Melanie olhava para a mãe com um misto de sentimento de raiva, pena, rancor e nojo. Por um lado, queria ajudá-la, por outro, queria liquidar toda a raiva e sofrimento que passou. O acidente. Maldito acidente que fez sua vida entrar em um buraco enorme, (quase) sem volta. Mas a maior culpada por isso tudo não era a mãe de Mel, nem o carro estúpido e muito menos de Chay. A culpada era a vida. A vida que traçou todos os caminhos demasiadamente tortuosos e sofridos. O acidente, a dor e culpa de Chay, a negligência da mãe, a confusão de sentimentos de Melanie... O pequeno afeto por Arthur que quase destruiu a amizade que ele tinha com Chay, a indecisão, a falta de coragem, o rancor, a frieza e a mágoa que se apossaram de Mel involuntariamente. Será que ela (e ele também) merecia tudo isso? Seu cotidiano não girava em torno do seu infinito dilema amoroso, tinha também a escola, o resto de sua família e os amigos. Entre todos esses fatores, o único que ia de bom para melhor era o desempenho escolar. Toda a raiva que Melanie guardava era descontada em contas, problemas, redações... Seu terceiro ano comerçaria perfeito.
Faltando apenas uma semana para o ano novo, ela mal poderia esperar. Depois da lição que recebera de Sophia, decidiu mudar a sua vida. Afinal, nem tudo é o destino. Sempre há uma rota de fuga. A partir do dia primeiro de janeiro do ano seguinte, não seria uma nova pessoa (n/a: pfvr, seria muito clichê huehuehe), mas sim uma verdadeira Mel.
- Melanie, eu não permitirei que se envolva de novo com esse aspirante a encrenqueiro, impulsivo e totalmente desestruturado psicologicamente! Continue com Dougie, minha filha...
- A senhora só pode estar curtindo uma com minha cara! Acrescento que não pode permitir ou impedir nada, quem toma a decisão sou eu.
A senhora Fronckowiak levantou do sofá, com mais raiva no olhar do que anteriormente. Estava se descontrolando e Mel sabia disso, pois notou as mãos trêmulas de sua mãe e os músculos firmes. Mas ela não se abalou. Não desistiria. Desistir era uma palavra banida de seu dicionário de conceitos.
- Curtindo com sua cara? Que jeito é esse de falar comigo? Estou dizendo que não permito, ponto final!
É, seria uma longa conversa.
- Mãe, sinto muito lhe dizer, mas direi: Não perguntei nada, nem sequer pedi permissão. Eu estou comunicando que voltarei a namorar o Roobertchay. Afirmando. Decretando.
A mãe permanece estática. Melanie continua fria, decidida.
- Consegue entender? Quer que eu desenhe?
- Não, obrigado. Melanie, eu só quero o seu bem... Faço de tudo para que seu acidente não se repita e você acaba voltando com aquele moleque?
- Ele não é o culpado! Foi um acidente, como a senhora mesmo disse. E eu o amo. Amo o sorriso dele, amo os olhos dele, amo o jeito dele...
- Que jeito? O jeito totalmente louco dele? Você virou louca também!
A paciência de Melanie zerou. As palavras absurdas da mãe esgotaram tudo.
Às vezes, infelizmente, as pessoas precisam de um choque de realidade. A voltagem é proporcional à insanidade.
- CHEGA! Preste atenção, eu juro que não queria falar assim, mas falarei do mesmo jeito pois minha paciência foi esgotada. A única pessoa desestruturada, impulsiva e principalmente louca é essa mulher que está me encarando! Porque não, você NÃO é minha adorável mãe, aquela que me apoiava, discutia um assunto comigo, sorria, acreditava em destino... Onde ela se meteu? Porque foi substituída por uma arrogância autoritária e egoísta! EU AMO O CHAY, ENTÃO ACEITE A MINHA FELICIDADE!
