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24 de Dezembro de 2017, um dia inesquecível.
Você sabe qual é o significado de sacrifício? A necessidade de haver um ou de apenas existir o ato de sacrificar-se ou alguém? Se você for didático o suficiente, provavelmente você pensou em procurar o significado em algum dicionário online - e não perca o seu tempo, na primeira pesquisa aqui diz: ”oferenda ritual a uma divindade que se caracteriza pela imolação real ou simbólica de uma vítima ou pela entrega da coisa ofertada.” e se você não for esse tipo de pessoa mais didática e já tinha certeza do que é um sacrifício, tenho certeza que não foi esse tipo de sacrifício que você pensou.
No meu conceito, eu na verdade vivo uma religião. Ela é sangrenta. E eu sou um animal que eles cortam a cabeça com o machado e exploram as entranhas para alguém lá em cima concordar. Parece esse o sacrifício da vida. Um sacrifício grego-romano figurativo. Alguém está apreciando quando você cai e não consegue levantar, quando te roubam a decência e a sanidade, tem coisas dentro de você que são furtadas e você nunca mais pode ter de volta.
E esse é o meu relacionamento com o mundo. Eu me mantenho viva para todos os dias sacrificar um pouco de mim para receber um pouco de nada de volta.
Eu me pergunto: Se estou me sacrificando todos os dias e as pessoas veem - meu trabalho para me manter apenas viva e vazia - como algo bom. Céus, não seriam essas pessoas pecadoras por quererem tortura e o suicídio a verdadeira solução?
Eu estou morrendo de qualquer forma. Eu tenho uma doença no meu corpo e eu sei. E talvez duas, talvez três.
Talvez eu descubra que eu não tenha nada e o psiquiatra me liga e diz que eu preciso tomar olanzapina porque ela voltou para ficar.
Eu estou morrendo de qualquer jeito.
E toda vez que eu coloco um sorriso no rosto...
Não estarei fazendo por mim. Estou aqui porque eu não posso deixar Gabriela sozinha com todos os problemas que ela passa e sei que eu sou seu refúgio, estou aqui porque meu irmão só tem dez anos e eu não quero que ele cresça sem uma pessoa para cuidar dele, porquanto apenas o conceito de mãe e pai existe em nós. Estou aqui porque eu preciso estar para Paula, estou aqui porque Giovanna precisa de mim, estou aqui porque preciso ser a amiga que Daniel precisa que eu seja quando ele não estiver bem, Felipe precisa desabafar com alguém que saiba as palavras certas... Eu estou aqui porque de alguma forma elas veem um porto seguro em mim.
Eu sou algo para elas.
Que eu não consigo ser para mim mesma.
Só existe pronome pessoal nesses textos.
Eu batalho todos os dias por eles e mesmo assim, não é suficiente, uma vez que estou trancada em um quarto que não é meu, sentada em uma cama baixa e desconfortável, em uma casa que não é minha e eu estou sozinha. E quando estou só, eu não posso ser nada para alguém. Eu não estou fazendo nada de útil. Eu estou sozinha. E eu me sinto vazia.
E quando eu estou sozinha as coisas mais estranhas acontecem comigo.
Hoje é dia 24 de Dezembro de 2017. Conhecido como meu aniversário também e você só faz dezessete anos uma vez na vida. Apenas uma. E esse ano eu pensei em fazer algo diferente de todos os anos - que se resumia em passar o dia com a melhor amiga e ao anoitecer ler uma carta que eu mesma tinha escrito no começo do ano sobre coisas que deveriam ser lembradas, coisas que eu deveria ter feito no ano inteiro e chorar pelas coisas que eu perdi. Porque eu sempre perdia alguma coisa ou alguém - e minha mãe queria viajar e eu sempre quis conhecer a Bahia, nunca cheguei a visitá-la como uma turista clichê.
Eu desisti da viagem.
Eu consegui encaixar uma ultrassonografia que eu preciso urgentemente fazer numa data que comprometeria a viagem. Então com esse percalço que tem extrema importância para mim. Minha mãe e a quimera que é o meu padrasto decidiram que seria ainda necessário comemorar o natal (natal, não o meu aniversário) e um amigo dele o convidou para uma fazenda longe do centro de Aracaju, o que parecia perfeito para mim.
