DE GARFO E FACA... COMO ASSIM???
Numa certa manhã de domingo, fui tomar café num lugar que eu adoro.
Sentei-me à mesa de sempre, uma que fica num canto perto da janela, de onde vejo quase todo mundo, e comecei a tomar meu café com meu bolo de gengibre e canela predileto.
Entre um gole e uma mordida, comecei a observar uma família à minha frente: um casal e uma menininha de uns cinco anos. O pai revezava o olhar entre o jornal e a garota; a mãe, de óculos escuros, parecia olhar um ponto imaginário na parede do restaurante. E a menina? Toda arrumadinha, parecendo mais uma boneca do que uma criança. Até aí, tudo bem, nada anormal.
O café do pai chegou junto com o suco da menina e o sanduíche da mãe. Mecânica e elegantemente, ela retirou os talheres que estavam embrulhados no guardanapo e começou a cortar e a comer o sanduíche. Eu nunca tinha visto aquilo. Quanta formalidade numa refeição domingueira!
Fiquei pensando com os meus botões que, muitas vezes nesta vida, a gente tem tudo, mas não aproveita realmente como deveria. A gente está tão preocupado com a forma, com a “performance”, com o estilo, que passa mais tempo lustrando do que usufruindo!
Talvez a gente precise de um ar mais leve no semblante, de roupas menos engomadas, de menos talheres à mesa.
A gente anda muito preocupado com a forma e menos com a essência, com a serventia das coisas. Então os sorrisos se engessam, o ar da alma fica rarefeito e a gente termina sendo referência de infelicidade e de estranheza.
Que as coisas boas da vida façam mais sentido, sem as amarras da formalidade!
Quebre o protocolo, não acrescente peso ao que a vida criou naturalmente leve como um sanduíche com tudo dentro: pegue com a mão mesmo e dê aquela mordida que enche a boca, sem medo de parecer guloso.
E essa regra serve também para os abraços, para os sorrisos, para os beijos e para todas as coisas boas que dispensam "talheres" para serem apreciadas como devem.
Lídia Vasconcelos












