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A Bailarina - por Nath Cardozo
Capítulo 8
Intervalos como aquele aconteceram todos os dias, até o final daquela semana. Foi a mesma coisa na quarta, e na quinta, e na sexta…
E eu me lembro muito bem da sexta-feira.
Eu já estava no refeitório com as meninas e James era o único menino na mesa com a gente. Estávamos conversando normalmente; eu já estava um pouco acostumada com a presença deles, eram diferentes do que eu pensava. Soph estava do meu lado e falava qualquer coisa sobre o Joe, a sensação da escola. Uma das sensações, na verdade. O assunto foi interrompido pelos garotos que chegavam e nos cumprimentavam. Arthur, que estava do outro lado, deu a volta pela mesa para se sentar na cadeira vaga do meu lado.
— Arthur? – Chay o chamou e ele parou bem atrás da minha cadeira, olhando para o amigo. – A chave do seu carro está comigo. – Chay, que estava de frente para nós dois, colocou a mão no bolso e tirou um chaveiro cheio de penduricalhos e bem barulhento, esticando-o para Arthur. E então, tudo ao meu redor pareceu sumir. Arthur curvou seu peitoral sobre mim e apoiou uma mão na mesa, pegando o chaveiro com a outra. Foi totalmente rápido, mas ainda assim intenso; eu conseguia sentir sua respiração bater contra o meu cabelo me causando arrepios da cabeça aos pés. Arthur era intenso, eu não poderia negar isso a ninguém. Mesmo com uma atitude tão rápida que poderia ser quase imperceptível, eu senti aquele frio avassalador na barriga. Como ele fazia aquilo? Eu podia sentir seu cheiro extremamente forte, mas extremamente agradável. Um perfume terrivelmente bom que me fez viajar por poucos segundos, mas fez.
— Poderíamos fazer alguma coisa no final de semana – Diego disse brincando com o canudo de seu suco. As coisas estavam ficando um tanto avançadas já, e a escola inteira havia notado; todos comentavam sobre os garotos estranhos que agora andavam com as quatro garotas que não tinham muito a ver com eles. Como se fosse o fim do mundo ou qualquer coisa parecida.
— O quê, por exemplo? – Mel perguntou meio entediada e seus olhos castanhos pareceram mais escuros naquele momento.
— Hum, não sei! Algum pub, restaurante, ou a casa de alguém que esteja liberada, contanto que a gente faça algo… – Diego tentou parecer indiferente e eu notava seus olhares constantes para Arthur, e algo me dizia que eles estavam tentando se comunicar.
— Bom, por mim tudo bem. – Ray disse sorrindo para ele.
— Por nós também. – Charlie disse em uma voz afetada e abraçou Matt passando a mão pelo peitoral dele arrancando risadas de todo mundo.
— Bom, pra vocês quatro – Soph apontou para Arthur, Micael, Chay e James – tenho certeza de que está tudo certo e pra mim também. – E dez pares de olhos se voltaram para mim. – É, bailarina, agora é com você… – Ela me sorriu irritantemente.
— Eu… não posso! – disse sentindo um peso estranho dentro de mim. – Tenho que treinar, fiquei a semana inteira longe da barra e das sapatilhas e se nesse final de semana eu não treinar pelo menos seis horas por dia, minha mãe surta e acreditem, minha mãe já não é legal quando está normal, imaginem surtada. – Explicações demais para uma simples pergunta. Eu estava nervosa e patética.
Nesse momento, Sophia me lançou seu olhar mortal e eu sabia que eu iria ouvir mais tarde. Ela com certeza iria me dar um belo de um sermão por estar dando um bolo em todos eles.
— Podemos deixar para outro dia então – Arthur disse meio desapontado.
— Não, sério… Vocês não precisam fazer isso só porque eu não vou, eu posso ir numa outra vez, mas não desmarquem isso.
— Olha, a gente nem tava tão a fim de fazer alguma coisa, não se preocupa, Lu. – Micael sorriu e eu reparei que seu timbre de voz era engraçado. – Não é, gente?
— Sim, claro! – Chay concordou prontamente. – Eu acabei de lembrar que tenho coisas pra fazer nesse final de semana. – Chay não era muito bom em mentir, é claro que tinha alguma coisa muito estranha naquilo tudo.
— Então, nada marcado para esse final de semana, o que é realmente uma pena. – Diego olhou novamente para Arthur e se eu não fosse extremamente controlada, teria deixado minha curiosidade falar mais alto e perguntaria o que estava acontecendo.
— Desculpem! – Eu mordi meu lábio em insegurança e quase pensei em contornar a situação com a minha mãe, dando alguma desculpa muito cretina pra não ter que treinar. Realmente, não era uma má idéia, mas eu, ainda assim, achei melhor dedicar meu final de semana ao meu mundinho cor-de-rosa e cheio de música clássica.
— Relaxa, finais de semana não vão faltar. Contanto que você realmente vá… – Eu olhei para Arthur e cada palavra sua era como ouvir Muse por vinte e quatro horas seguidas: absurdamente agradável. Seus olhos estavam castanhos, mas num tom escuro; eu conseguia ver perfeitamente cada detalhe de suas íris. – É o que importa – ele disse convicto, mas tão vidrado em meus olhos quanto eu estava nos dele. Percebi a grande tensão que nos envolvia e voltei à minha sobriedade.
