[Sessão Crítica] Frame Fatal
por Thiago Rabelo
Frame Fatal (2018), dirigido e roteirizado por Thiago Rabelo conta a história do (não-tão-bem-sucedido) detetive Toni Balestro (João Paulo Lopes) conforme ele tenta sobreviver de um ofício numa época em que, segundo ele, não é muito valorizado. O personagem inclusive, afirma que nasceu no “tempo errado”, e por isso, ele é envolto numa atmosfera de suspense e o curta usa da sua influência noir, para recorrer estabelecer uma história baseada no gênero, com a condenação do personagem e a sua eminente tragédia.
A influência noir de Frame Fatal é evidente desde os seus primeiros minutos: o preto e branco em sua fotografia, que é um dos aspectos mais reconhecidos neste gênero cinematográfico. Além disso, o curta-metragem usa bem as figuras arquetípicas recorrentes ao noir para desenvolver a sua própria narrativa. Existe a figura do detetive, retratado aqui, como um forasteiro, um homem fora de seu tempo, perdido e a procura da sua redenção. Em seguida, existe o surgimento da figura feminina: Laura, a femme fatale interpretada por Adryele Muriel, e como retratadas nos longas de 1939 a 1950, as femme fatales são o símbolo da perdição do personagem principal.
As nuances do roteiro podem ser percebidas nos mínimos detalhes, quando os atores são bem dirigidos ao percebermos eles que conseguem ter clareza das dinâmicas entre seus personagens no uso dos diálogos, nas pausas e no uso dos olhares, e por isso, compreendê-los de forma individual. O intérprete de Toni, consegue captar bem a essência do personagem: desajeitado, deslocado e desperançoso com a própria existência; uma boa referência às produções noir originais, que retratavam bastante este clima de infelicidade, dado seu contexto histórico de produção (o pós-guerra), além de ser um dos motivos pelos quais valeram o uso do preto/branco, simbolizando o bem e o mau e o choque destes aspectos. O curta contêm um ar cômico, já iniciando-se com um vídeo de qualidade bastante duvidosa que divulga o trabalho de Toni, que consegue sustentar estes aspectos cômicos (pelos trejeitos e pelas falas) ao longo da narrativa. A intérprete de Laura, consegue retratar bem a figura feminina da femme fatale, trazendo para si uma personalidade dominadora e plena nas suas movimentações e nos olhares e a maneira como se porta diante o parceiro de cena, algo que lhe é inerente, e que falta em Toni: eles são opostos, o que produz um contraste interessante em suas interações.
A arte do filme consegue conter elementos comuns ao gênero noir (o casaco sobretudo, o chapéu), o uso da fumaça em diversos momentos do curta, mas ainda assim, sendo capaz de situar a história em dias mais atuais (os celulares, o computador, o uso do e-mail e a referência às mídias sociais) sem fazer com isto cause confusão no telespectador. Também é feito um uso bastante interessante da luz, principalmente na cena do assassinato (com um feixe de luz muito branco, evidenciando personagens e perspectivas). O uso da trilha-sonora é muito satisfatório levando em consideração que a mesma foi desenvolvida para a produção de forma inteiramente independente, e consegue evidenciar muito uma identidade determinando suas paisagens sonoras.
Um ponto que, na minha opinião, pode ser identificado como negativo é o quão longo os créditos iniciais no começo duram, e apesar de entender a importância do nome da divulgação dos membros da equipe, os mesmos nomes são divulgados novamente em créditos finais, por isso, pergunto-me qual a necessidade de evidenciar isto em dois momentos do curta. Creio que a cena inicial, sem a existência dos créditos, apenas com a trilha-sonora seria de bom tamanho, além de evidenciar ainda mais o cenário e uma ambientação de grande importância para a existência do personagem principal.
Ao final do curta, os aspectos que evidenciam o noir, desaparecem: o preto e o branco dão lugar para um cenário bastante saturado de cores, o personagem abandona seu casaco longo e seu chapéu, distancia-se do seu escritório e esconde-se num local totalmente diferente do qual ele estava acostumado a frequentar; ele não está mais no seu habitat. E isto simboliza o despertar de Toni para uma realidade ainda mais dolorida. Realidade da qual ele está fadado à culpa, a injustiça e acima de tudo, à um triste fim, afinal, ele é um homem fora do seu tempo, um eterno condenado de si mesmo.
Frame Fatal referencia-se ao noir desde seus momentos iniciais e consegue manter-se firme nesta proposta, usando de aspectos já conhecidos para evidenciar a si com tais elementos e práticas comuns à este gênero (não frequentes nas produções contemporâneas), e na mesma medida, prestar homenagem ao gênero do qual ele se inspira.
O filmes está disponível no perfil VIMEO da IN4 filmes:
Esse texto foi produzido a partir da disciplina Crítica e Curadoria do curso de Cinema e Audiovisual da UEG, sob a orientação da professora Geórgia Cynara.




