fresta QLPS1-44 | o lugar escolhido
Domingo de manhã. Cheiro de sabão em pó. Calor aliviado pela camiseta regata levantada. Se o verão forçasse a barra, era sem camisa mesmo. Na mesa de madeira falsa tem manteiga no pão fresquinho, raridade em casa onde só dava pra comprar margarina.
Piolho pra cá, Piolho pra lá. Todos tinham nomes especiais. Era a rotina que batia em mim, mas a sentia sempre inesperada: Ayrton Senna na TV ganhando mais uma vez, macarronada com salada com mais tios com mais tias com mais gatos com mais pinball no PC vidrando gerações. Uma japonesa pequenina no canto fingindo que faz comida. Uma brasileira no fogão cozinhando gohan. Não sei datas, não sei ordem, sei que é parte.
Há pedaços que transbordam em momentos limites e fazem com que o tempo vire uma ação, como se essa coisa que não existe, do nada, aparecesse e te acertasse a testa.
O tempo nesse formato te bota em um espaço desconhecido, um lugar novo, em eterna tentativa de compreensão. Alguns amigos dizem que isso que é a experiência, outros relatam que é falta do que fazer. Gosto de achar que é escolha. Uma escolha do momento e do lugar que estamos nesse mundão. É o máximo que consigo almejar, para quando esse pedaço do espaço-tempo estiver vindo me acertar, eu possa sentir serenidade, alegria e um tanto de fé em tudo aquilo que não comprendo.
É assim que tenho saudades das pessoas e das coisas, do que foi e do que será, com o alívio de saber que inevitavelmente é parte de mim e dos que me rodeiam.
[16 de janeiro de 2015]