— É… eu acho que sim – respondi insegura.
Depois de alguns poucos minutos conversando sobre qualquer outra coisa que não fosse o final de semana que eu havia acabado de estragar, o sinal finalmente bateu e eu não tinha certeza se estava pronta para a aula de geografia ambiental. Eu não sabia o que era pior: ouvir o sermão da Sophia ou ficar desconfortavelmente estática por cinqüenta minutos dentro de uma sala de aula.
— Vamos para a aula? – Arthur chamou já se levantando da cadeira. Naquela hora eu soube o que o pior com certeza não era ouvir um sermão da minha melhor amiga.
— Na verdade, a Soph quer conversar comigo, então você pode ir na frente – respondi desconfortável e ele só assentiu com a cabeça.
E eu preparei meus ouvidos e meu psicológico enquanto me levantava da cadeira e caminhava até a Sophia.
A Bailarina - por Nath Cardozo
Capítulo 7
História e inglês haviam, em partes, sido aulas rápidas naquela terça. Minha mente se manteve bem ocupada com Rei Henrique VIII, Ana Bolena e normas gramaticais. O sinal para o intervalo bateu e eu saí da aula de inglês indo diretamente para o refeitório. Eu estava com um pouco de fome, mas não sei se o suficiente para encarar qualquer coisa que saísse daquela cozinha ou para comprar alguma coisa totalmente junk da cantina. Ainda pensando no que eu colocaria no estomago, caminhei pelo corredor, me encontrando com a Soph, que guardava o material no armário.
— E aí, cocota? Prestou atenção na aula de história, ou o Senhor Arthur Aguiar continuou te assombrando? – ela debochou de mim, daquele jeito que só ela sabe fazer.
— Ai, sua chata, chega desse assunto! – Dei língua enquanto ela me abraçava e caminhávamos para o refeitório. – Já deu o que tinha que dar…
— Ou não… – Sua fala ficou pela metade, quando olhei para a mesma direção que ela estava olhando: a nossa mesa. E tinha muita gente naquela mesa, diga-se de passagem. Muita gente mesmo. Além da Ray e da Mel, tinham mais sete pessoas, sete garotos na verdade. Incluindo ele, o Arthur. Senti que o refeitório se mexia ao meu redor, só de pensar que eu teria que me sentar na mesma que ele. Eu tinha que parar com aquela paranóia idiota. Aquelas sensações estranhas eram coisa da minha cabeça, eu tinha certeza disso. Eu iria seguir à risca os conselhos da Sophia: nada de sofrer por antecipação, deixar rolar, deixar acontecer. Eu só precisava botar isso em prática, e aí é que a coisa complicava. Porque, teórica e praticamente, não tinha o que deixar acontecer. Porque tudo já estava acontecendo rápido demais, e eu estava cada vez mais confusa. Arthur e eu nunca havíamos sido próximos nem nada do gênero. Só havíamos interagido em uma festa, há muito tempo. Eu me lembro perfeitamente de estar encostada na parede com uma garrafa de cerveja na mão, enquanto ele se aproximava – bêbado, deixando bem claro – sorrindo para mim.
“Belas pernas”, ele disse. E segundos depois, balançou a cabeça negativamente com uma expressão meio desesperada e automaticamente, ficou um pouco sóbrio. Ele saiu de perto de mim meio perturbado e eu nunca pude entender o que aquilo significou. Mas fora isso, nunca tivemos qualquer vinculo ou o que fosse. E eu tentava me convencer de que não era nada, porque uma pessoa não pode se encantar por outra em menos de vinte e quatro horas… ou pode?
— Lu? Você vai ficar paralisada aqui, bem no meio do refeitório? – Sophia me tirou daquele pequeno transe segurando meu braço e me puxando em direção à mesa.
— Soph… – eu disse com o estômago revirado e quase congelado. – Não, não me leva pra lá.
— Oi? – Ela parou bruscamente e me olhou incrédula. – Você tá brincando comigo, né?
— Não, eu não estou brincando com você. – Eu estava provavelmente muito pálida, com o coração acelerado e as pernas bambas. Era difícil de respirar e principalmente de pensar.
— Lua, pelo amor de Deus… se você desmaiar nesse refeitório, eu juro que te bato quando você acordar. É só o Arthur, um garoto como outro qualquer, você não está seguindo o que eu te falei. Você deve estar muito apaixonada por ele mesmo, olha só pra você… – Ela quase gritava, e eu jurei que se ela falasse alto mais uma vez, quem ia apanhar ia ser ela. – Pára com esse drama, sua boba. Você vai sentar lá e vai tratar ele como um garoto qualquer, porque é isso o que ele é pra você, não é? Um garoto como outro qualquer, você mesma fez questão de deixar isso bem claro pra mim. – Ela segurou em meus ombros e se abaixou um pouco para poder olhar nos meus olhos. Me tratando como se eu fosse uma louca. – Agora respira, e vamos pra mesa.
