fotos Geísa Borrelli/Divulgação
No processo de concepção e fabricação de objetos, o fetiche. Criá-los para serem desejados, mas mais do que isso, acrescentá-los de significados que ultrapassem seus valores estéticos ou meramente funcionais. Tal conceito é o que inspira o casal Paulo Biacchi e Carolina Armellini, proprietários e idealizadores da Fetiche Design, empresa curitibana de mobiliário, decoração e consultoria de tendências.
Antes uma loja na Rua Vicente Machado, a Fetiche está instalada hoje em uma simpática casa de estilo português, de propriedade de um lusitano e localizada, coincidentemente, na Rua Portugal. Nela, Carolina e Paulo montaram um escritório, oficina e, finalmente, encontraram a liberdade e o isolamento necessário para criar. Em um dia de sol em Curitiba, sentados a uma mesa da coleção Vergalho e em bancos da coleção Pai João, produtos da Fetiche, foi que batemos um papo com o casal:
INVENTA - Como nasceu a Fetiche Design?
CAROLINA ARMELLINI - No conhecemos em 1999, no curso de Desenho Industrial da Universidade Federal do Paraná. Não éramos da mesma turma, mas tínhamos amigos em comum. Nos formamos e, depois de alguns anos, nos reencontramos. Casamos em 2006 e, em 2008, com a ideia de investir em algo mais autoral, criamos a Fetiche.
PAULO BIACCHI - Trabalhávamos em escritório, uma coisa bem comercial. Algumas ideias em que acreditávamos, não iam para frente. Então pensamos: 'e se a gente peitasse nossas ideias'? Foi ai que veio a ideia de produzir as peças, pagar e vender. Começamos com nosso mobiliário para mostrar nosso desenho, nosso potencial. Na verdade não sabíamos direito o que queríamos. Produzíamos coisas novas, que às vezes davam certo, às vezes davam errado. Foi somente com o tempo, depois de muita experimentação, que chegamos à identidade que temos hoje.
A primeira experiência com o mercado foi uma loja que abrimos na Rua Vicente Machado. O objetivo era montar um escritório e embaixo expor nosso trabalho. Promovíamos muitos vernissages. As pessoas entravam e diziam ‘nossa vocês são vanguarda, são lindos’, só que não compravam nada. Em dois anos, vendemos apenas duas peças.
CAROLINA ARMELLINI - Pode parecer dinheiro jogado fora, mas na verdade foi um investimento. Fomos à rua, demos a cara à tapa e a coisa funcionou muito bem. Em uma daquelas confraternizações, o pessoal da Micasa nos descobriu. Apareceu um cara por lá e perguntou: ‘vocês já vendem essa cadeira em algum lugar? Não? Querem vender lá?’ E claro, topamos.
CA - Lendo para o mestrado, descobri um artigo do designer Rafael Cardoso, “Design, cultura material e o fetichismo dos objetos”. Resumindo, nesse artigo ele defende que os designers deveriam usar mais esse lado fetichista dos objetos, ou seja, acrescentar valores aos produtos além do funcional e do estético. Eu adorei o que o cara estava defendendo e tinha muito a ver com o trabalho que fazemos. Todos os nossos produtos têm uma base forte de conceito. No final, nem sempre o produto tem esse conceito claro, mas ele tem essa base forte. Então o fetiche é isso, é essa definição do ter conceito. E o nosso trabalho tem muito a ver com isso.
PB – A coleção Pai João, baseada na cultura popular que envolve essa entidade, é um exemplo. São bancos artesanais, de trama de tabôa, mas demos uma nova roupagem à trama usando material plástico, industrial. Há quase um conflito, é como se fosse o preto velho vestido de Armani, como a gente costuma brincar. Demos outro status para as peças, um acabamento melhor, remetendo ainda a essa coisa lowtec, só que tem uma aparência hightec.
IVT - Qual a importância da parceria com a Micasa?
CA - Quando começamos, éramos exclusivos da Micasa. A linguagem dos produtos deles é a nossa linguagem. Eles foram nossa porta de entrada para o mercado nacional. Depois, outras marcas acabaram convidando a gente. Às vezes não só pra desenhar, mas também pra fazer curadoria de coleção, consultoria de tendência. Então nosso leque acabou abrindo bastante, só que sempre nessa linha design-tendência-mobiliário e com o diferencial Fetiche.
IVT - Em uma entrevista, vocês mencionaram que, enquanto o Paulo se dedicava ao desenvolvimento de produtos, a Carolina era mais focada em pesquisas científicas voltadas ao design. Isso, de alguma forma, ainda se reflete no processo criativo de vocês? Há uma divisão de tarefas?
CA – Acho que sim. O Paulo acaba sendo o diretor de criação. O desenho, o rascunho das formas começa com ele. Eu já sou mais voltada à pesquisa, estou sempre buscando tendências e acabo cuidando de detalhes como ‘ah, então vamos colocar essa fivelinha diferente’. A conceituação, no entanto, fazemos juntos, conversando.
PB - É algo dinâmico, complementar.
IVT - Como Curitiba influencia o trabalho de vocês? Por que manter o escritório aqui?
CA - Curitiba é agradável. Apesar de nosso mercado de venda estar principalmente em São Paulo, lá seríamos apenas mais uma marca entre tantas. O fato de sermos curitibanos é interessante para eles, são outras referências. Se você é de fora do eixo, é difícil entrar, mas se você entra, é legal, porque se torna um diferencial.
IVT - Vocês devem ter clientes de Curitiba que compram lá, né?
CA - Ah sim, com certeza. A loja na Vicente Machado, pouca gente ia conhecer. Aí você começa a sair nas revistas de São Paulo, as pessoas olham e falam ‘aaah, são daqui’.
PB – É uma característica de Curitiba e acho que do Brasil também. Precisamos aparecer em blog de fora para sermos notados aqui.
IVT – E no mercado internacional, qual a grande dificuldade para o design brasileiro?
PB - O Brasil é competitivamente inferior em relação à tecnologia de produção estrangeira. Hoje eles enxergam o mercado brasileiro como o design dos irmãos Campana, um design mais artesanal e menos técnico. Tem essa disparidade de fazermos um bom trabalho e eles falarem ‘será que eles vão conseguir’? Conceitualmente, podemos ver tudo na internet, navegar, pesquisar, mas na hora de produzir ainda não desenvolvemos uma tecnologia à altura.
IVT – Quais os projetos futuros da Fetiche?
PB - Ainda para este ano, estamos preparando nova coleção própria, além de estarmos desenvolvendo produtos para outras para marcas como Schuster, Tok&Stok, Holaria, La Lampe, e uma exclusiva para o Clube de Colecionadores de Design do MAM-SP.
CA - São projetos totalmente diferentes, uns comerciais, outros mais artísticos, mas sempre com o conceitual bem desenvolvido. Na prática, é muito gostoso trabalhar dessa forma. Conseguimos ter uma variedade e, deste modo, nos obrigamos a pesquisar esses dois universos. Um alimenta o outro: o conceitual adaptado ao industrial, e a agilidade industrial usada a favor do conceitual.