Querido:
Não me culpe pelo tempo.
Não me culpe pela casca da ferida.
Não me culpe pelas palavras, pelas lágrimas, pela assimetria.
Não fique aborrecido por olhar o caminho de forma diferente.
Confesso, sempre andei nas beiradas, esperando voltar aos trilhos, esperando ouvir um apito lá longe, esperando que as luzinhas piscassem em seu ritmo descompassado.
O erro que enxergo, é o descuido das consequências, sim elas vem, mas não é algo tão simples que se possa reverter.
As vezes, eu olho esses dias cinzas que tem surgido em sequência, e ao contrário das minhas juras, não poderia eu viver mergulhada neles, não poderia sozinha, não poderia sem um moço no caminho, não poderia sem as mãos que abriram minhas caixas.
Eu desacostumei-me, com as cores do céu, com os tons das luzes, com o cheiro de chá. Perdi o gosto que ficava no fim do paladar, que preenchia minhas memórias e me fazia descalça voltar correndo aos trilhos, para tristemente notar a Maria apagada, as portas trancadas e vazio ecoando.
Perdi o controle da história, das memórias, do meu sentir.
Controlar a mente é algo dolorido, sufocar suas emoções também, sangra. Causam machucaduras profundas, coisas que enraízam dentro de você, caixas que você tranca sem chaves.
O velho sábio bem dizia, que o "tempo cura todas as coisas", e o que ele não cura ele transforma e esconde, e as vezes, ele é piedoso para tirar de você.
Com a experiência dos machucados você descobre que consegue viver sem certas coisas, que a tempestade passou e você saiu dela molhado, mas que existem toalhas e roupas secas para você. Sabe, muitas vezes você acha que vai sufocar e morrer, e você nota que algumas coisas devem ser sepultadas. Não adianta você tentar reviver os momentos que ficaram no seu passado.
Pra mim não existe aquilo de se voltar é seu. Fatos não podem ser apagados. Pra mim, se a coisa volta você recomeça, se reapresenta, faz tudo diferente. Não fica tentando lembrar onde errou ou o que deixou de fazer, faz tudo novo, faz diferente. Se antes chorava, agora sorri. É simples, é simples.
Nós temos mania de complicar as coisas, mas é simplesmente viver, se quer vai atrás, corre se esforça, esfola a cara de novo, vive de novo e se for chorar chora de novo, mas não chora pelo passado, não tenta pelo passado, não faz ressurgir.
Cria algo novo.
Vive o novo.
Se reinvente e permita que as pessoas a sua volta também possam se reinventar. Seja numa estação, seja andando no centro, ou seja onde os seus passos não podem caminhar.


