— Tá, eu respiro e a gente vai pra mesa. – Eu respirei e fomos pra mesa. E a cada passo que eu dava, eu tentava me convencer de que eu não tinha que estar daquele jeito por causa dele. Porque em dois anos de colégio ele nunca havia feito diferença nenhuma pra mim e não ia ser no inicio do terceiro ano que isso iria mudar. Não mesmo; ele era só mais um garoto no meio de tantos. Era puro encantamento passageiro… Eu já havia passado por aquilo antes, toda garota passa. Eu sabia que logo, logo eu nem ia mais me lembrar de quem era Arthur Aguiar. E a mesa estava cada vez mais perto…
— Ai, por que vocês duas demoraram tanto, hein? – Ray levantou da mesa quase histérica e puxou eu e Soph, cada uma por uma mão, até a mesa. – Eu quero apresentar os meninos pra vocês. Micael, Arthur, Chay, Diego, Charlie, Matt e o Jimmy. – Ela apontou para todos.
— Oi! – eles disseram em couro.
— E essas são Lu e Soph. – Ela apontou para nós duas. Estava sendo menos difícil do que eu imaginava…
— Eu a conheço. – Arthur se pronunciou apontando para mim. – Temos aula de latim e de geografia ambiental juntos. – Naquele momento as coisas se complicaram mesmo que minimamente, mas se complicaram.
— Ah, sim… Eu vi vocês dois bem íntimos ontem na arquibancada. – Nesse momento, eu olhei para Sophia e não soube ler sua expressão. Era um misto de sorriso malicioso com susto, pois ela tinha os olhos arregalados. Ela apertou meu braço como que em um sinal para que eu ficasse calma e nós nos sentamos de frente para eles. Meu maior desejo era matar Ray lenta e dolorosamente, pela vergonha que me fez passar.
— Bom, nós não estamos íntimos… ainda – ele sorriu e enfatizou a última palavra e os meninos se manifestaram, daquela forma totalmente masculina e infantil. Eu ouvia as risadinhas das meninas e sentia ainda mais vergonha. Arthur olhou pra mim e seus olhos estavam sorrindo juntamente com sua boca. Eu sorri de volta, um sorriso amarelo. Ele percebeu o quão sem graça eu estava e tentou amenizar a situação. – O que vocês acharam do jogo de ontem? – E a cacofonia começou. Todos falavam muito, principalmente os meninos, que contavam sobre os gols e as melhores jogadas. Eu apenas concordava vagamente com algumas coisas que me diziam, ou dava respostas monossilábicas às perguntas que exigiam mais do que um simples aceno com a cabeça.
Comecei a reparar mais atentamente em Arthur, com cuidado é claro, para que ele não percebesse. Ele se divertia com os amigos, gargalhavam alto e conversavam de um jeito meio engraçado, cheios de piadas. Eu sorri involuntariamente e olhei para baixo e, de repente, me ocorreu que eu não me importava tanto assim que ele assombrasse os meus pensamentos. Era uma assombração um tanto quanto agradável. Gostar de pensar nele não significava que teríamos algo, era apenas abstrato. Ele não era para mim, não mesmo…
A Bailarina - Por Nath Cardozo
Capítulo 6
Terça-feira não era meu dia preferido da semana. E eu não digo isso por ser o segundo dia de aula da semana e sim, porque a minha primeira aula é cálculo. Não importava se na terça minha aula de cálculo era com a Sophia, eu nunca estava disposta a encarar polinômios. Eu os detestava, na verdade. Eram tão chatos e cansativos quanto o Sr. Connors, que parecia mais velho do que a escola. E a Sra. Anne tinha mais de cem anos, diga-se de passagem.
Mas eu estava começando a gostar de ir pra escola, porque de alguma forma, ela me parecia mais atrativa. De alguma forma que eu não sabia explicar, por algum motivo que me era desconhecido – ou eu pelo menos pensava que fosse. E aconteceu mais rápido que eu esperava que fosse acontecer. Menos de vinte e quatro horas; eu devo ter batido algum recorde de ter queda por um garoto no menor intervalo de tempo possível.
Eu apoiei minha cabeça em minha mão, e minha mente foi para longe. Talvez não tão longe assim; vagava pelos corredores do colégio, buscando uma pessoa em especial. Eu nunca tinha controle sobre os meus pensamentos, eles nunca, nunca mesmo me obedeciam. E isso nem sempre me agradava, ainda mais quando eu ficava totalmente perdida em um universo paralelo.
Respirei fundo voltando à minha cruel realidade da aula de cálculo. Olhei para o lado e Sophia olhou para mim no mesmo minuto. Mantivemos o contato visual por alguns minutos, até que ela resolveu falar.
— Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu? – perguntei confusa.
— Não sei, quem tem que me responder é você – ela sussurrava. – Você está toda aérea, fica se mexendo o tempo todo, e olha para mim com uma cara de quem quer contar alguma coisa…
— Eu? O que eu teria pra te contar? – Arregalei meus olhos tentando entender a falta de sentido naquela situação.
— Não sei… Quem sabe algo sobre Arthur Aguiar. – E lá estava seu sorriso malicioso quando insinua algo.
