Amanhã é o meu aniversário. Não sei se quero enfrentá-lo...
Não é porque quero morrer, e sim por causa da hipocrisia das pessoas que me rodeiam. Nunca acreditei em um "Feliz Aniversário!", tampouco em um "Deus te abençoe e te dê muita paz e saúde"... São somente diálogos prontos que compõe um ritual criado pela convenção humana, aquela de que você deve comparecer à uma festa de cara lavada, trajando a melhor roupa, carregando o presente mais caro. O que significa, afinal, esses diálogos? Para que os presentes? Por que ficar elegante? Será que é de coração ou é só mais um ritual popular?
Minha família gasta fundos que não deveria para celebrar o dia do meu aniversário. Em vez disso, cada um fica no seu canto - minha mãe faz chamadas de vídeo, tira fotos e posta no Facebook com legendas indicadoras de uma perfeição, devoção e harmonia que minha família não tem; os parentes mantêm seus celulares ligados enquanto a comida se vai aos poucos e a música consome nossos ouvidos; e quanto a mim, fico sentado numa cadeira observando tudo, desde os risos até as pernas tremendo com uma vontade extrema de ir embora. Ninguém está pronto para comemorar. Tudo está difícil porque sempre foi. Sempre fugimos, alegando ter algo mais importante para você. Todavia os convidados estão ali, para mostrar que são pessoas educadas porque não recusaram o convite, porque compraram presentes, sorriram e comeram como nobres ricos. Não dou a mínima para uma reunião como essa. Eu só queria comemorar sozinho, da minha maneira, sem festa, bolo, docinhos... Sem esse ritual hipócrita.
Está na hora de eu fazer minha própria celebração. Passaria o dia numa floresta onde eu pudesse escutar minha própria respiração, e que o som da água rasgando as rochas e o pio dos pássaros cortando as árvores pudessem anular meus pensamentos altos. Eu sentaria de pernas cruzadas, ligaria o meu notebook e começaria a escrever as maravilhas que meus olhos contemplam. Poderia passear pelas trilhas, ser devorado pelos mosquitos e, quem sabe, avistar uma sucuri pronta pra me devorar. Estar com a natureza sempre me deixou mais calmo, contudo ela está cada vez mais longe da minha realidade. Ainda assim, a idolatraria até o sol perder seu brilho, e até a lua margear a imensidão negra que reveste nosso céu e esbanjar sua escuridão sobre mim.
Amanhã é o meu aniversário e tudo o que eu mais queria era me isolar de todas as porras. Abraçar uma árvore, registrar meu nome em seu tronco, roubar flores exóticas... Sei lá, qualquer coisa que me deixasse em paz comigo mesmo.
Sou somente um estranho exercendo minhas próprias bizarrices porque são elas que me mantém respirando.