A criança que não chorava
As vezes somos sem perceber. A falta da compreensão daquilo que enxergam de nós pode muito bem evitar que nos tornemos. Talvez seja assim que existam feios felizes, se não por uma família encorajadora, pela ignorância. Foi, então, por infeliz incidente de sua inteligencia que ela entendeu-se estúpida. Sempre quieta, eles não poderiam imaginar o enorme gasto de energia intelectual que fazia para manter-se inerte. Os adendos à conversa de fora rodeavam sua cabeça, eram críticas sofisticadas, inescrutáveis e por isso mesmo permaneceriam consigo. Foi também pela mesma razão que percebeu: caso não falasse, seria para sempre estúpida. Então, como um ato de gloriosa diferenciação do destino das coisas, se calou. O silêncio, na verdade, já lhe acompanhava quando menor, ou naquele momento de ser quase nada. Enquanto a prima ostentava o grito e o choro, que era apoiado por sua tia desesperada, a pequena recebia olhares vazios e despreocupados diante dos cortes e machucados da sapecagem. O jeito meio de rejeição àquela dor, vindo dos pais, acompanhavam sempre algum conselho bondoso do tipo "te vira" . E foi assim que, acreditando sua dor não valer reclames, que, quando caiu 17 degraus escada a baixo, não chorou. Enquanto sentada meio torta, com as perninhas do tamanho do seu braço viradas pro outro lado, sentia alguma angústia que não saberia dizer o nome, uma dor que não sabia ser dor. O socorro à esse tombo veio num tardar de alguns anos. Acusada de dramatizações e interpretações de tristeza que camuflavam uma preguiça sofisticada e malévola, nunca acreditou no próprio sofrimento. Foi na frequente ocorrência entre conversas de praxe, onde os componentes ainda não compartilham intimidade e quando sem deixar-se mostrar eleva-se o outro com quem se fala de modo à procurar elaborar um certo discurso aproveitoso o suficiente, de demonstrações de empatia pelo sofrimento de outrem inicialmente interpretadas por ela como exageradas, que se percebeu não serem menos que um carinho deleitoso e essencial não experienciado na sua infância. ...