— Eu acho que você tem problemas…
— Eu acho que você está a fim dele – ela disse naturalmente, como se estivesse dizendo algo do tipo “Oi, meu nome é Sophia e eu tenho sérios problemas mentais”. – Bufei um pouco alto e virei para frente, tentando entender aquelas porcarias de números que não faziam sentido nenhum.
— Ah, por favor, Lua! – Soph exclamou sarcástica. – Você vai mesmo fingir que Briot-Ruffini é mais interessante que Arthur Aguiar? – Ela riu da minha cara, como se fosse algum absurdo eu tentar prestar atenção na aula.
Respirei fundo tentando absorver o máximo de ar que meu nariz me permitisse, e olhei para ela de novo, mas com uma expressão não muito amigável no rosto.
— Vale a pena dar uma chance. – Ela sorriu e virou-se para frente, para terminar de copiar toda aquela besteira que estava na lousa.
É claro que eu não poderia nem ao menos pensar em considerar o que ela estava dizendo; eu e Arthur Aguiar não éramos iguais e nem ao menos tínhamos algo em comum. Era como se vivêssemos em mundos diferentes; ele, preso ao mundo da banda dele, ficando com todas as garotas que ele quisesse; eu, no meu mundo cor-de-rosa e cheio de ballet, me lamentando por um ex-namorado totalmente idiota. Não fazia o menor sentido o que ela dizia, é claro que não fazia.
— Eu acho que você é louca, sabia? – Olhei para ela de novo, mas dessa vez foi por impulso.
— Talvez eu seja louca, mas você me disse na aula de literatura ontem que Arthur Aguiar te deixava sem ar… Isso faz de mim apenas cinqüenta por cento louca, porque essa parte da história eu não inventei.
— Mas eu não sei por que isso aconteceu. Você me perguntou o que aconteceu, e eu respondi. Ele me deixou toda bagunçada desse jeito, mas sem nenhum motivo aparente. Eu o vejo nessa escola desde sempre e nunca havia ficado assim. É claro que não tínhamos aulas juntos, eu mal chegava perto dele. Mas… Ai, não sei! Você quer, por favor, parar de me deixar confusa!?
— Lua, pára de ser idiota. Você e a escola inteira sabem que Arthur Aguiar é a fim de você desde o primeiro ano. – Tá, isso eu realmente não sabia. Quero dizer, eu até sabia, mas ele era a fim de todo mundo, por isso não dei importância.
— Sim, exatamente como ele sempre foi a fim de qualquer outra garota dessa escola. Nada disso vai dar em alguma coisa, Sophia. Ele simplesmente resolveu atirar pros lados que ainda não acertou, e acredite, eu não vou ser um alvo. – Ela deu de ombros fazendo com que eu me sentisse um pouco mal por estar julgando a situação de uma maneira irresponsável. Tentei ignorar aquela sensação chata e voltei a prestar atenção na aula. Talvez, divisão de polinômios fosse realmente interessante. Eu só precisava de um pouco de concentração; será que o Arthur gosta de matemática? E lá se vai a minha concentração…
Respirei fundo e olhei pro relógio; dois minutos e Briot-Ruffini se tornaria passado. E então, seria a hora de encarar a gramática da Sra. Simone, o que eu achava bem mais interessante do que ter que encontrar o resto e o quociente de um polinômio idiota. Eu ouvi o sinal e sorri internamente, eu sempre fazia isso quando a aula estúpida de calculo acabava. Levantei rapidamente da cadeira e saí da sala, esperando Sophia no corredor.
— Lu… – ela disse e se aproximou de mim, me abraçando. – Não fique assim, meu bebezinho. – Ela era meio estranha, mas acho que era exatamente por isso que ela era minha melhor amiga. – Olha, você se preocupa demais com essas coisas. Deixa fluir, acontecer, sabe? Pare de se martirizar tanto por uma coisa que ainda não aconteceu. Eu sempre te digo isso, mas você é teimosa demais pra me escutar. – E ela apertou minhas bochechas, como sempre.
— Tá, eu vou tentar, prometo. – Nos afastamos e começamos a andar em direção à nossa próxima aula. – Você ta certa, eu não tenho que sofrer por antecipação, não é mesmo? Afinal, é só um sorriso bonito, e eu fiquei surpresa com o cavalheirismo dele, só isso. Eu realmente não estou a fim de namorar alguém da escola… de novo.
— Por causa do Gabriel?
— Por causa do Gabriel e de todos os garotos que eu já namorei ou fiquei, que só foram da escola.
— Qual o problema com os garotos da escola? – ela perguntou um tanto afetada.
— Não sei, eles parecem ter a cabeça no lugar errado, se é que você me entende… – Meu tom transbordava tédio.
— Hum, eu entendo – ela respondeu indiferente. – Mas o Arthur pode ter a cabeça no lugar certo. – Seu sorriso malicioso e seu tom provocativo eram especialmente para me irritar. Ela não se esqueceria desse meu surto momentâneo por Arthur Aguiar tão facilmente. Mostrei a língua pra ela e entrei na aula de história. Tédio total para o meu estado de espírito.
