Ele e o cara no metrô
O metrô tá mais ou menos cheio e ele senta num vagão preferencial. Tinha um cara em pé lendo um texto do lado dele. Ele não olha no rosto do cara, mas sente seu perfume. Senta ao lado de uma senhora e com a mochila no colo. Logo que senta o cara encosta o pau no ombro dele e deixa. O movimento encosta-afasta acompanhava mais ou menos o balançar leve do metrô. Quase imperceptível. Ele finge que não percebe, fala no celular, olha se não há ninguém de direito para sentar naquele banco. O cara roça sutilmente, sem chamar a menor atenção. "Só os devires são secretos; os segredos têm um devir". Ele finge que não acontece nada. Não olha diretamente nos olhos do cara, pra não correr o risco de dar a entender alguma queixa. Procura um sinal no reflexo do vidro, mas lá fora estava escuro demais pra ver o rosto do cara. A senhora ao lado se levanta e, como que adivinhando um convite, o cara se senta e continua lendo seu texto. O cara senta ocupando espaço, relam um no outro, tão de leve que ele tem dificuldade em registrar como mútuo. O cara segura o texto com a mão esquerda e apoia a direita com o mindinho sobre a cocha, a mão entreaberta. Ele tira a mão direita da mochila e coloca sobre sua cocha direita, aproximando da mão do cara. O cara imediatamente aproxima mais a dele, e foram indo. Ele sem saber se era recíproco ou era perversão, se corria o risco de apanhar ali. O cara lendo o texto e ele olhando pra frente, seco e apático como todos demais no vagão. Ele e o cara não trocaram nenhum olhar e nenhuma palavra sequer. Ele teve certeza só quando o cara meio que levantou um dos dedos e ele encaixou os dele. Conexão. Aí o cara guardou o papel que estava "lendo" e pegou o celular. Digitou um número e ficou segurando, sem mostrar. No que ele percebeu que era pra ele, pegou o seu celular, registrou o número e fez o mesmo. Continuaram a relar, suave, secreto e ao mesmo tempo transparente. Então o cara desceu, ele ficou sem saber se ia atrás. Não foi. Quando ele tá no ônibus, recebe uma mensagem do cara: "Ola rapa, blz? Estava ao seu lado no metro. A fim de trocar uma ideia?"


















