Gestão de Conflitos - o inimigo não está fora
Dou formação sobre Gestão de Conflitos há mais de 20 anos. Durante os primeiros dez anos, estas formações assentavam sobretudo no treino de assertividade e na compreensão da forma como a comunicação define relações de poder.
Defendia que a eficaz resolução de conflitos implicava comunicar de uma forma firme mas não agressiva, implicava expôr abertamente as nossas necessidades bem como ouvir e integrar as necessidades do outro e, em conjunto, procurar denominadores comuns e soluções criativas.
Não havia (nem há) nada de objectivamente errado nisto, tirando o facto de constatar que, na prática, as pessoas manifestavam pouca motivação para assumir uma postura tão equilibrada e igualitária diante dos conflitos.
Percebi que a resolução de conflitos não era uma questão técnica. As pessoas até podiam simular uma conversa extraordinariamente assertiva enquanto, no seu interior, imperava a vontade de “levar a água ao seu moinho”.
Na verdade, a forma como lidamos com as situações de conflito é algo mais profundo do que a simples forma como comunicamos. É uma questão emocional e motivacional e, sim, tem a ver com o poder que todas as relações envolvem.
A partir daí mudei o meu foco. Comecei a trabalhar a dinâmica das nossas emoções.
Quando estamos tomados pelo medo, até podemos controlar durante algum tempo a forma como comunicamos mas, a dada altura, o nosso estado defensivo vai revelar-se nas mais pequenas coisas sem que, muitas vezes, tenhamos consciência disso. Como o medo é “contagioso”, os demais à nossa volta são contaminados por ele e ficam igualmente defensivos. É o nosso modo de sobrevivência. Dificilmente o poderemos arrancar de nós. Temos de aprender a lidar com ele.
Hoje vejo o conflito, não apenas como inevitável, como também essencial para o nosso crescimento. Eu não posso aprender “escalada" só em teoria. Se eu quero aprender a escalar montanhas eu tenho mesmo que as subir e enfrentar os obstáculos que se me colocam.
Com as relações humanas é igual. Cada conflito é uma oportunidade para escolher dar poder ao medo e defender-me (ou seja, ficar cá em baixo a reclamar) ou dar poder à minha vontade de crescer e conectar-me com o outro. Por outras palavras, subir mesmo a montanha.
É por isso, por depender daí o nosso crescimento, que é tão importante aprendermos a gerir os conflitos. E não é (só) com técnicas de comunicação, é a partir de dentro, porque é dentro de nós que se encontra o nosso maior adversário.
Copy: Paulo Xavier / Socialware (Factoryano)