A Bailarina - Por Nath Cardozo
Capítulo 5
Chegamos ao campo que ficava atrás da escola e alguns garotos com o uniforme do time já se aqueciam. Vi dois dos amigos do Arthur, mas não sabia quem eram, eu não havia decorado os nomes. Naquele momento me ocorreu que talvez, Arthur também fosse jogar, mas o problema realmente não era esse. O problema era por que ele estava fazendo tanta diferença assim para mim. Só porque eu comecei a notar o lindo sorriso que ele tinha? Não fazia sentido nenhum, mas o fato de que dali algumas semanas tudo aquilo passaria me confortava bastante. Respirei fundo e sentei na arquibancada cimentada juntamente com as meninas. O campo ia se enchendo de garotos a cada minuto. A camiseta era branca com o emblema do colégio e o shorts era preto, exatamente como o uniforme. O grande jogo contra o “Colégio Rival” seria em algumas semanas e todos estavam se preparando.
— Não sabia que o nosso colégio tinha garotos tão lindos – Ray disse sorrindo maliciosamente olhando em direção ao campo.
— Eu sempre soube. – Mel sorriu da mesma forma. – O James é a prova disso.
— Acho que você está apaixonada – Soph disse apertando as bochechas dela; sua mania adorável de machucar o rosto das pessoas com seu excesso de carinho.
— Eu também acho… – Minha frase fora interrompida por uma mão que tocou meu ombro. Olhei para trás e lá estavam aqueles olhos que me perseguiram o dia inteiro. Tão castanhos quanto da última vez que eu havia visto.
— Você pode segurar para mim? – Arthur Aguiar me sorriu encantadoramente – como sempre – estendendo seu uniforme da escola dobrado desajeitadamente. – Eu pego com você depois do treino, ok? – Ele piscou e sorriu mais uma vez, descendo a arquibancada e indo em direção ao campo.
Não tive tempo de responder ou ter qualquer reação, ele simplesmente se foi. Fiquei algum tempo naquela realidade paralela e sem sentido. Olhei para o lado e vi aqueles três pares de olhos totalmente curiosos e tão chocados quanto os meus.
— Oi? – Arqueei uma sobrancelha esperando que elas voltassem ao normal.
— Desde quando você e Arthur Aguiar conversam? – Ray perguntou interessada.
— Isso não foi uma conversa, ele só me pediu para segurar as roupas dele. – Era óbvio, não?
— Ah, claro. Lua, ele estava no vestiário, onde provavelmente ele tem um armário com o nome dele para que ele possa guardar suas roupas. Qual o interesse dele em querer que você segure as roupas dele? É claro que tem coisa aí. – Sophia era sempre cheia de argumentos. Argumentos fortes, diga-se de passagem.
— Certo, não vou discutir isso com vocês. – Voltei a olhar para o campo a minha frente. Ele estava lá, se aquecendo, ora me olhando, ora comentando algo com algum de seus amigos. Eu mexia freneticamente na barra da camisa que estava em minhas mãos e um cheiro maravilhosamente bom chegou até meu nariz. Era o cheiro dele, do perfume dele. Era tão viciante e encantador quanto seu sorriso. Eu trouxe a peça para mais perto do meu rosto para poder sentir melhor. Sorri involuntariamente ao ter certeza de que ele realmente cheirava bem. De repente, percebi que ele me olhava e ao mesmo tempo sorria. Senti uma vergonha súbita tomar conta de mim, ao perceber que ele estava me observando cheirar sua camisa e sorrir ao sentir o cheiro dela. Ele sorriu mais abertamente e eu retribuí antes que ele entrasse no jogo. Respirei fundo e percebi que as meninas me observavam naquele momento um tanto constrangedor. Sacudi a cabeça negativamente, dando a entender que conversaria com elas mais tarde e elas assentiram e, sincronizadamente, viraram sua cabeça para frente.
E o jogo começou…
Nunca pensei que futebol pudesse ser divertido, eu sempre odiei. Já estava no final do segundo tempo e o jogo estava empatado em 4 a 4. Arthur era incrivelmente bom e dominava boa parte do jogo. Faltavam quarenta e cinco segundos para o fim, e Arthur estava do seu lado do campo, driblando quase todos os adversários para poder chegar ao gol. Eu via seus pés praticamente dançarem com a bola enquanto ele se esquivava de tudo, e de vez em quando, passava a bola para Micael Borges – o nome estava escrito na camisa – que o devolvia. Nesse revezamento, mais alguns poucos segundos haviam se passado, e todos estavam com medo de que o gol não fosse feito. Eu estava aflita, torcendo para que ele chegasse, mas três adversários o marcavam e foi quando ele devolveu a bola a Micael Borges, e de uma forma que meus olhos não puderam acompanhar, ele estava perto do gol com a bola novamente em seus pés. E então, ela entrou perfeitamente no gol, fazendo o ponto de vitória do time dele. Nem meio segundo depois, o jogo acabou. Todos começaram a gritar e correram para abraçar ele, que havia feito seu terceiro gol no jogo. Seis garotos se jogaram em cima do Arthur, enquanto tiravam suas camisas e as jogavam para o alto, comemorando. Eu sorria involuntariamente assistindo a alegria deles, enquanto o campo ia ficando cada vez mais vazio, assim como as arquibancadas. Soph, Mel e Ray levantaram-se e eu fiz o mesmo, mas continuei parada, esperando Arthur Aguiar. Ele vinha em minha direção; alguns fios de cabelo grudados na testa suada; o peitoral branco, largo e brilhoso de fora; a expressão séria e os olhos penetrantes. Por alguns segundos, eu havia me esquecido de como se respirava, até que ele parou na minha frente. Entreguei suas roupas dobradas corretamente por mim, e ele sorriu tão abertamente que até seus olhos sorriram dessa vez. Incrível como ele conseguia ser encantador a cada vez que nos víamos.
