como anda as coisas por ai? Há tempos não ouço falar de você, nem do teu abraço camisa-de-força, nem do teu tesão exagerado pelos meus cachos.
Parei de ouvir aquele disco que tu me disseste que parecia comigo. Da faixa um à faixa doze, tudo me cantava. "Até os silêncios do disco personificam tua beleza", foi o que me disse um dia antes de tirar o passaporte da gaveta.
Partiu. Deixou tudo aqui partido. Os copos, os corpos, os pratos, os desejos, o coração. Não me levou na frasqueira, não me despachou na bagagem, apenas fui passado, passando tímido e calado pelo teu horizonte observador.
Ouvi dizer que vez ou outra você me enxerga quando fecha os olhos. A saudade tem dessas coisas de ser até quando não precisa. Por aqui também tem sido assim, desde o dia que você me disse adeus sem falar nada.
Mas torço por manhãs mais calmas. Chá de camomila, bolo formigueiro, cigarros mentolados.
Cansei de fugir das coisas que me impedem de seguir. E a tua memória é latente, aprisiona meus pés, tumultua meus pensamentos.
Já que não deu pra ser ponto final, espero a sua volta pra ver se tornamos ao menos vírgula. Palavra continuada, boca com gosto das frases do outro.
Você me marcou, Alguém, e não foi feito tatuagem, foi feito angústia.