O ano novo seria um grande passo para Chay. A passagem de ano seria em uma casa de praia da mãe de Arthur. Ele, Luís e Chay iriam para lá esta tarde. Chay estava terminando de arrumar sua mochila quando ouviu dois toques na porta de seu quarto. Fecha a mala e se aproxima para abrir a porta.
- Hey, ridículo.- Luís ri, entrando no quarto.
- Hey, gay.
- Olha, eu trouxe aquele meu amigo Dougie, espero que não se incomode ou tenha algo para falar comigo.- Chay negou, tranquilo e Luís voltou para a porta.- MORREU NO CORREDOR, IDIOTA?
- Ah, desculpe. Estava distraído com esses quadros, eles são bonitos demais.- Dougie aparece no quarto, com as mãos no bolso.
- Eu que pintei. Quer dizer, eu e Arthur, meu amigo.- Chay disse, um pouco tímido por dizer isso a um estranho.
- Caralho hein, são bonitos de verdade.- Dougie falou, sincero. Depois olhou para Luís e encarou Chay.- Desculpa se eu to sendo meio gay, mas é porque adoro Artes. Sabe como é, estudante de Letras...
Os três riram juntos. Neste momento, Chay estava quase esquecendo seu ódio por Dougie. Ele era gentil e educado, até agora. O cara poderia não ser o que pensava.
- Enfim, você e Sel vão passar o fim de ano onde?- Luís disse, sentando na cama de Chay.
- Não sei. Acho que em casa mesmo.- Dougie deu de ombros.
- WOW! Como assim Dougieman e família não vão a um cruzeiro chique? Ou a um resort na praia?- Luís riu e Dougie também.
- Você é um viado muito idiota, sabia? Para a sua informação, não viajo desde que parei.
- Sério? Desde que você parou?- Luís ficou surpreso.
- Parou o quê? Eu estou confuso.- Chay se manifestou e Luís olhou para Dougie, piedoso.
Dougie ficou nervoso, passou a mão nos cabelos e abaixou a cabeça. Ainda era difícil falar daquilo com muita calma. Chay percebeu a tensão que causara.
- Se é algo confidencial, tudo bem, me...
- Parei de fumar. Fumar maconha.
E então, tudo ficou mais sério. Chay começou a ter um pouco de pena de Dougie. Ele era um cara legal, mesmo depois de já ter entrado no submundo das drogas, continuava sorrindo e de bom humor, galanteador, como (infelizmente) viu na lanchonete e Luís já havia contado. Superando um vício.
- Ah, desculpe me intrometer. Não devia ter perguntado.- Chay se desculpou, arrependido.
- Não tem problema. É até bom para mim. Ter que admitir meu erro, encarar tudo, sabe? Fique frio.
Chay assentiu e tudo ficou mais calmo. Luís começou um novo assunto e os três passaram a manhã conversando. Arthur chegou na casa de Chay e, sem bater a porta do quarto, entrou.
- Hey. O que é isso? Uma reuniãozinha na qual fui excluído?- Ele perguntou rindo, mas estranhou aquilo. Luís ele já "conhecia", pelo menos de vista, mas o outro loiro não. Seria outro melhor amigo de Chay?- Sou Arthur. Vocês, quem são?
- Dougie, mas pode me chamar de Doug. Esse panaca fashion é o Luís. Somos amigos recentes de Chay.
"Somos amigos" Dougie estava se incluindo como amigo de Chay? Há pouco tempo ele odiava o simpático estudante de letras e agora eram amigos? Não, não tão cedo. Chay ainda sentia um pouco de incerteza sobre Dougie, pois ele era legal e simpático, mas sua autoestima era elevada e era afim de Melanie. Porém, tentaria ver o melhor daquele cara. Ser otimista.