— Obrigado – ele disse mantendo o sorriso. – Acho que vou pedir para você fazer isso mais vezes. – Eu não estava entendendo mais nada. Aquele dia estava sendo terrível e agradavelmente confuso para mim. Eu não entendia os garotos, muito menos se algum deles se chamasse Arthur Aguiar.
— Por que? – perguntei idiotamente. Alguma coisa tinha que fazer sentido naquele dia maluco.
— Pretexto para poder te agradecer dessa forma. – Ele aproximou o rosto do meu lentamente, colocando uma mão em minha bochecha, fazendo com que seus dedos se encaixassem em meus cabelos. Vi sua boca se aproximar de mim, em direção a minha outra bochecha, tocando-a suavemente, de uma forma que despertasse calafrios que eu nunca havia sentido antes. Não sei se foi rápido ou demorado. Parecia rápido, pois quando ele se afastou, eu senti falta do toque; mas parecia demorado, porque cada segundo foi intenso, como se demorasse mais do que um beijo normal na bochecha realmente duraria.
Ele sorriu para mim e seguiu seu caminho, enquanto eu continuava estática, viajando para um mundo muito além do campo de futebol do colégio. E de repente, Sophia e suas possibilidades tomaram conta dos meus pensamentos…
A Bailarina - Por Nath Cardozo
Capítulo 4
Respirei fundo sacudindo minha cabeça negativamente, pensando que prestar atenção no professor seria muito mais produtivo do que continuar minha conversa com a Sophia. Ela sempre arrumava um jeito de me convencer com seus argumentos fortes. A aula de literatura não havia sido das mais rápidas naquele dia.
Na aula de inglês, Mel e Ray pareciam bem entretidas conversando sobre James Bourne e companhia; era melhor, eu podia me frustrar em silêncio sem ter que colocar pra fora ou contar o que havia acontecido. De alguma forma que eu não sabia explicar, Arthur Aguiar estava me perturbando naquele dia. O sorriso, o peitoral largo, a pele branca, os olhos castanhos, a voz, tudo, exatamente tudo estava me assombrando. Qualquer lembrança sua me desconcentrava naquele dia e eu não podia fazer nada. Era quase tão automático quanto minha rotina diária. Simplesmente chegava e tomava conta de toda a minha atenção. Eu estava começando a ficar preocupada, quando Mel estalou os dedos na frente do meu rosto, me chamando para o intervalo.
— Lu, ta tudo bem? – ela perguntou devagar. – Já está na hora do intervalo, vamos? – Disse. Sacudi minha cabeça e me levantei, seguindo-as para fora da sala.
O caminho foi um tanto perturbado; eu sabia que poderia encontrá-lo a qualquer momento e eu realmente não queria parecer uma retardada mental quando ele aparecesse na minha frente. Chegamos ao refeitório e Sophia já estava na mesa em algum canto com sua bandeja. Continuei meu caminho para a mesa, sentindo que estava sendo observada, mas com medo de procurar quem estava me olhando. Sentei de frente para Soph me sentindo um pouco assustada com tudo aquilo.
— Você não vai comer? – Ela levantou uma das sobrancelhas usando um tom de voz meio autoritário.
— Tô sem fome – respondi olhando para o nada.
— Ainda por causa do Arthur Aguiar? – ela perguntou indiferente.
— Não, é claro que não. – Eu estava um pouco alterada. – É só que… não sei, não estou com fome e pronto. – Cruzei meus braços ficando séria.
— Se você diz, eu acredito. – Ela deu de ombros. – Mas o que você faria se eu dissesse que ele está olhando pra você sem nenhuma intenção de disfarçar? – Ela sorriu maliciosamente e eu senti meu estômago embrulhar ainda mais.
— Como? – Eu sabia que estava pálida, eu tinha certeza. Eu sempre sei quando estou pálida.
— Arthur Aguiar está sentado no outro canto do refeitório, de frente para nós, e está te olhando descaradamente – ela disse naturalmente. – E ele sabe que eu estou falando dele para você, porque ele começou a sorrir, assim que eu o olhei e falei com você. Olha pra ele, Lu.
— O que? Você é louca? – Perguntei com as sobrancelhas erguidas.
— Lua, olha logo pra ele… – E eu o fiz. Eu o olhei e ele sorria abertamente. Mesmo de longe, seus olhos eram estranhamente encantadores e atraiam os meus, como se fossem ímãs.
— Acho que ele está a fim de você. – Sophia sorriu e voltou a comer quando Mel e Ray retornaram à mesa.