Não era nem dez horas da manhã e uma dor enlouquecedora se mantinha na minha garganta enquanto eu me impedia de chorar, exatamente porque a pulseira que D me deu e vale para mim mais do que todas as jóias do mundo não estava no meu braço. E alguns dias atrás ela tinha se soltado sozinha (e eu estou falando seríssimo) depois de uma sessão e o discurso dele foi de deixar as coisas que poderiam me afetar e me impedir de seguir em frente para traz naquele dia. Achei tão memorável que coloquei a pulseira na bolsa porque eu não queria usá-la naquele momento (me sentindo livre de certa forma), mas não queria simplesmente jogá-la fora.
É claro que alguém fez isso por mim. Eu perguntei para minha mãe, para meu irmão se eles tinham pegado e é claro que minha mãe continuou mexendo no celular e falando soberbamente que não tinha visto a pulseira. Coisas simplesmente não somem. E eu sei que ela desapareceu com aquela pulseira e a mesma sabia que aquela merda de pulseira representava o mundo para mim porque já tivemos antes discussões que envolveram o objeto. Minha mãe se fez de cega e surda.
Quando estava cansada demais de procurar e com o choro cativo ardendo o meu peito. Eu me lanço na cama e começo a responder as boas mensagens de aniversário, o que talvez não tenha ajudado tanto na situação do meu peito, porque havia gente importante demais ali. Eu tentei procurar outra coisa pra fazer e infelizmente tomo um susto com texto escrito no dia 30 de julho de 2017 (e eu nunca havia relido ele, eu sei disso, porque eu lembraria, nunca pensei que havia escrito um texto tão direto como aquele) e fui incapaz de segurar as lágrimas.
você foi uma pessoa horrível com uma das pessoas que você mais ama no mundo. Não repita os mesmos erros. Não importa o quanto você ache que está certa, por favor não seja egoísta.
Você nunca encontrará o que você procura, porque aquela pessoa que tinha tudo está morta.
Ame alguém pelo que ela é, não pelo que você gostaria que ela fosse.
- eu versão tinha-acabado-de-ser-furiosamente-esfaqueada-no-coração.
E meio-dia, eu já sabia que meu dia estava arruinado. São nove e meia da noite nesse exato momento e eu ainda não achei essa pulseira, o que me faz ter certeza que não deveria ser eu a tomar todos esses remédios.
Na mesma hora, meu padrasto grita tão alto com a minha mãe que meu irmão e eu paramos na porta para ficar assistindo o circo que ele fazia e uma tentativa dele ver o quão patético era tudo aquilo. Os gritos arruinaram a viagem.
Às três da tarde, minha mãe e eu temos a discussão vencedora da semana. Eu descubro que ela vêm feito mais do que procurar motivos para brigar entre os papéis do meu quarto, mais do que ler meu falso diário (que é justamente para ela ler) e o meu verdadeiro (que é um livro aleatório que eu não sei como, mas ela conseguiu achá-lo em todos os mares de livros no meu quarto). Minha mãe conseguiu bisbilhotar minhas conversas de alguma forma.
E quando eu ameacei mostrar as mensagens - que poderíamos muito bem chamar de traição para o padrasto-quimera, ela enlouqueceu de vez. Levou-me junto.
Quando estávamos trocando ofensas de maneiras diferentes, você conseguia ver a fúria e raiva nos meus olhos e refuto soberbo e indiferente no semblante dela; e eis que eu jogo na sua cara que eu queria que ela morresse, e era a primeira vez, de verdade, que eu não ponderei uma ofensa e falei algo realmente sem pensar.E como ainda posso me surpreender com essa vida, minha mãe me responde com as palavras mais premeditadas e remansas: “Não, é você que deveria morrer”.
Eis a coisa mais linda que a minha mãe fez por mim.
Ela não foi hipócrita dessa vez e me deu sua benção.
Eu respirei rapidamente e sai do quarto falando qualquer reposta aos gritos, apenas para evitar o choque das palavras no meu rosto.
Destarte, talvez eu devesse pegar todos esses remédios que me obrigam a tirar um órgão cada vez que eu acordo, transformá-los de sacrifício em suicídio. E gerar paz no meu coração. Matar essas células interruptas que me torturam diariamente.
Ou,
eu posso esperar mais um ano e ter uma overdose.
São muitos jeitos de morrer. E muitos jeitos de ser uma boa filha.
E uma observação: ame alguém que faça amar quem você é, não alguém que te faça curvar às vontades desse. E ame alguém que não quebre promessas.
Feliz Aniversário para mim.
É claro que a gente sempre quer quem não quer a gente. Como iríamos querer alguém que teve a péssima ideia de nos querer?