- Luís e Chay, vocês estão... Prontos? Sabe como é minha mãe, logo depois do almoço nós vamos. Ela fica ansiosa demais com viagens.- Arthur disse, bufando e sentando em um banco do quarto.- Acaba sobrando para mim o estresse.
- Minhas malas estão na sala. Arrumei há tempos.- Luís disse, tranquilo, recebendo olhares surpresos.- Tá, não tanto tempo. Na verdade arrumei ontem à noite.
- Terminei quando eles chegaram. Só falta saber se minha mãe fará almoço, ou teremos que pedir algo. E se ela fizer, reze para sair antes da hora da janta.
Riram com o comentário. Chay falava a verdade, sua mãe era muito desastrada. Cheia de carinho e amor, mas ao mesmo tempo quase vazia de juízo. Raramente preparava refeições ou limpava a casa toda. A mãe de Arthur era ao contrário. Extremamente organizada, parecia uma formiga; andava para todos os lados da casa, sempre tinha algo a fazer ou organizar. As duas mães se desentendiam por conta das diferenças, mas gostavam da companhia uma da outra. Uma mãe solteira, a de Chay e uma mãe que enviuvou cedo, a de Arthur. Tinham algo em comum: faziam o trabalho de pai e mãe. No fim, isso era o que contava.
- Se fosse a mãe, o almoço já estaria pronto desde as dez horas da manhã.- Arthur riu.
- A minha quer a ajuda de todos para fazer o almoço. Nem parece que temos uns cinco empregados em casa. Se quiser fazer um treino intensivo para corte de galinha e saber de onde vem tanto sangue, vá preparar um almoço lá em casa. Horrível.- Dougie disse, apoiando o queixo nas mãos.
- Só minha mãe que é normal?- Luís se manifestou. Chay arqueou uma sobrancelha.- Ela prepara o almoço na hora certa e pronto. Ela mesma faz e diz que não precisa de minha ajuda. Nem para lavar os pratos!- Todos riram.
- É cara, pelo menos algum gene seu tinha que ser normal. UM BRINDE!- Chay brincou e a gargalhada foi geral. Até Luís riu da brincadeirinha.
Dougie ouviu o seu celular tocar e atendeu. Involuntariamente, todos fizeram silêncio.
- Hello, dirty love. Selena? Hm, estou na casa do amigo de Luís. Tá, já estou indo, gatinha. Ok, parei. Idiota é você.- Falou pelo telefone, rindo e desligou.
- "Dirty love"? Quem é a coitada que tem que aguentar esse apelido nojentinho?- Luís perguntou, fazendo careta. Chay e Arthur riram da situação.
- Oh, ainda bem que gostou do apelido que dei para Melanie, Luís. Aliás, vou guardar a sua opinião na caixinha do foda-se.
O sorriso que havia no rosto dos otrous três, virou uma expressão séria. Arthur olhou preocupado para Chay e Luís fez o mesmo.
- Melanie? Minha Melanie?- Chay disse, exasperado. Arthur segurou seu braço, para garantir menos "atritos".
- Sua Melanie? Já a conhecia quando a viu na lanchonete?- Dougie questionou.- Pensando bem, não tenho tempo para saber da tua história, dude. Minha irmã está precisando da minha ajuda, ela quer falar algo importante. Vou indo.- Disse, despreocupado e tomando o caminho da saída do quarto.
Assim que ele saiu, Chay correu para a porta. Ainda dava para empurrá-lo pela escada abaixo? Luís e Arthur o seguiram. Chay viu Dougie no último degrau da escada e parou na barra que se transformava em corrimão.
- Não tente nada com Mel. SERMOS AMIGOS NÃO ME IMPEDIRÁ DE QUEBRAR SUA CARA!
Dougie virou-se lentamente e levantou a cabeça para encarar o garoto parado no topo da escada. Continuava tranquilo.
- Fique tranquilo, Chay. Já tentei ter algo com ela, mas foi em vão. Pelo visto você é o cara do qual ela não esqueceu.