Achei melhor não comentar nada para não ter que explicar o que eu mesma não entendia. Complexidades têm que ser resolvidas em particular, quando eu estou apenas comigo mesma, e a mesa do refeitório realmente não era um lugar bom para se tentar entender algo que era completamente confuso. E todo o intervalo foi completamente silencioso, pelo menos para mim. A única coisa que eu ouvia era meus pensamentos ou os ecos das vozes das pessoas, que não faziam sentido algum. Passei o resto do dia vegetando, eu me sentia totalmente cansada por ter treinado até tarde na noite anterior. A aula de história foi tão cansativa quanto a minha mãe e a de cálculo tão chata quanto as frescuras dela. Eu ouvi o sinal tocar e agradeci por ser a última aula.
Dirigi-me, pelo corredor, até a sala de geografia ambiental com uma sensação um pouco melhor, aquela sensação de alívio por serem os últimos cinqüenta minutos em sala de aula.
Eu entrei na sala e toda a sensação boa havia ido embora. Desde quando Arthur Aguiar tem aula de geografia ambiental no mesmo horário que eu? Eu não sabia responder essa pergunta, eu só sabia que aquela aula seria tão desconfortável quanto a primeira, a aula de latim. Respirei fundo e fui até meu lugar, que dessa vez, não era do lado dele, mas sim, na frente dele, bem na frente dele. Fiquei os cinqüenta minutos desconfortavelmente paralisada, com medo de me mexer. Eu tinha medo de não conseguir controlar minhas ações e acabar olhando para a camisa branca com os dois primeiros botões abertos, o que combinava com a gravata preta afrouxada e os cabelos arrumadamente bagunçados. Viajei a aula inteira em pensamentos e, conseqüentemente, não entendi nada sobre a complexidade do aquecimento global e do que podíamos fazer para retardá-lo.
O sinal enfim tocou e eu já estava pronta para sair da sala. Levantei-me rapidamente e saí pela porta, parando do lado de fora da sala, esperando pelas meninas que me encontrariam lá. Ele saiu da sala e me olhou daquela mesma forma da primeira aula, do refeitório. Virei o rosto e percebi que ele se afastou, indo na direção oposta.
— Lu? Ta tudo bem? – Mel perguntou e eu percebi que ela, Ray e Soph estavam lá, como que esperando alguma reação minha.
— Tá sim, eu só estou um pouco cansada. – Chacoalhei minha cabeça a fim de espantar Arthur Aguiar dos meus pensamentos. Aquilo não era bom.
— Então vamos, o treino dos meninos começa em alguns minutos. – Sophia me puxou e seguimos para fora da escola, indo pela direção que Arthur tinha ido.
A Bailarina - Por Nath Cardozo
Capítulo 3
O desconforto na aula de latim era assustador. Parecia que quanto mais eu rezava para que a aula acabasse, mais tempo os ponteiros do relógio levavam para se mover. Eu sentia alguém me observando, mas tinha medo de olhar em volta e procurar esses olhos que tanto insistiam em me fitar. Eu batia com a caneta em meu caderno sem conseguir entender o que o professor explicava. O barulho era repetitivo e insuportável; exatamente o que eu precisava para poder me distrair dos meus pensamentos que tentavam me induzir a olhar para o lado. Eu estava indo bem com minhas tentativas de distração, mas por um erro imprevisível, eu fracassei. Minha caneta, que meus dedos moviam freneticamente para cima e para baixo, escapou deles, caindo no chão, do meu lado direito. Senti-me tonta por um momento, com o pensamento de que eu teria que olhar para o lado. Arthur Aguiar estava me olhando analiticamente, enquanto eu me obrigava a desviar meus olhos dos seus para poder pegar minha caneta. Quando a ponta de dois dedos meus alcançaram-na, uma outra mão entrou em meu campo de visão, tendo mais sucesso em pegar o objeto do que eu tive. Pela rapidez dos fatos, o susto que me atingiu foi tão grande, que eu soltei a ponta da caneta, deixando-a suspensa apenas pela mão dele. Levantei meu rosto e percebi o dele tão próximo; ele era extremamente lindo. Sua pele branca parecia macia e convidativa para minhas mãos, seu nariz imperfeito equilibrava sua beleza e seus olhos eram de longe os mais lindos que eu já havia visto. Momentaneamente embriagada por sua beleza, eu sorri idiotamente.
— Obrigada – agradeci insegura quando ele me entregou a caneta. Voltamos às nossas posições eretas e ele sorriu aberta e encantadoramente, acabando com qualquer vestígio de sanidade que pudesse existir em mim. E eu me sentia mais patética a cada minuto…
Eu tentei prestar atenção na aula, trabalhei duro para me manter focada no latim, mas aquele sorriso dificultava as coisas. Por que ele tinha que ser tão lindo? Por que, além de lindo, ele tinha que ser um garoto de muitas garotas? Por que eu estava pensando nele daquela forma? Nós, definitivamente, éramos de universos opostos. Por que ele estava me deixando sem ar mesmo? Porque eu sou uma boba. Eu só estava encantada com o sorriso dele, nada mais.
Estava tão centrada em meus pensamentos que quase não ouvi o sinal tocar e dar fim à aula. Era como se eu pudesse respirar de novo. Levantei da cadeira com os livros na mão, indo em direção à porta. Andei calmamente; estava a poucos metros da saída quando um grupo de garotos apareceu de repente, obstruindo minha passagem. Parei subitamente, olhando aturdida para as costas de um deles. Fiquei imóvel, esperando que eles pudessem ter a educação de me deixar passar, mas aconteceu o que eu não esperava. E de novo, foi tudo muito rápido. Senti alguém atrás de mim também parar subitamente. Sua respiração bateu contra meus cabelos e eu me arrepiei. O grupo de garotos começou algum tipo de brincadeira, fazendo com que o garoto que estava de costas para mim viesse um pouco em minha direção. Instintivamente, recuei dando pequenos passos para trás, batendo minhas costas em um peitoral largo. Minha respiração se tornou algo impossível de ser controlado enquanto eu estava entre os dois garotos. Desejei mentalmente que o peitoral largo não fosse de Arthur Aguiar. Mas não funcionou; era ele atrás de mim. Por um instante, quando suas mãos se postaram em meus braços, achei que estivesse ficando louca. O contato delas era quente e arrepiou meu antebraço fazendo com que eu me sentisse totalmente vulnerável. Pedi com todas as forças que o grupo de garotos sumisse da minha frente, para que eu pudesse logo sair de lá. Aparentemente, funcionou, pois segundos depois o aglomerado se moveu para fora da sala e eu pude me soltar de Arthur, para seguir para a aula de literatura.
Meus passos eram apressados e minha respiração desuniforme. Era mais uma tentativa de distração; eu não queria pensar no que havia acontecido há alguns minutos. Eu andava automaticamente, como nunca tivesse me perdido por aqueles corredores. Avistei a sala de literatura esperando que Sophia já estivesse lá dentro. Respirei fundo, tentando montar o quebra-cabeça que estava me aturdindo. Dei mais alguns passos até entrar na sala e sentar na cadeira vaga ao lado da Sophia.
— O que aconteceu? – ela perguntou preocupada. – Você está pálida… Não que você tenha muita cor, mas seus lábios estão da cor da sua pele.
— Arthur Aguiar – respondi com a respiração descompassada. – Já reparou no quanto o sorriso dele é bonito?
— Hã? – Ela arqueou uma das sobrancelhas e sua expressão era totalmente confusa.
— Eu fiquei até boba, sabe?! – Olhei para o nada, meio que ignorando ela e me lembrando da aula de latim.
— Hã? – Ela repetiu.
— Sophia, qual é o seu problema? – Perdi toda a paciência que já quase não tinha naquele momento. – Ele se aproximou de mim hoje e ele sorriu, e eu fiquei tonta, ele me tocou e eu fiquei tonta, ele me olhou e eu fiquei tonta. Eu fiquei tão tonta que não consegui entender simplesmente nada da aula de latim; ele tirou toda a minha concentração.
— Espera! Você está querendo dizer que Arthur Aguiar te deixa meio retardada? – ela perguntou devagar, como se estivesse falando com uma criança.
— Se você prefere usar essa palavra para entender melhor, que seja… É isso mesmo!
— E por quê? – Sua expressão ficava cada vez mais confusa.
— E eu que sei? Estou tentando entender isso até agora… – Apoiei meu cotovelo na carteira, segurando minha cabeça com a mão. – Vai ver que é porque ele sabe muito bem como lidar com as garotas… Ou então, vai ver é porque eu sempre o achei bem gostoso, mesmo sendo um babaca.
— Ou não… – ela disse despreocupada, como se estivesse dizendo qualquer coisa natural. – Você nunca sabe das possibilidades que te aguardam.
— Possibilidades? Possibilidades, Sophia? Que possibilidades são essas? – perguntei meio grossa.
— Você vem perguntar pra mim? Tenho cara de vidente, por acaso? – Ela apontou os dedos indicadores para seu rosto. – O que eu estou dizendo é que você nunca sabe o que pode acontecer. Então antes de tirar qualquer tipo de conclusões, espere pra ver no que vai dar.
Nessa hora, meu queixo caiu. O Sr. Rodolfo já explicava qualquer coisa sobre a matéria, e eu e Sophia discutíamos possibilidades. Possibilidades? É, possibilidades.
— Esperar pra ver no que vai dar? – perguntei horrorizada. – Não vai dar em nada, isso sim. Eu não quero esperar pra ver no que vai dar, Sophia.
— Mas não é você que está aí, toda sem ar por causa dele? Será que você sempre foi apaixonada por ele e não sabia disso?! – Ela estava surpresa, como se tivesse feito alguma descoberta e como se o que ela estava falando fizesse algum sentido.
— Como é que é? – Levantei meu tom de voz, recebendo um olhar repreensivo do professor que escrevia alguma coisa na lousa. – Eu estou sem ar por causa ele? Quem te disse isso?
— Você mesma acabou de me dizer. Disse que ele te deixa sem ar, louca, desnorteada e sei lá mais o que…
— Mas eu não disse no sentido de estar apaixonada por ele, porque eu não estou… eu disse no sentido de estar surpresa por ele me deixar assim, porque ninguém nunca me deixou assim.
— Ah, entendo… – Ela olhou para o nada tentando buscar alguma explicação. – Ainda acho que você deveria esperar pra ver no que vai dar.